2022: as polémicas que abanaram o mundo da música

Kanye West foi o Ministério da Polémica, mas houve mais protagonistas: de Harry Styles a Roger Waters. Eis as polémicas que marcaram o mundo da música ao longo do ano.


Kanye West/Ye/o multiplicador de polémicas 


O artista norte-americano tem sido assunto na imprensa, nas redes sociais e, apostamos nós, até em algumas mesas de café. É certo que o volume das polémicas é grande, sumarento e até já costumeiro, mas, como há mais para relatar neste balanço de 2022, faremos o melhor para resumir as tropelias do músico no desenrolar do ano. Façamos por isso um breve levantamento cronológico:

Em meados de janeiro, o mundo soube que West estava a ser investigado pela polícia de Los Angeles. Motivo? Uma altercação com um fã. Ao que parece, o tal fã foi esmurrado pelo músico quando bateu no vidro do carro onde seguia West. Os relatos da imprensa internacional referem que o episódio aconteceu porque o fã queria apenas um autógrafo. West não terá achado piada nenhuma ao arrojo do seguidor e acabou por responder com violência.  

Mês de março. Kanye West é suspenso por 24 horas na rede social Instagram por ter feito uma série de publicações menos agradáveis sobre o ator e comediante Pete Davidson, que, por essa altura, estaria numa relação com Kim Kardashian, a ex-mulher de Ye. Não contente com o envolvimento de ambos, o polémico West largou as frustrações nas contas pessoais e até no videoclipe que fez para o tema 'Eazy', no qual rapta e enterra uma figura que se assemelha muito a Davidson.

Abril e mais uma polémica westiana. Ye cancelou o concerto que ia dar no Coachella - o gigante festival da Califórnia. Em fevereiro, o rapper tinha ameaçado cancelar a atuação no festival depois de Billie Eilish ter feito um comentário que West interpretou como uma indireta à tragédia que aconteceu durante um concerto de Travis Scott, em Astroworld, no Texas, da qual resultaram vários mortos. Durante um concerto, Eilish disse ao público: "vou esperar que se acalmem para poder retomar". Aos olhos de West tal comentário foi afinal uma indireta ao que aconteceu em Astroworld.

Damos um saltinho no tempo até outubro. Foi nesse mês que Kanye West usou uma camisola que originou um rol inesgotável de críticas. É que a controversa peça de roupa, usada por West no Paris Fashion Week Show, tinha a inscrição "White Lives Matter" ["as vidas dos brancos importam"]. Ora, muitos qualificaram a atitude do músico como uma provocação à mensagem original - "Black Lives Matter" - que luta contra a repressão policial contra a população negra norte-americana. A expressão que Ye andou a passear em Paris está inclusivamente identificada pela Anti-Defamation League como sendo um slogan de ódio ostentado por movimentos de supremacistas brancos.

Ainda em outubro, a marca Adidas decidiu pôr um ponto final na parceria que mantinha com West desde 2014. A relação entre a marca alemã e o músico não era propriamente pacífica, mas foram os comentários que o artista proferiu sobre os judeus que deram o empurrão final para o desfecho. A marca alemã juntou-se a uma longa lista das marcas que quiseram distanciar-se do rapper. E o Twitter suspendeu-lhe a conta.

Como resposta aos sucessivos cancelamentos, o rapper (que entretanto tinha voltado ao Instagram) partilhou uma publicação que dizia ser "um discurso de amor". "Perdi dois mil milhões de dólares num dia", começou por escrever. "Mas ainda estou vivo. Este é um discurso de amor. Continuo a amar-vos. Deus continua a amar-vos. Não sou o dinheiro. Sou o povo", acrescentou o artista norte-americano. 

Britney Spears: On e Off do Instagram 

Outra figura que tem sido intermitente nas redes sociais é a cantora Britney Spears. A artista norte-americana, que casou em 2022 com Sam Asghari, tem sido uma presença forte, sobretudo no Instagram, mas não constante. A conta na plataforma tem sido frequentemente desativada e muitos fãs já questionam se é mesmo Britney quem está a geri-la. Há poucos dias, o marido da cantora, Sam Asghari, explicou as razões da saída mais recente.    

 
"A comunicação social pode ser traumatizante. Às vezes, é bom fazer uma pausa. Ela tem a sua voz e é uma mulher livre. Respeito a sua privacidade e estou sempre a protegê-la. Obrigado a todos os fãs que a protegem", lê-se na nota publicada no Instagram. Entretanto, podemos respirar fundo, Britney Spears já voltou a acionar a conta. 

