David Bowie: a dança na estratosfera começou há 40 anos

'Let's Dance' abriu a pista ao Camaleão para a sua era mais mediática e pop.

A 14 de março de 1983, há 40 anos, David Bowie revolucionava a pop a e a si mesmo com o single 'Let's Dance'. A variante camaleónica do artista daquele período mostrava-o mais loiro e mais cavalheiresco, com fato, camisa e sapatos claros, por vezes com gravata apertada, ou até, numa imagem muitas vezes vista, com o tecido da gravata glamourosamente desprendido a contornar o colarinho, numa formalidade muito informal.

O sinal estava dado: David Bowie estava predisposto para a pop e para a tornar mais elegante, com o seu charme pessoal. O estilo visual era só um extra para o estilo que interessava, o da música. E para a nova coordenada, explorando os ares que sobraram do disco-sound, David Bowie chamou para seu parceiro musical Nile Rogers, que com ele produziu e arranjou o disco.

O primeiro tema tinha que ser bombástico, 'Let's Dance', num novo combinado de pop e r&b, a mirar a pista de dança e a seduzir o grande público, mas causando uma cisão nos fãs mais antigos, que preferiam 'Heroes' ou 'Ziggy Stardust'.

Quem gostou do novo som foi certamente a sua nova editora, a EMI, que gastou uma fortuna para ter o maior ícone musical dos anos 70 no seu catálogo. O início da ligação contratual com David Bowie mereceu uma das mais mediáticas conferências de imprensa da história da música, num hotel londrino, com o cantor comunicativo e humorado, divertida e espontaneamente sentado sobre a mesa para conseguir chegar aos elevados microfones.

'Let's Dance' ficou a resplandecer de tantos certificados de platina, ouro e prata pelo mundo fora, tal o número de vendas, que o colocou no poleiro de muitas tabelas de vendas em todo o mundo, incluindo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos.

 

Começava a 14 de março de 1983 a era mais pop e mediática de David Bowie, cuja sequência cronológica até 1987 marcamos nas datas abaixo. 

14 de abril de 1983
Álbum "Let's Dance"
Havia mais sumo pop para a operação de conquista de um público maior, com a ajuda de outros temas como o senhorial 'Modern Love' ou o remodelado 'China Girl' que havia escrito com Iggy Pop (e primeiramente gravado por ele). O álbum foi outro fenómeno comercial, à semelhança do seu tema-título. 

 

29 de abril de 1983
Estreia mundial de "Fome de Viver" ["The Hunger"]
A escalada musical até à estratosfera cruza-se com a vida ativa de ator. E David Bowie nunca colocava o seu nome num elenco qualquer. Neste sci-fi neurótico e erótico, o britânico contracena com atrizes de topo como Catherine Deneuve e Susan Sarandon, na longa-metragem de estreia do realizador Tony Scott.


De 18 de maio a 8 de dezembro de 1983
Serious Moonlight Tour

Mais de quatro anos depois, David Bowie voltou aos palcos e sentiu na pele os efeitos do crescimento do seu público, atuando para recintos cada vez maiores, numa volta ao mundo em 96 espetáculos. O investimento num palco e numa produção maiores teve retorno na multiplicação da receita. Depois de um percurso musical notável assente em grandes salas, Bowie começava a adaptar-se a uma nova rotina de grandes recintos ao ar livre. Mas esta digressão era só o começo. 

 

10 de setembro de 1984
Single 'Blue Jean'

Depois de um ano de 1983 muito rentável, Bowie continua a sentir a maré viva e lança o tema 'Blue Jean' (encaixado no álbum de remendos "Tonight"), com o som aveludado de cavalheiro, mas com as guitarras elétricas mais expostas. A canção pegou e aninhou-se aos alinhamentos ao vivo das várias digressões de David Bowie. Quatro dias depois do single ter sido lançado, o músico apresentou-o num vídeo diferente na primeira cerimónia dos MTV Video Music Awards.


Novembro de 1984
Dueto com Tina Turner em 'Tonight'

David Bowie volta a repescar no reportório de músicas gravadas com Iggy Pop da fase berlinense para mais uns empurrõezinhos no voo do seu foguetão pop. Desta vez pegou em 'Tonight', para um encontro inter-galático com outra estrela em ascensão: Tina Turner. E reencontraram-se no palco da Private Dancer Tour, de Tina Turner.

 

Fevereiro de 1985
Single 'This Is Not America'

A relação de David Bowie com o mundo do cinema mantinha-se frutífera. Quando não aparecia no ecrã, pediam-lhe canções para as bandas sonoras. 'This Is Not America' é gravado com a banda de Pat Metheny para a banda sonora do filme norte-americano "The Falcon and the Snowman", onde brilham atores como Timothy Hutton e Sean Penn.  

 

29 de junho de 1985
Dueto com Mick Jagger na versão de 'Dancing in the Street'

Com a sua carismática gabardina, David Bowie é forçado a um pezinho de dança mais excêntrico do que lhe é normal no vídeo de 'Dancing in the Street', por causa do seu agitado companheiro de dueto Mick Jagger (dos Rolling Stones). A versão do tema de Martha and the Vandellas foi gravado para ajudar no combate à fome na Etiópia, a causa do Live Aid. 


13 de julho de 1985
Live Aid

David Bowie teve os seus 15 de fama ainda maior, a cantar para o mundo, no megaevento humanitário dinamizado por Bob Geldof, a partir de um dos seus recintos, o Estádio do Wembley. Nesta cimeira em palco das maiores estrelas da música, Bowie soube agigantar-se com a classe habitual.

 

3 de março de 1986
Single 'Absolute Beginners'

Este é um caso em que a canção é mais famosa que o filme para o qual foi escrita a música. Quando se fala em 'Absolute Beginners', a memória coletiva vai para a canção de Bowie, não para o musical realizado por Julien Temple.

 

27 de junho de 1986
Estreia mundial do filme "Labyrinth"

O que fará David Bowie, do cume do seu estrelato, com um cabelo postiço que parece o penteado de Tina Turner com quem tinha gravado um dueto? Na verdade, é só a personagem Jareth que encarna, com o papel principal, no filme "Labyrinth", do mundo fantástico das produções de George Lucas.

 

20 de abril de 1987
Álbum "Never Let Me Down"

Esta é já a fase em que o próprio artista começa a questionar a sua autenticidade, sentindo-se a esticar a corda nesta estrela pop que personificou em meados dos anos 80. Não sendo propriamente um disco conformista, David Bowie deu ao mundo músicas com mornas reações, como 'Time Will Crawl' ou 'Day-In Day-Out', em constraste com a excitação provocada pelo álbum antecessor "Let's Dance".  

 

De 30 de maio a 28 de novembro de 1987
Glass Spider Tour 

Esta digressão é o produto de uma época de megalomanias e de grandes despesismos. A conceção cenográfica é maior, o espetáculo é mais teatralizado e o mapa europeu ao vivo é alargado. O sucesso comercial desta digressão mundial a grande escala supera a do disco que promove "Never Let Me Down". E há um momento particularmente sensível ao músico nesta digressão, quando atua na Platz der Republik, na zona ocidental e livre de Berlim, próximo do muro, para que fosse ouvido pelo público de leste, que seria reprimido durante o espetáculo pela Stasi, sem que Bowie se apercebesse. Este concerto foi a 6 de junho de 1987, cerca de dois anos e meio antes do muro ser finalmente derrubado.