Hip hop faz hoje 50 anos
Do Bronx (Nova Iorque) a Compton (Los Angeles), de Almada ao Porto, o género musical nascido na rua está mais jovem que a sua idade.
A festa que DJ Kool Herc celebrou num enorme edifício de classe menos abonada do Bronx, em Nova Iorque, a 11 de agosto de 1973, é vista hoje pela história como o nascimento do hip hop. As contas estão fáceis de fazer portanto: o hip hop faz hoje, precisamente, 50 anos.
O hip hop, com berço no Bronx e essência na rua, tem quatro ofícios que fazem a sua cultura: o MC ou rapper, o DJ, o b-boy e o artista de graffiti.
Entre os artistas de grafitti, Cornbread (de Filadélfia) é tomado como o primeiro, a partir de 1967, ainda antes do hip hop ter nascido. Mas houve outras lendas que coloriram com sprays o que era antes cinzentão e quotidiano na grande área metropolitana de Nova Iorque, e que consumaram uma cultura suburbana que expandiu a outros subúrbios do mundo. É o caso de Daze, que em adolescente pintou os corredores do metropolitano de Nova Iorque nos anos 70, antes de ter trocado as ruas pelas galerias de arte. Também nos anos 70, Tracy 168 preferiu desenhar com o spray as carruagens do metro e dos comboios da metrópole nova-iorquina. Mas as obras ligadas ao graffiti com maior valorização no mundo da arte são as vindas das mãos do haitiano Jean-Michel Basquiat (1960-1988), ligado também à pop art. Foi um fenómeno nas galerias de arte de Nova Iorque. Raramente, um street artist tinha obtido um peso tão grande no mundo das artes como Basquiat, com quem Andy Warhol estabeleceu uma afinidade.
Menos sorrateiro na ação mas igualmente bombástico no impacto é a dança dos b-boys, rotulada no início dos anos 80 como de breakdance, onde um conjunto de gente se amontoa (na rua, numa discoteca, onde calhe) para vibrar com as famosas battles entre dançarinos, que geraram rivalidades entre coletivos, o mais mítico deles entre a Rock Steady Crew e os New York City Breakers. Os movimentos de dança acelerados e, por vezes, robotizados implicavam as mais diferentes ginásticas, incluindo o moonwalk (mediatizado por Michael Jackson), que pode ser visto no filme de 1983, "Flashdance", em que participam membros da Rock Steady Crew.
Focando-nos mais na música feita, nos DJs e MCs, a primeira leva do hip hop ficaria conhecida como de Old School, concentrada geograficamente no seu grande berço de Nova Iorque. O pai do género DJ Kool Herc, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa ou os Sugarhill Gang foram alguns dos ícones maiores, quando o cenário do disco-sound ainda não tinha sido desmontado da cidade do rio Hudson.
O ciclo seguinte chamou-se de New School, quando o género urbano ainda parecia recém-nascido. Dessa colheita, destacaram-se os Run-D.M.C. e LL Cool J, outra vez com Nova Iorque como epicentro. Nos anos seguintes, surgiram outro vultos na maior cidade norte-americana, como os Public Enemy, que se expressavam de forma mais politizada, e os De La Soul, que preferiam a festa.
O rock já se tinham metido com o rap, como os Blondie no êxito de 'Rapture', ou na parceria dos Aerosmith com os Run D.M.C, na nova versão de 'Walk This Way', mas de forma pontual. Não seria o caso dos traquinas judeus de classe média, os nova-iorquinos Beastie Boys, vindos do punk-hardcore, dispostos a mergulharem no hip hop para sempre, com uma hibridez estilistica que faria escola nos anos 90 em bandas como os carismáticos Rage Against the Machine ou os Body Count, liderados por Ice-T (que já tinha carreira em nome próprio).
A partir de 1988, a história do hip hop passou a ter o marco da West Coast, graças ao coletivo N.W.A. que, do pesadelo que era viver nos subúrbios a sul da Meca dos sonhos, Los Angeles, fizeram um álbum histórico, "Straight Outta Compton" (de 1988). Desse projeto, sairiam alguns dos maiores rappers de sempre, com carreiras a solo estabelecidas, como Dr. Dre ou Ice Cube.