Taylor Swift e fãs vs a gigante Ticketmaster

Se tudo tivesse corrido bem, os fãs da Taylor Swift teriam tido a oportunidade de adquirir tranquilamente os bilhetes para a fatia norte-americana da digressão "Eras" que arranca em 2023. Mas não correu. A pouca eficácia do processo de compra e venda online (gerido pela Ticketmaster) deixou muitos swifties de mãos a abanar. Milhares ficaram sem bilhete e sem paciência. A Ticketmaster teve mesmo de cancelar a venda devido à elevada procura por parte do público na fase da pré-venda e dos subsequentes problemas no sistema que impossibilitaram a aquisição dos códigos que viabilizavam o acesso à compra.

O site caiu diversas vezes e os compradores ficaram "retidos" em longas filas de espera - o que acabou por gerar um movimento de queixas e reclamações. A gigante da indústria justificou o cancelamento da venda com uma "procura extraordinariamente elevada" e grande número de ataques vindos de bots, o que não serviu para tranquilizar Taylor Swift. A cantora não gostou da odisseia de complicações na bilheteira e manifestou um profundo descontentamento com o que aconteceu. "Perguntamos uma série de vezes se estariam aptos para lidar com a procura. Asseguraram-nos que sim", escreveu Swift. "É muito difícil confiar em entidades externas, com esse tipo de relações e direitos. É doloroso ver este tipo de erros a acontecer", acrescentou na altura.

Harry Styles cuspiu ou não cuspiu? - o chamado spitgate (em português: o imbróglio da cuspidela)

Podemos dizer que "Don't Worry Darling" (filme realizado por Olivia Wilde, ex-namorada de Harry Styles) estreou com pompa e com uma série de circunstâncias (um pouco estranhas) no Festival de Cinema de Veneza. Foi em setembro que o elenco da película (do qual Styles faz parte) andou a passear pela carpete vermelha de Veneza, ao mesmo tempo que semeava especulação pelo mundo inteiro.

Os acontecimentos no evento, como a distância entre Olivia Wilde e Harry Styles ou a ausência da atriz Florence Pugh na conferência de imprensa, agitaram as redes sociais mas houve um em particular que transformou os internautas em detetives de alto gabarito. As imagens são relativamente claras mas não o suficiente para percebermos, sem quaisquer dúvidas, se Harry Styles cuspiu ou não em cima de Chris Pine (outro ator do elenco) quando chegou ao lugar que lhe estava destinado na plateia durante a exibição do filme no festival de cinema italiano. 

As imagens aqui:


Certo é que, depois das especulações em massa, ambos os atores garantiram que a cuspidela não existiu. Styles, recorrendo ao humor britânico que lhe é natural, até brincou com o episódio. "Acabei de dar um salto muito rápido a Veneza só para cuspir no Chris Pine", disse o artista britânico durante o concerto que deu alguns dias depois em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Os representantes de Chris Pine também negaram a cuspidela. "Harry Styles não cuspiu no Chris Pine. Não há nada se não respeito entre estes dois homens e qualquer sugestão de outra coisa é uma tentativa descarada de inventar um drama que simplesmente não existe", dizia a nota enviada à imprensa. 

Com amor, (a máquina do) Bob Dylan 

A polémica rebentou em novembro. O histórico Bob Dylan teve de pedir desculpa aos fãs e seguidores por ter recorrido a uma máquina para imprimir autógrafos que foram comercializados como se tivessem sido escritos à mão. A máquina foi usada para replicar assinaturas numa edição especial e limitada do livro "A Filosofia da Canção Moderna", de 2019. Os livros que teriam sido assinados por Dylan custavam 600 euros. Os fãs, sobretudo os que pagaram pela exclusividade de terem uma assinatura manuscrita, não gostaram da substituição da mão pela tecnologia e reagiram nas redes sociais. Dylan acabou por assumir o erro e justificou a utilização da máquina com o facto de ter sofrido episódios de vertigens em 2019 - o que terá continuado durante os anos de pandemia. "Sempre fui eu a assinar, nunca foi um problema. O que acontece é que em 2019 tive um caso sério de vertigens, algo que continuou durante a pandemia", lê-se no texto que Dylan publicou.

