Richie Campbell: noite tropical na Altice Arena
Cerca de 17 mil pessoas encheram a grande sala do Parque das Nações.
Quando o DJ set de aquecimento de SoGood parecia estar a ser demasiado longo, poucos se aperceberam que isso se deveu à avaria da mesa de som da frente, causando um inesperado atraso de meia-hora ao início do concerto de Richie Campbell.
O contratempo técnico mereceu um pedido de desculpas e um enquadramento de Richie Campbell, mas a noite acalorada e feliz do músico na Altice Arena tratou de secundarizar e ir fazendo esquecer uma situação que o público mal deu conta.
Em comparação com o espetáculo de há cinco anos no mesmo pavilhão, a fasquia está mais elevada em 2023. O público enchia praticamente por completo os dois anéis das bancadas, ao contrário de em 2018. Se os números apresentados de há cinco anos apontavam para os 14 mil, nesta noite tudo indica que estiveram presentes pelo menos 17 mil espectadores. A produção é hoje maior, com um ecrã mais monumental. E o espetáculo está já com um grande andamento, apesar de ainda estarmos no início do ciclo ao vivo do álbum mais recente, "Heartbreak & Other Stories".
A 911 Band - um trio nos coros, um guitarrista, um baixista, um baterista, um saxofonista e um teclista - foi a formação que foi acompanhando Richie Campbell, cuja entrada em palco foi antecedida pela intervenção grandiloquente de um coro gospel com as suas túnicas, durante uma balada soul mais sentimental de Richie Campbell.
O homem que tem como nome civil Ricardo da Costa estava de boné e num pandã de roupas claras que terão feito o músico suar ainda mais. No tema 'Stress', vemos a imagem quase real de um prédio, que poderia ser um dos subúrbios da Grande Lisboa onde Richie Campbell cresceu.
Richie Campbell comenta o calor que está na sala e pergunta o que é que dá vontade de ouvir na rádio com um dia assim. A banda deu logo a resposta e começou a tocar reggae, num medley acelerado que incluiu 'Best Friend' e o popular 'Tha'’s How We Roll'. O inglês de Campbell é enrolado e cerrado como o sotaque jamaicano, cantando na forma que ouvia dos seus discos de reggae. Campbell não viveu em Kingston, mas sim nos discos que de lá vinham.
Richie Campbell, mesmo que de forma sucinta, desdobra-se em diferentes tipos de intervenção. Tanto pede aplausos aos seus pais, que estavam presentes na Altice Arena, como fica agradecido pela comunidade de músicos lhe ter enviado ao longo do dia mensagens de alento para o espetáculo desta noite. Quando abriu o palco para uma “boa ação”, chamando um espectador que pediu em casamento a sua namorada Andreia, Richie Campbell tentou apressar o momento, para não fazer esperar "as 17 mil pessoas".
O r&b que se foi ouvindo tinha os temperos tropicais da música jamaicana, enquanto Campbell foi jogando várias cartadas rumo ao cume emocional: Let You Go, Blame It on Me ou Water, este último já com a presença em palco de Slow J.
Para a noite ser longa e os fãs poderem falhar ao trabalho nesta sexta-feira, Richie Campbell propôs ele próprio assinar as declarações de ausência de trabalho. O cantor português estava mesmo pronto para tudo, ele que se tinha que adaptar às mudanças de cenário de palco. Cantou nos sofás, quando o palco ganhou formas de sala de estar, com televisões dessintonizadas. E até tocou piano num palco montado no meio da arena, para cantar 'Do You No Wrong', que se tornou num gato de sete vidas, com várias vestimentas instrumentais e uma retoma no palco principal.
Ao fim de quase duas horas, Richie Campbell recolheu-se, com a sensação de missão cumprida.
