Roteiro musical para o NOS Alive de 2023
Sugestões para esta 15ª edição, desde nomes consagrados a artistas que... deviam ser consagrados.
O NOS Alive, que começa esta quinta-feira, tem sete palcos mas as nossas sugestões vão só para quatro. E são quatro as sugestões por dia que damos - 12 ao todo - num equilíbrio entre a zona de conforto dos que idolatramos há muito e a zona de descoberta, que alimenta também o espírito de um festival.
6 de julho
Ana Lua Caiano, Palco WTF Clubbing (às 17h40)
Não é novidade a construção gradual de um tema ao vivo através da samplagem, mas a expressiva Ana Lua Caiano fá-lo com uma graça especial, envolvendo o seu canto folclórico com o pequeno naipe de instrumentos à disposição, dos tambores aos sintetizadores. A criativa Ana Lua Caiano incorpora uma das mais fascinantes digitalizações do país rural. A sua estreia no NOS Alive promete.
The Black Keys, Palco NOS (às 21h30)
A festança blues-rock da dupla norte-americana está de volta ao festival de Algés, nove anos depois. O destaque continua a ser dado aos dois álbuns que mais fama deram aos Black Keys: "Brothers" (de 2010) e "El Camino" (de 2011). São as músicas desse discos que injetam a adrenalina. O vocalista e guitarrista Dan Auerbach sabe disso. O lugar de destaque é para ele e para o seu velho parceiro, o encurvado baterista Patrick Carney, com direito a um sobrepalco, ao centro do palco normal. Atrás dele e da povoação de amplificadores, habitam mais quatro músicos extra, a dar consistência àquele modo tão americano de tocar e de extravasar.
Ibibio Sound Machine, Palco Heineken (às 22h25)
Promete ser um dos grandes concertos do Alive e até, para quem não os conhece, uma das grandes surpresas. A vocalista Eno Williams, com as suas roupas de cores garridas e o seu vozeirão, é a atração central de uma banda que leva a tradição africana e os ritmos brasileiros à urbanidade ocidental. Os temas do quarto álbum "Electricity" ajudam a transformar o palco numa pista de dança. Vai haver festa no hangar do Palco Heineken.
Red Hot Chili Peppers, Palco NOS (23h30)
Devia haver o jogo de apostas Toto Chili Peppers. Que músicas irão tocar os Red Hot, nunca ninguém muito bem sabe, excetuando três temas que são como triplas do Totobola: os garantidos 'By the Way', 'Californication' e, já uma tradição no encore, 'Give It Away'. Os dons superiores desta banda permitem-lhes alterar drasticamente o alinhamento de concerto para concerto. A imagem vai sobrevivendo. Anthony Kiedis ainda usa calções largajões, Flea trata as camisolas como peças a mais, o baterista Chad Smith só se sente bem com pala do boné para trás e... John Frusciante. Bem, é difícil focarmo-nos no que usa ou veste quando tem a guitarra elétrica à cintura. Continua um predestinado, um Mozart da guitarra elétrica, o descendente que Jimi Hendrix não chegou a sonhar ter, o desbravado que derruba as muralhas da canção sem lhe perder o norte.
Flea é o menino traquina e ao mesmo tempo o graúdo que liga todo o quarteto, e que o vigia com o sorriso rufia de garoto. Ziguezagueia pelo palco com o andar de um comediante do cinema mudo. E roda a cabeça como um carrossel quando o groove aumenta. Anthony Kiedis tem os méritos da assertividade enquanto performer, mas também a sorte de ter atrás de si uma das melhores bandas do mundo. Não precisa de apostar em jogos, já tem a sorte toda consigo.
Já se sabe, cada pegada dos Chili Peppers deixa marcas. Nunca mais se escreverá a história do festival Alive sem se contornar o rasto deixado pelo gigantismo da banda de Kiedis e Flea. Esta é também uma aposta tripla de Totobola.
