NOS Alive 2023 arranca na era do Pusciverso

A abertura do palco NOS na 15ª edição do festival de Algés foi com o som solarengo dos The Driver Era e com a caça aos 'aliens' dos agentes Puscifer, de Maynard James Keenan.

A abertura do palco NOS na 15ª edição do NOS Alive foi ao som dos irrequietos The Driver Era - o duo californiano, composto pelos irmãos Rocky e Ross Lynch, ex-R5. A estreia dos manos em Portugal foi auspiciosa, eufórica (para quem se colou às grades) e solarenga - qualidade que é, aliás, requisito da onda californiana que hoje se formou no Tejo, com uns tais de Red Hot Chili Peppers (gente mais crescida) a dominar a ondulação deste primeiro dia de NOS Alive. Mas isso é para relatar mais logo. Agora o foco está nos irmãos Lynch e depois na proposta de entretenimento dos Puscifer que vieram a seguir.

A ritmada 'Nobody Knows', retirada do álbum de estreia que editaram em 2019, foi a escolhida para apresentar o duo a Algés. O espaço à frente do palco foi sendo preenchido para acolher os rapazes que chegaram com a atitude de meter toda a gente aos pulos. Ainda na casa da partida da atuação, Ross Lynch começou a puxar pelo público. Fê-lo, logo que pôde, a pedir palmas e aos pulos para melhor movimentar as massas. O vocalista fez malabarismo com o microfone, abanou as ancas, com tiques de Elvis, e largou um voraz "rrrrauuuu" que provocou os primeiros gritos aos pés do palco principal. 

"Estão prontos para se divertirem?", perguntou Lynch a quem ali estava, ao mesmo tempo que desabotoava os botões da camisa creme que tinha vestida, para depois dar a voz 'Natural', de "X".

'Heaven Angel', agora com Ross Lynch de guitarra acústica nos braços, veio depois para lembrar que os The Driver Era conseguem arrumar três discos na prateleira discográfica. Encontramos 'Heaven Angel' no álbum "Girlfriend" de 2021. 

"Lisboaaaa", gritou Ross, ao lado do irmão que pontualmente ia dirigindo algumas palavras ao público. Foi também nessa altura que os manos repararam que estavam ao pé da praia e comentaram o privilégio geográfico. Saudades de casa? Talvez. A estreia dos irmãos Lynch ainda teve canções como 'Scared of Heights', 'Afterglow' ou 'giveuwhatuwant', esta com Ross quase a saltar para os braços de quem estava nas filas da frente. 'Like a King', 'Low', 'Fantasy' e 'Heart of Mine' seguiram-se no alinhamento. 
 
"Para quem não nos conhece, somos do sul da Califórnia. Há lá um sítio chamado Malibu", disse Ross quando apresentou o tema seguinte que batizaram com o mesmo nome. O público, no geral, esteve atento ao concerto mas não em êxtase. Esse papel ficou para o grupo da zona da frente que ora gritava ora empunhava cartazes com declarações atenciosas ao duo. 'Preacher Man', o single de estreia dos californianos, orquestrou mais palmas - até as de alguns resistentes que estavam bem sinalizados com t-shirts dos aguardados Red Hot Chili Peppers. 

"We love Portugal, obrigada. Fiquem por aí, o melhor ainda está por vir", disse o vocalista que acabou o concerto em tronco nu, com um chapéu de cowboy e a fazer a festa na hora dourada do sunset.

Os manos não gostam de ser metidos em caixas com rótulos musicais e nós respeitamos. Do rock, ao reggae, à pop, a estreia dos irmão em Portugal arrancou suspiros à fileira da frente que assumiu posição na dianteira para recebê-los. 

A noite instalou-se no Passeio Marítimo de Algés ao som do "caos" interplanetário ordenado pelos norte-americanos Puscifer, coletivo comandado por Maynard James Keenan, o homem dos Tool e A Perfect Circle. Mat Mitchell e Carina Round compõem o trio que no palco fica completo com Greg Edwards e Gunnar Olsen. 

"Existencial Reckoning", editado em 2020, é o álbum que meteu os Puscifer a circular por vários pontos do mundo, incluindo a Europa, mas o grupo guardou espaço no alinhamento para outros discos, como "V Is for Vagina" (o de estreia), "Conditions of My Parole" ou "Money Shot".    

Os Puscifer são uma espécie de "recreio onde coexistem as várias vozes" que moram na mente audaz, criativa e reflexiva de Maynard James Keenan. E quem o diz é o próprio. Apesar de ser um espetáculo que constrói imaginários, como uma frenética perseguição a extraterrestres, há mensagens urgentes e importantes para serem transmitidas a quem estiver disponível para ouvir. Ajudar a extinguir o traço autodestrutivo da Humanidade, lembrar a importância da comunicação real entre as pessoas ou, pelo menos, a tentativa de sermos melhores seres humanos são alguns dos pontos que podemos ler nas entrelinhas do projeto. 

É que Maynard James Keenan apropria-se, com legitimidade, da criação para se conectar com os outros e, não menos importante, para encorajar quem o ouve à autorreflexão. É uma coisa dele e é de saudar. Sobretudo na "era da confusão", do "paradigma digital" em que "alucinamos para sobreviver". Palavras dos Puscifer. E se a mensagem passar com humor, ainda melhor.

 

A entrada em cena dos cinco músicos - que subiram ao palco de fato preto, gravata e óculos escuros - foi como o resto do espetáculo: teatralizada. 

Cada um dos elementos entrou no seu ritmo próprio, enquanto uma mulher, concebida artificialmente, ocupava o ecrã lá atrás, a fazer uma intimidante e algo demorada contagem decrescente e a repetir exaustivamente a frase: "acabou o tempo". 

Maynard James Keenan, que entrou debaixo da pele do agente (pouco secreto) Dick Merkin, e Carina Round foram os últimos a entrar em cena e "na cena" muito própria do projeto do homem dos Tool, cuja união de vozes soa a um 'match made on stage'. 

Estáticos, agarrados ao microfone, atacaram 'Fake Affront', uma das faixas do álbum que andam a apresentar. Estivemos menos de uma hora no Pusciverse, lugar criado pelos próprios, mas podíamos ter estado por lá mais tempo. "Viemos em paz, somos os Puscifer, uma banda de rock, que veio para tocar rock. Estamos aqui para tocar rock. Não somos agentes secretos do Governo, à caça de extraterrestres", disse Maynard James Keenan, em tom de brincadeira. É que a demanda dos agentes é mesmo essa: caçar aliens, seres de outras andanças planetários que andaram à solta no palco, guerrearam com sabres de luz e ainda fizeram belos movimentos de air guitar.  

Seguiram-se 'Postoulos' e 'UPgrade', mais dois temas do disco mais recente. Carina Round dança, abraça-se, ergue as mãos ao céu, enquanto o agente Dick Merkin, com os lábios pintados de vermelho vivo, dança com três agentes secretos extra que apareceram de repente no palco. A dançar o twist, será? Parece que sim. 

'The Underwhelming', 'Horizons', 'Momma Sed', 'Bullet Train to Iowa', 'Man Overboard' ou 'Conditions of My Parole' ainda fizeram parte do alinhamento dos Puscifer que, se não caçaram os extraterrestres, caçaram aplausos do público.