Red Hot Chili Peppers sob o efeito da lua no Alive
Grande show instrumental de John Frusciante, Flea e Chad Smith.
Outra coisa não se esperava que não um concerto imperial dos Red Hot Chili Peppers. E foi isso que de facto aconteceu na hora e meia em que a banda de Los Angeles tocou no Palco NOS perante uma imensidão de público sem fim à vista.
A banda de Anthony Kiedis e de Flea foi económica nos êxitos que tocou, o que seria um suicídio festivaleiro noutra banda, mas não nos Red Hot Chili Peppers. Os dons superiores de instrumentistas e aquele conjunto de quatro fortes personalidades permite-lhes o zelo de criador, apostando (mesmo que moderadamente) nas músicas dos últimos álbuns. E se assim é mais divertido para a banda, torna-se também divertido para o público.
Uma fortíssima jam, potenciada por um som tecnicamente perfeito, abriu o concerto com a monumentalidade habitual, com as dedadas pesadas de Flea no baixo e guitarra hendrixiana de John Frusciante, numa exibição de virtuosidade. É naquela maleabilidade de quem tudo pode, porque o talento assim o permite, que se anunciam na jam os riffs de 'Can't Stop'. Naquele sismo instrumental de suspense, Anthony Kiedis entra a correr para cantar o tema de forma afirmativa, com Frusciante na meiguice dos coros, a tornar a cavalgada do tema ainda mais especial.
Os Chili Peppers não traem o que se espera deles também na imagem. Anthony Kiedis está de bigode e recusa-se a largar os calções largajões, Flea tem uma crista punk rala, John Frusciante continua parecido com Jesus Cristo e o baterista Chad Smith só se sente bem de chapéu de pala para trás. No posionamento, Anthony Kieidis raramente larga o suporte de microfone - talvez por causa das ligaduras elásticas nas pernas. Só Flea e John Frusciante ambulam pelo palco.
John Frusciante conquista facilmente o seu espaço em canções como 'Dani California', onde se manobra em impressionantes dedilhados de guitarra elétrica e nos falsetes. Flea é a criança rebelde que faz as palhaçadas e fala com aquele som rufia e desdentado, tocando o baixo a rodar a cabeça com uma velocidade humanamente difícil. Anthony Kiedis mantém aquele estilo de quase rappar e comer palavras enquanto canta.
Há investidas nos anos 90. 'Suck My Kiss' remete-nos para os tempos mais antigos e endiabrados dos Chili Peppers, na era do funk metal. 'Right on Time', com intro de 'London Calling' dos Clash, já só é funk metal nos versos, porque o refrão fica entregue ao disco sound tocado da forma mais analógica possível, com a linha de baixo de Flea a recriar os tempos da Studio 54.
John Frusciante tem direito à sua habitual canção, que é na verdade uma versão de 'Dream Boy Dream Girl' de Cynthia & Johnny O, numa versão curta e sentimental. E Flea tem o discurso mais forte da noite, para mostrar o seu deslumbramento com a lua baixa que via do palco.
Os mano-a-mano instrumentais entre o baixo de Flea e a guitarra elétrica de John Frusciante dominam vários momentos, abrem temas e em determinada altura, numa profundidade mais melancólica, chegaram a fazer lembrar os Dead Combo - logo no dia em que Tó Trips tinha atuado no recinto, no Palco WTF Clubbing, através dos Club Makumba. Prenunciava-se algo maior, que veio na forma de Californication, num dos raros momentos em que nos apercebemos que há um teclista como quinto elemento, Chris Warren, enquanto que Anthony Kiedis aproveita o solo elaborado de Frusciante para desatar a correr.
Os Red Hot Chili Peppers são tão sobredotados enquanto banda que conseguem fazer de uma versão, como a de 'What Is Soul?' dos Funkaldelic, a ilusão de um improviso mais longo, em que Kiedis resolve entrar no jogo com os seus dizeres. Sempre que um tema atinge o apogeu, John Frusciante tem que aparecer com a sua guitarra luminosa, é o que se sucede em 'Black Summer', antes de 'By the Way', que nem a entrada em falso enguiçou o rumo à glória deste autêntico hino.
Para compensar um alinhamento desinteressado pelos temas mais óbvios, os Chili Peppers cumpriram o encore com os dois temas mais célebres do álbum de 1991 "Blood Sugar Sex Magik": a balada para exorcizar vícios antigos 'Under The Bridge' e a desbunda funk de 'Give It Away'.
Antes, estiveram no palco principal os norte-americanos Black Keys, num concerto muito sustentado na dupla central - o guitarrista e vocalista Dan Auerbach e o baterista Patrick Carney - e que coloca num segundo plano os quatro músicos suplementares, por trás daquele muro de amplificadores. O que anima a populaça são as músicas dos seus álbuns de 2010 e de 2011, respetivamente "Brothers" e "El Camino", mas face ao gigantismo das gravações de estúdio, as suas interpretações ao vivo no Alive parecem miniaturas. Um dos temas que mais se ressente desse contraste é 'Everlasting Light', que soa no Alive pálido, com a voz de Dan Auerbach em esforço penoso e a sumir-se.
A banda tem como magnetismo a graça lúdica do seu blues-rock, que deixa vir ao de cima uma descendência hard-rocker dos Led Zeppelin nos momentos mais explosivos. Mas, curiosamente, o concerto vira para melhor curiosamente a partir de um tema mais introspetivo e atmosférico, 'Weight of Love', deixando margem para o solismo na guitarra de Dan Auerbach brilhar mais, com uma perícia cerebral com afinidades com Mark Knopler (ex-Dire Straits).
Cumprido o momento de introspeção, a banda escala para a metade final em glória e mais espevitada, com um rock de estádio e canções excitantes e orelhudas em conta. 'Howlin' for You' é blues-rock a pedir só capitais para os BLUES, com a guitarra de Dan Auerbach a escaldar. E, noutro exemplo esclarecedor de felicidade, 'Gold on the Ceiling' é cantado por dezenas de milhares de pessoas em uníssono.
Os Black Keys sabem que a ponta final tem que ser ainda mais especial: 'Little Black Tambourines' é interpretado com a singela beleza acústica e revela o melhor da alma country de Dan Auerbach - como deixa melhor expresso na sua carreira a solo. Sendo um díptico, a segunda parte de 'Little Black Tambourines' é dinamitada pela especialidade dos Black Keys, o tal blues-rock. A prenda maior para o público foi guardada para o fecho deste concerto de 65 minutos: 'Lonely Boy', o que havia de ser.





























































