Marés Vivas: o quiz show de Jessie J

Ótima forma vocal e excelente humor por parte da muito faladora cantora.

A Jessie J, não lhe bastou ser apenas cantora, quis ser a amiga próxima de cada espectador. Além da excelente performance vocal da cantora no Marés Vivas, muito bem apoiada pela excelente banda, Jessie J esteve humorada e muito, muito generosa, quebrando o rigor que um espetáculo daquela monta impõe.   

Jessie J apresentou-se com um vestido rendado e com pontos brilhantes, a reforçar a figura elegante. Tem categoria para ser a femme fatale do Marés Vivas. Sobe a escadaria do palco do cenário de palco de forma glamourosa, olhando de repente para trás de fugida, como uma estrela de cinema. Sabe sacudir com estilo o cabelo comprido para trás das costas. E ergue o braço a cantar no topo da escadaria como uma rainha. Ainda por cima, Jessie J estava com a omnipotência vocal e aliou a boa forma ao bom humor.

Ocupando muito bem o palco com vários pisos, mostrou-se logo muito comunicativa após ter cantado apenas duas músicas. Pede para ligarem as luzes para poder ver o público à sua frente - “vim para vos ver e vocês a mim” - e estabelece algumas regras: “não cantem se a voz não estiver boa” e “não me olhem na cara se não souberem a letra de cor”. Mas Jessie J estava só a brincar. Era a cantora inglesa que estava a fugir às regras da normalidade. A sua imprevisibilidade foi somando mais episódios. Interrompeu a interpretação Burnin' up quando vê espectadores da frente em apuros. E quando retoma, já está a pegar no clássico Sex Machine, a forçar uma rouquidão que homenageia James Brown.

Depois, começa o seu quiz show com muitas perguntas para fazer aos espectadores. Tem uma conversa direta com dois espectadores - Sofia e Joaquim - e aconselha-os a serem eles próprios. Pergunta-lhes a idade e o que querem fazer na vida. É o mote para a festa de It's My Party, onde Jessie J canta a dizer que vai fazer o que quer porque a festa é sua. Em Nobody’s Perfect, é também soul-rocker com fibra e uma voz desdobrável nos mais variados tons. “Aqui é tudo ao vivo”, avisa, e com razão, numa época em que cada vez se toca e se arrisca menos.

A Jessie J, não chegava conhecer só os membros do público das filas da frente. E por isso chama uma fã às cavalitas do seu pai, lá mais atrás, com um cartaz e puxa-a para o palco para uma espécie de entrevista. Ficamos a saber tudo sobre ela: chama-se Camila e tem 14 anos. “Eu também tenho 14 anos”, responde a sempre brincalhona Jessie J. O que se seguiu foi um dueto entre a cantora e a muito emocionada Camila, que tem uma prestação vocal precisa e profissional, sabendo de cor a letra de Flashlight, com Jessie J sentada ao seu lado.

“Vocês é que são os super-heróis, eu sou só a banda sonora”, a operação de simpatia de Jessie J continua com um conteúdo de frases fortes, antes de se lançar a Who You Are, balada que começa sussurrada, mas que depois descola para umas subidas de frequência vocal.

“Goza a tua vida. Sejam vocês próprios”. Os conselhos de Jessie J continuam. Não há pausa entre as músicas em que Jessie J não desate a falar. I Want Love é cantado em modo de celebração, mas Jessie J manda repetir: “sou perfeccionista”, diz. Depois, lá vem mais uma pergunta de inquérito: “alguém sabe a letra de Bang Bang”, o tema em que simula o ato sexual com o microfone, num dia realmente especial para a coreografia sexual, tendo em conta que o show seguinte era o de Anitta.

Jessie J vê cartaz a cartaz e repara num que diz “Jessie J sign my tits”. Sempre imparável na sua boa disposição, diz que vai cantar uma música nova pela primeira vez - o que seria estranho tratando-se da fase final do concerto. Afinal era a música mais popular e cantada do seu concerto: Price Tag. Jessie J volta a puxar da sua sensualidade quando se deita na escadaria durante os solos instrumentais de despedida. Na música de encerramento, Domino, Jessie tirou os sapatos de salto alto, subiu a escadaria, e esticou os braços no ar, fazendo uma sombra fotogénica ao foco de luz sobre ela. Terminava assim um belíssimo espetáculo.