Pedro Mafama: "a palavra Alfama passou a ter um significado diferente para mim"

Músico fala da vitória da Marcha de Alfama nos prémios de Melhor Letra e de Melhor Composição Original.

Em declarações à nossa rádio, o músico nacional Pedro Mafama afirma sentir "um orgulho gigante" em ter vencido esta semana, nas Marchas Populares de Lisboa, os prémios de Melhor Letra e de Melhor Composição Original pelo tema 'A Sina do Estivador', "apesar de Alfama não ter ganho o prémio final". "A marcha toca em assuntos muito importantes para as pessoas dos bairros e não só Alfama. As pessoas viviam esta letra com todo o coração, porque toca em assuntos vitais para a sobrevivência. As Marchas têm sido um meio para os bairros lidarem com a sua sobrevivência”. E esse assunto, que a música toma, é a gentrificação.

Pedro Mafama faz questão de lembrar que está longe ser o único a trazer à baila o assunto do êxodo das gentes locais dos seus bairros: "houve outros bairros que também disseram as suas verdades nas Marchas, para contar alguma coisa que lhes toca. Como um todo, a mensagem há de ter sido passada, porque não foi exclusiva de Alfama e deste ano. Eu não fui a primeira pessoa a tocar neste assunto da gentrificação. Há vários anos que as Marchas de Alfama têm tocado nesse assunto".

O músico prevê um futuro muito interventivo para as Marchas, que "podem tornar-se um meio muito importante de transmissão de uma vontade coletiva. As Marchas são comunitárias e coletivas por natureza. Por isso, têm esse potencial de tocar nesses assuntos e de gritar lá para fora o que se passa dentro do bairro"

A música 'A Sina do Estivador' foi um trabalho coletivo de bairro. "Comecei por entregar três propostas de músicas diferentes. A Marcha de Alfama teve a ajuda do João Ramos, que é o coordenador, do Carlos Dionísio, que fez a música, e da Raquel Tavares, a madrinha da Marcha de Alfama, que ajudou a compor e a trazer o seu conhecimento das Marchas e dos marchantes. A minha ideia foi tomando forma até se materializar nesta composição. A coreografia também deu uma grande força à música. A coreógrafa Vanessa Rocha sentiu que havia ali um toque alentejano na melodia, que está dentro das minhas referências e ela salientou isso. Há uma parte em que só os homens é que cantam uma parte da melodia com um toque de cante alentejano. Ver a música a ganhar vida e ser cantada pelas bocas e pelos corpos que a sentem, e que vivem aquilo que é Alfama, é uma coisa muito linda. Passei a encarar a palavra Alfama de uma forma completamente diferente porque percebo tudo o que está em jogo nessa palavra. O que estava em jogo, e o que vai estar em jogo nas próximas Marchas, é a sobrevivência da identidade de um povo, que é o povo de Alfama, que vê em causa a sua existência. Aquelas ruelas, aquelas ruas estreitas, aqueles becos, aqueles muros fazem parte da identidade daquelas pessoas. É uma artéria muito forte da identidade da nossa cidade. Aquilo que estava em causa este ano e que vai estar em causa nos próximos é a sobrevivência de um povo". 

Pedro Mafama reconhece que o problema não é fácil de se resolver: "a pena que eu tenho é não poder apontar um culpado para o que está a acontecer, porque a gentrificação e o vapor do capitalismo não têm um culpado. Não há ninguém que queira tirar os moradores do seu bairro. Todos nós compactuamos de certa forma com esse resultado. O mais triste disto tudo é que o inimigo é invisível e está dentro de todos nós". 

Pedro Mafama envolveu-se durante meses na Marcha de Alfama e deu lá uma pequena atuação, no meio de uma festança. "Fiquei a sentir as artérias e veias de Alfama. Na madrugada em que saíram os resultados, senti o que era ser de Alfama, após aquela longa caminhada. Já não posso dizer mais a palavra Alfama sem me lembrar das caras de todas as pessoas que conheci nestes meses intensos de preparação da Marcha de Alfama. É o que acontece quando se conhece alguma coisa por dentro. A partir do momento em que fui a Aljustrel ter com os mineiros e mostrar-lhes a música Estrada, nunca mais ouvi o Hino dos Mineiros da mesma maneira, porque têm rostos e histórias que vão estar cravados na minha memória. Alfama já não é só um conjunto de casas brancas com uma cultura interessante da nossa cidade. São histórias, vivências, rostos, que vivem e que sentem, que estão a lutar pela sua sobrevivência. É a diferença entre a abordagem de um assunto de forma leviana ou a sua compreensão, e com isso conseguir ajudar”. 

Pedro Mafama já vai sendo chamado de Malfama. "Sempre ligaram Mafama a Alfama. Sempre me disseram isso. Se calhar, agora vou receber esse trocadilho com um sorriso no rosto".

A Marcha da Bica venceu o consurso geral. A Marcha de Alfama ficou em 3º, atrás da Marcha do Bairro Alto.