Querida, eu parti a loiça. QotSA no Alive

Josh Homme endiabrado e mais solto que nunca, num concerto dos Queens of the Stone Age que desfez guiões.

Como será a lua vista do Palco NOS que tanto tem encantado alguns músicos nesta edição do NOS Alive? Para quem anda aqui há três dias, começa a intrigar. Na quinta-feira, Flea, dos Red Hot Chili Peppers, gostou do ângulo, de tal forma que comentou melancolicamente a sua descida para fora do seu horizonte. Neste sábado, foi Josh Homme, a figura central dos Queens of the Stone Age, perante uma súbita quebra de amplificação quando tocavam Carnavoyeur, que desabafou: “o som foi abaixo, mas a lua está alta”. E olhou para os céus mais uma vez.  

Josh podia estar a ver a lua e nós não. Mas nós podíamos ver Josh melhor que ele a si mesmo. Afinal, os privilegiados éramos nós. E que bem que esteve o homem encorpado dos Queens of the Age: auto-confiante, másculo, caloroso, teatral, indomável. Josh Homme esticou-se nas qualidades humanas todas. A voz está mais ondulante do que nunca, entre graves e agudos, a responder em cheio à boa chiadeira das guitarras elétricas dos Queens of the Stone Age.   

Como o tempo era curto, havia pressa para partir a loiça e, como tal, o concerto abriu com No One Knows, com o peso da história e daquele tema, a mostrar uma coisa que Josh Homme não se cansou de fazer: alongar o que aquela multidão tanto adorava. Não parem a música, pareciam todos concordar.

Em Smooth Sailing, vê-se que foram às aulas da escola de heavy metal mais clássica só para ver como era. E daí, experimentaram qualquer coisa… à maneira deles,.em mais um momento possuído do senhor John Homme, muito disponível nesta noite para se transfigurar. 

Josh Homme estava a gostar de fazer a pergunta e repeti-a: “estão prontos para dançar?”. Mas em The Way I Used To Do, o público da frente preferiu o crowdsurf, em tributo àquele rock sem contemplações. 

Cada tema era uma tareia. Seguia-se If I Had a Tail, a tal canção em que Homme desafia o público a fazer amor já ali, mas não com ele. Após a interpretação demolidora da canção, Josh Homme dizia em bom português: ”obrigado”. A trinta metros do palco, junto à casota da mesa do som, alguém respondia cordialmente: “obrigado, eu”. Subscrevemos: “nós é que agradecemos, Josh”. 

O expresso Queens of the Stone Age só desacelera no lúdico Make It Wit Chu, com um falsete que podia ser de uma canção de disco sound, a infiltrar-se num rock gingão com vontade para dançar. Depois, o rock & roll voltou a largar as suas feras, com Little Sister a meter tudo em polvorosa e mesmo no meio daquela altíssima adrenalina, Josh Homme consegue o sangue frio para um dedilhado na guitarra elétrica de grande execução. O homem está um deus em palco. Manda parar tudo ou abrandar para mais uns momentos expressivos muito dele, inventando um tempo extra à volta do refrão para o público o cantar. O homem está solto, um mestre do show. Faz repetidamente isto: ajeita a sua barbicha branca e depois o microfone, abana a anca, observa o público, interage com ele. Ele está a gozar a hora em palco. Como o homem está no calor do momento, não lhe dêem ordens chatas. Quando lhe dizem que os Queens só têm mais uma música para tocar, Josh Homme faz uma careta e dá a informação ao público em tom fúnebre. A travagem brusca à locomotiva não lhe estava a agradar e partilhou o seu pensamento (ou será um truque para inflamar a multidão?): “esperem aí, atravessámos o grande oceano para tocar para vocês. Ninguém nos diz quando devemos parar. Vamos tocar mais duas”. Dizer isto e lançar para palco Go with the Flow dá ânimo para um golpe de Estado. 

Fecharam, como têm feito, com A Song for The Dead, o milagre musical de um buraco tão sombrio mas paradoxalmente com tanta luz e tanta margem para cada um dos cinco músicos brilhar naquele rock pesadão.

No final, Josh Homme faz mais uma passeata pelo palco. O homém másculo com corpanzão de ranger estava à beira das lágrimas. Tinha acabado de fazer algo de transcendente. O rock & roll é isto: é extravasar, é pisar o risco. Vai ser impossível esquecer este concerto. 

 

Se Josh Homme levou ao Palco NOS uma rebeldia intempestiva, na hora anterior Angel Olsen encarregou-se de levar o seu sorriso para o seu rock afolkado e melancólico no coberto Palco Heineken. O sorriso relativizava o peso dramático de algumas músicas e embelezava o seu arranjo visual clássico e feminino, de olhos pintados de forma pontiaguda e um cabelo preso num pompom a soltar esteticamente uns quantos fios capilares pelo rosto.

Além de mais quatro músicos, o rock de atmosfera country e o tal sorriso, Angel Olsen vinha também com o humor nos comentários entre as canções. Teve sentido brincalhão quando apresentou uma música nova que iam estrear, que era na verdade a sua mais famosa de todas, 'Shut Up Kiss Me'. E insistiu no mesmo tipo de partida, quando disse que tinha escrito uma nova canção no próprio dia: 'Give It Up', também da safra do marcante álbum de 2016 "My Woman". 

Depois do country indie radicalmente vagaroso e perfumado de This Is How It Works, tocou Sister, num falso vagar que abre uma rampa para a enorme voz de Angel Olsen crescer, num paralelo em escalada com as emoções. I'll See You Tonight é a operação de charme final da cantora norte-americana, que interpreta o tema sozinha em palco, concluindo uma belíssima atuação. A relação de amor da cantora com Portugal está para continuar.