Roger Waters e concertos cancelados na Polónia 

A agenda de concertos do músico britânico foi encurtada em setembro, quando as autoridades polacas anunciaram que iam declarar Waters de "persona non grata" naquele país. As datas dos espetáculos, que estavam marcadas para solo polaco no próximo ano, foram canceladas - tal como foi o músico. A razão prende-se com as declarações que Waters fez sobre a guerra na Ucrânia, atribuindo a responsabilidade pelo início do conflito bélico aos "nacionalistas extremistas" ucranianos. O músico britânico também tem feito críticas à NATO e ao Ocidente por fornecerem armas à Ucrânia que continua a lutar contra a invasão russa.

Também em setembro, Roger Waters escreveu uma carta aberta ao Presidente da Rússia, Vladimir Putin, com um pedido: a paz. "Tenho sido desafiado para lhe escrever, por isso aqui vai. Primeiro, será que gostaria de terminar esta guerra? Se respondesse a dizer 'sim, por favor', isso tornaria as coisas muito mais fáceis. Se afirmar que a Rússia não tem qualquer interesse territorial, além da segurança das populações russófonas da Crimeia, Donetsk e Lugansk, isso ajudaria também. Bem sei que os Estados Unidos e a NATO invadiram países soberanos sem pestanejar ou por alguns barris de petróleo, mas isso não significa que tenha de fazer o mesmo. A sua invasão à Ucrânia apanhou-me completamente de surpresa, tornou-se numa guerra hedionda de agressão, provocada ou não", podia ler-se na missiva dirigida a Putin. 

Pedro Abrunhosa também tinha um recado para dar a Putin e a embaixada da Rússia em Portugal não gostou 

Foi a 2 de julho que Pedro Abrunhosa falou no líder russo e na guerra que marcou o ano em solo europeu. As declarações foram proferidas durante um concerto em Águeda e não demorou muito até chegarem à embaixada russa, em Lisboa. "Não podemos (nem vamos) esquecer que a Europa vive uma guerra. E é a guerra mais estúpida de todas, uma guerra perfeitamente evitável, uma guerra de ódios, uma guerra em que famílias como as nossas todos os dias têm que fugir. Putin, vai-te lixar", disse Abrunhosa durante o espetáculo.  

A embaixada da Rússia em Portugal não gostou da menção ao poderoso do Kremlin e teceu duras críticas às palavras do músico. "A embaixada tem recebido cartas dos compatriotas russos que dizem estar chocados pelo comportamento de um famoso cantor português, Pedro Abrunhosa". A nota, publicada online, acrescentava que as palavras do cantor portuense "foram ouvidas" e que "as respetivas conclusões seriam tiradas". O comunicado referia ainda que "a embaixada da Rússia continuava a vigiar os interesses dos cidadãos russos residentes em Portugal e que tais provocações ignóbeis ficariam sem resposta". Pedro Abrunhosa, sentido-se intimidado, respondeu às considerações da embaixada com o facto de Portugal ser um país com um regime democrático, assente na liberdade de expressão.

Elon Musk entra no Twitter, Elton John e Jack White saltam fora 

Em dezembro, Elton John decidiu abandonar o Twitter. O músico quer distância da plataforma agora que Elon Musk a lidera. O artista britânico justificou a saída com as mudanças que Musk implementou naquela rede social, como é o caso da suspensão da verificação de informação relacionada com a Covid-19. Elton John explicou aos seguidores que as "recentes mudanças na política" do Twitter permitem o aumento de desinformação e a subsequente desunião do mundo" - sendo essa a razão maior que o faz fechar a conta. Ao longo de toda a minha vida, tenho usado a música para unir as pessoas. Entristece-me ver como a desinformação está a ser usada para dividir o nosso mundo", escreveu o artista britânico numa publicação que fez na rede social que decidiu abandonar. 

Elton John não foi o único a saltar fora da rede. Whoopi Goldberg, Trent Reznor, Jack White ou Jim Carrey também anunciaram a saída da plataforma devido às ideias que têm saltado da cabeça do novo dono. Em novembro, Jack White justificou a saída com o facto de Elon Musk ter devolvido a conta a Donald Trump - o antigo presidente dos Estados Unidos que tinha sido banido da famosa rede social em 2021 "devido ao risco de incitação à violência". 

