Kalush Orchestra: "tínhamos a missão de ir buscar a vitória à Eurovisão. Era importante para a Ucrânia"
A Rádio Comercial Ucrânia conversou com Tymofii Muzychuk, um dos elementos do grupo ucraniano que venceu a Eurovisão em 2022. A banda atua a 23 de dezembro no Casino Estoril.
Tymofii Muzychuk (na foto o terceiro a contar da esquerda) é professor de música, multi-instrumentista e um dos vocalistas dos Kalush Orchestra, o grupo que representou a Ucrânia na Eurovisão 2022 e que acabou por vencer a competição sem grande margem para dúvidas.
A canção 'Stefania' venceu a 66ª edição do Festival da Eurovisão, em Turim, Itália, com 631 pontos. Do total, os esmagadores 439 pontos foram dados pelo público. Em segundo lugar ficou o Reino Unido e em terceiro a Espanha.
A poucos dias da estreia da banda em Portugal, que acontece a 23 de dezembro no Salão Preto e Prata, no Casino Estoril, Viktoriya Starchenko e Marcos Fernandes, da Rádio Comercial Ucrânia, conversaram com Muzychuk. O músico fez a antecipação do concerto e um balanço de um ano que marcou os Kalush Orchestra pelas melhores e piores razões. A banda, que tem sido porta-voz da luta da Ucrânia contra a invasão russa, aproveitou a vitória na Eurovisão para levar a voz da Ucrânia a palcos espalhados pelo mundo. O périplo já passou por vários países, incluindo o Reino Unido onde atuaram no famoso festival Glastonbury, ou os Estados Unidos. Outro palco por onde passaram foi o da cerimónia de entrega dos prémios da MTV Europa, em novembro.
"Estou a gostar muito desta digressão. Começou há cerca de seis meses e já visitámos muitos países. Nos nossos concertos, temos ucranianos e estrangeiros, é 50/50. Gosto muito de atuar para os ucranianos e os ucranianos gostam muito de nos ouvir. Dizem-nos que, durante o concerto, sentem que puderam 'visitar' a Ucrânia por momentos. A verdade é que, sejam ucranianos ou locais de cada país, toda a gente canta: 'Stefania, mamo, mamo Stefania'. Toda a gente conhece a letra!", acrescentou o músico, que ainda sublinhou o orgulhoso que sente por levar a bandeira ucraniana a vários pontos no mundo.
Tymofii Muzychuk ainda não conhece Portugal mas tem familiares a viver em solo português. "Sei que tenho familiares a morar em Portugal há muito tempo. Eles raramente vão à Ucrânia mas espero que apareçam no concerto", continuou. "Nos nossos concertos também cantamos músicas novas, canções que ainda não podem ser ouvidas noutro lado. Têm de vir ao nosso concerto em Portugal! Prometemos que vai ser quente. Vai haver bom ambiente", referiu ainda o dono da 'sopilka', a famosa flauta tradicional que tão bem se ouve na canção que venceu a Eurovisão e que vai ser recuperada no espetáculo do Casino Estoril.
'Stefania', que acabou por se transformar num símbolo da resistência ucraniana, será para sempre crucial na carreira do grupo que, acima de tudo, queria vencer a Eurovisão para reforçar o foco internacional no conflito. A urgência de segurar a atenção do mundo era tanta, que o grupo aproveitou o final da atuação em Turim para pedir ajuda internacional para mudar o destino dos militares e civis que na altura estavam cercados no complexo industrial de Azovstal, na cidade ucraniana de Mariupol. O risco era a desclassificação da competição mas os Kalush Orchestra preferiram arriscar. "Tivemos muitos ensaios na Eurovisão. E os espectadores compravam bilhetes para assistir a essas atuações. Por isso, treinámos muitas vezes, sempre de forma idêntica ao que íamos fazer na final", contou quando recordou a experiência eurovisiva na entrevista. "Repetimos tudo muitas vezes. Cantámos tantas vezes a 'Stefania' que agora já sai em modo automático. Nós tínhamos uma missão: ir buscar a vitória à Eurovisão. Era importante para a Ucrânia".
A Eurovisão também serviu para os Kalush Orchestra conhecerem os Rasmus, os donos do hit In 'The Shadows' que representaram a Finlândia nessa competição. As duas bandas acabaram por trabalhar juntas numa nova versão do tema dos finlandeses, agora adaptada ao que está a acontecer em solo ucraniano. Chama-se 'In the Shadows of Ukraine'.
Outro encontro que Muzychuk recordou durante a conversa com a Rádio Comercial Ucrânia aconteceu nos Estados Unidos, por onde passaram para atuar. Foi o encontro com o ator e ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger - um forte apoiante da causa ucraniana. Conta o músico que os Kalush Orchestra foram muito bem recebidos em casa do ator mas de uma forma muito pouco convencional. "Ficámos a aguardar no pátio, até que vimos Schwarzenegger com um burro! Ele confessou-nos que anda sempre com aquele burro. Até o leva aos treinos, contou o músico.
[O Arnold Schwarzenegger] também nos disse que se sente motivado pela nossa música e que apoia a Ucrânia com todo o coração. Até nos assinou uma bandeira ucraniana". Quando questionado sobre a sensação de estar ao lado de um ator do Hollywood a gabar o trabalho dos Kalush Orchestra, Muzychuk acrescentou "deviam ter visto a minha cara! Para mim, é uma lenda, no desporto, na política, e nos filmes. Até os meus pais cresceram a ver filmes dele". Será uma oportunidade para Muzychuk e Schwarzenegger medirem forças, perguntou?", perguntou Viktoriya Starchenko. "Claro que não! Iria temer pela minha vida. Ele é o Exterminador Implacável!".