7 de julho
Idles, Palco NOS (às 19h20)
É uma das grandes bandas rock ao vivo dos últimos anos. Com os últimos álbuns "Ultra Mono" (de 2020) e "Crawler" (de 2022), a sua fúria foi passando do punk para o pós-punk. As fortes mensagens socio-políticas do vocalista Joe Talbot são ninhos de explosivos, que artilham a engrenagem sonora e provocam o motim. Esperam-se crateras na zona central da arena.
Lizzo, Palco NOS (às 20h50)
É uma estreia ao vivo absoluta em Portugal. Este aguardado espetáculo soul vai ser uma grandes produções em palco desta edição do Alive, avivado de alegria e da voz incontornável de Lizzo. O alinhamento promete ser um pingue-pongue equilibrado entre os dois mais recentes álbuns da cantora norte-americana, "Cuz I Love You" (de 2019) e "Special" (de 2022).
Jorge Palma, Palco Heineken (às 21h45)
É uma grandes lendas vivas da música nacional, com um pé no novo álbum "Vid"a, e outro no fundo do catálogo, com pérolas que dificilmente não tocará como 'Só', 'Frágil' ou 'Portugal Portugal', entre tantos outros temas que vão alimentado a admiração do público nacional ao longo dos 50 anos da sua carreira a solo. Acompanhado por mais quatro músicos, Jorge Palma tem-se também a si para uma hora especial no canto oriental do recinto do Passeio Marítimo de Algés.
Arctic Monkeys, Palco NOS (às 22h45)
A banda de Alex Turner tem estado mais preocupada em fazer prova do seu estilo e da sua musicalidade rock & roll do que em fazer prova de simpatia. Os fãs certamente cantarão mais os refrães dos numerosos hinos da banda do que contarão as vezes em que Turner discursa. Falar pouco e tocar muito faz parte do pacto entre banda e o seu público e nisso estarão todos de acordo. 'R U Mine?', perguntará o líder dos Arctic Monkeys. Quando isso acontecer, os Arctic Monkeys já se poderão ir embora, de volta à estrada.
8 de julho
Bela Ensemble, Palco Fado Café (às 17h15 e às 18h45)
Os fados de Alfredo Marceneiro renascem num outro corpo instrumental, que é este quinteto, onde se destaca a voz de Ana Margarida e em que é impossível não reparar no violino de Otto Pereira, ou na percussão do líder Carlos Mil-Homens. O fado faz parte da paisagem mas não é uma prática. A tradição é só um porto de partida.
Angel Olsen, Palco Heineken (às 20h10)
Com ou sem banda, Angel Olsen é um vulto que impressiona em palco. A sua voz, já poderosa em estúdio, está ainda mais fulgurante ao vivo. A aura country toma conta do ambiente. E a força dramática das suas canções ganha pele e carne mesmo à nossa frente. Oxalá o ruído festivaleiro das redondezas não perturbe um concerto que pede que se diga: "silêncio que vai cantar Angel Olsen".
Queens of the Stone Age, Palco NOS (às 21h15)
A banda Josh Homme é simultaneamente um espanta-espíritos e um íman dos velhos fantasmas. É desse contraste que se fazem as ganas deste rock encorpado, destinado a conquistar o imenso público festivaleiro colado ao Palco NOS. 'No One Knows', 'Little Sister' ou 'Go With the Flow' vão ser jogados como áses, num concerto para ganhar.
Sam Smith, Palco NOS (às 23h05)
Em 2014, quando atuou pela primeira no NOS Alive (e em Portugal), cantou no coberto Palco Heineken, com uma densidade de festivaleiros por metro quadrado que asfixiava. O espaço era já pequeno para Sam Smith. A única extravagância que tinha no cenário eram as letras iniciais dos seus nomes, ambos S, que faziam quase um efeito de serpente. Agora, em 2023, tudo é extravagante, desde a estátua dourada e gigante da deusa grega Afrodite à recriação de inferno durante a interpretação exuberantemente queer de 'Unholy'.