Win Butler, o homem dos Arcade Fire, foi acusado de conduta sexual imprópria 


No final do mês de agosto, a Pitchfork noticiou que quatro mulheres acusavam Win Butler de conduta sexual imprópria. O homem dos Arcade Fire, casado com Régine Chassagne que também integra o grupo, assumiu ter tido relacionamentos extraconjugais mas garantiu que as relações foram consensuais. O canadiano admitiu que as relações fora do casamento surgiram numa altura complicada, quando se debatia com uma depressão e com problemas de alcoolismo. Apesar de terem circulado notícias com as acusações, os Arcade Fire seguiram em frente com a digressão que passou por Portugal em setembro.

A cantora Feist, que deveria ter atuado na primeira parte dos concertos, é que decidiu abandonar a tour na sequência dos acontecimentos. "As minhas experiências são iguais a muitas experiências que fui ouvindo da boca de pessoas com quem conversei desde que a notícia foi divulgada no sábado e iguais às histórias de muitas outras pessoas que vão ler esta carta ou não. Todos nós temos uma história dentro do espectro que vai desde a masculinidade tóxica básica até a misoginia generalizada - isto até passar a ser agressão física, psicológica, emocional ou sexual. Essas situações marcam a vida das pessoas", escreveu a cantora nas redes sociais quando se posicionou sobre o assunto. "Sou imperfeita e vou tomar esta decisão de forma imperfeita mas acho que o melhor para a minha banda, equipa e família é distanciar-me desta digressão mas não deste debate. As últimas duas noites no palco e as minhas canções tomaram esta decisão por mim. Ouvi-las com estas lentes seria incongruente com tudo aquilo que fiz para ser o mais fiel possível a quem sou ao longo da minha carreira. Sempre compus canções para falar das minhas dificuldades, para aspirar ao melhor de mim e para responsabilizar-me quando necessário. É o que estou a fazer agora. É por isso que vou para casa". 

Nick Carter, um dos Backstreet Boys, foi acusado de violação 

Nick Carter foi novamente acusado de agressão sexual. Foi em dezembro que Shannon "Shay" Ruth, de 39 anos, acusou Carter de a ter violado depois de um concerto que o grupo deu em Washington, Estados Unidos, em 2001. Na altura, a alegada vítima tinha 17 anos e Carter 21. De acordo com o que foi noticiado pela Rolling Stone, o processo judicial deu entrada num tribunal de Nevada. A mulher, que diz sofrer de autismo e de paralisia cerebral, alega que estava numa fila à espera de autógrafos quando foi convidada por Nick Carter a entrar no autocarro da digressão do grupo. Ruth conta que o músico ainda lhe ofereceu uma bebida alcoólica e que, logo depois, a violou.

Shannon "Shay" Ruth disse ter ficado em silêncio durante todos estes anos por recear represálias. "Senti que não podia recorrer a ninguém. Pensei que se dissesse a alguém, iria parar à prisão", disse. Nick Carter desmentiu as acusações. "Esta alegação sobre um incidente que supostamente terá acontecido há mais de 20 anos não só não é legalmente sustentável como é totalmente falso. Infelizmente, nos últimos anos, a senhora Ruth tem sido manipulada para fazer alegações falsas contra o Nick - e essas alegações têm mudado constantemente  ao longo do tempo. Ninguém deve ser enganado por um golpe da imprensa orquestrado por um advogado oportunista. Não há nada para pegar nesta acusação e os tribunais vão perceber isso rapidamente", lia-se no comunicado emitido pelo advogado do músico, Michael Holtz.

Nick Carter tinha sido acusado de agressão sexual em 2017, na altura por Melissa Schuman, elemento do grupo pop Dream. Schuman alegou que o artista norte-americano a agrediu sexualmente em 2003, quando estavam a filmar o filme "The Hollow" (2004). O caso acabou por não seguir em frente judicialmente devido ao facto de terem passado dez anos desde os alegados acontecimentos até à queixa.  
 

 

Créditos das Imagens:

Roger Waters: Rob Grabowski/Invision/Associated Press 
Elenco "Don't Worry Darling": Vianney Le Caer Invision/Associated Press
Pedro Abrunhosa: Facebook Oficial Pedro Abrunhosa 
Win Butler: Amy Harris/Invision/Associated Press
Kanye West: Matt Sayles/Invision/Associated Press
Taylor Swift: Joel C Ryan/Invision/Associated Press