Quem assinalou os anos 80 como a década de ouro do hip hop, precipitou-se. Os anos 90 seriam ainda melhores. A nova vaga de Nova Iorque manteve a cidade da Estátua da Liberdade como o epicentro do hip hop, graças a nomes como A Tribe Called Quest, Wu-Tang Clan, Nas, Mobb Deep, ou o mortalmente alvejado The Notorious B.I.G, de uma turra de gangsters que eliminou da costa rival do oeste Tupac Shakur. Mais a salvo esteve o peculiar californiano Snoop Doggy Dogg (mais tarde, somente Snoop Dogg).
Os anos 90 é um período em que o hip hop mostra novos sinais. O hip hop instrumental ganha expressão através do álbum de DJ Shadow, "Endtroducing..." (de 1996). O mapa da elite alarga-se, para o centro dos Estados Unidos (a tal Middle America), como o caso evidente do mediático Eminem. E o hip hop no feminino ganha finalmente mais expressão, através de figuras como Missy Elliot ou Lauryn Hill (dos Fugees), ambas sempre com pé noutro género, seja r&b, reggae ou soul, ou uma forma de se entender o hip hop como um género sem fronteiras delimitadas.
O novo milénio tem sido próspero para o hip hop americano, basta lembrar nomes como a dupla sulista Outkast, conhecida pelo álbum "Stankonia", as rappers Cardi B e Nicki Minaj, e monstros como Jay-Z, Kanye West, Future, Tyler, the Creator, o recordista de vendas Drake e, claro, o incontornável Kendrick Lamar.
O radar do hip hop manda cada vez mais guinadas para a Grã-Bretanha, na deteção de sons refrescantes. A ilha do trip hop tornou-se neste século na ilha do grime, e dali têm vindo nomes como Dizzee Rascal, Stormzy ou Skepta. Muito do hip hop feito na Grã-Bretanha tem outras origens etnográficas como M.I.A. (ligada ao Sri Lanka), Little Simz (influenciada pelo caldo cultural nigeriano) ou os industriais escoceses Young Fathers (com evidente marca africana). O hip hop britânico é variado e cabem nele figuras tão diferentes como o mais experiente Roots Manuva, o contestatário Slowthai (já na eternidade graças ao álbum "Nothing Great About Britain") e o mais declamador Kae Tempest (outrora Kate Tempest).
E em Portugal, o hip hop só fez a travessia da rua para o estúdio no início dos anos 90, mas deste então isto tem sido um somatório de talentos sem parar. General D é o primeiro nome forte, pouco tempo antes do lançamento da compilação "Rapública" (de 1994), alavancada pelo sucesso imediato de 'Nadar' dos Black Out. Mas quem fez carreira a longo prazo, dos participantes desse disco, tem sido apenas Boss AC. Almada não tinha só pós-punk e metal para dar ao país. É da grande cidade com vista para Lisboa que sai talvez o nome mais emblemático de todos, os Da Weasel, numa mescla de hip hop com rock e punk. Um dos temas que ligou a ignição da máquina Da Weasel foi 'God Bless Johnny', seguindo-se um percurso glorioso de quase 15 anos, em que, mais que sobrevivência, se viveu tudo muito e bem.
A sinceridade destemida nortenha liga bem com o rap e do Porto (e do Grande Porto), que o digam (que o rappem) os Mind Da Gap, o primeiro grande coletivo com nome da Invicta, rapidamente acompanhados pelos Dealema, de onde se destacaram o Mundo Segundo ou Fuse, quando o hip hop tuga ainda era uma criança. Na última dúzia de anos, sem papas na língua e com bons trocadilhos na cabeça, a portuense Capicua tornou-se na rapper de maior intervenção, abraçando causas como feminismo, ecologismo e, claro, a liberdade, a base de tudo.
Tratando os arquivos sonoros como mortos-vivos que são mais avivados que mortos, o rapper lisboeta Sam The Kid é das figuras mais completas do hip hop nacional, inventando puzzles de samples, um jeito que têm tido o africanista Batida e o fadonauta Stereossauro. Num vai-e-vem entre rap e canto, Slow J tem sido o monumento que se tem erguido na paisagem urbana nacional destes anos recentes.
