Ricardo Ribeiro: "uso a tristeza em vez de ser usado por ela"
Fadista lança hoje o álbum "Terra Que Vale o Céu", influenciado pelo Alentejo.
A leva de 14 canções do novo álbum de Ricardo Ribeiro, "Terra Que Vale o Céu", foi semeada maioritariamente na planície alentejana, nos horizontes largos do sul, mais longe das ruas apertadas e inclinadas da sua querida cidade das sete colinas, a multiangular Lisboa.
Além do Alentejo, muito além dos seus campos de trigo, os ares árabes de Ricardo Ribeiro levam-no num grande fôlego para as margens do rio Tigre, no Médio Oriente, sobre um tapete voador, que é redondo, que é feito de pele de cabra e que se toca com as palmas, os dedos e até as unhas das mãos: o percussivo mizhar, ao colo do músico Jarrod Cagwin. Este milagre pelas diásporas acontece no tema 'Terras dum Mar Interior' (com letra e música de Amélia Muge).
Ricardo Ribeiro passou a ver um céu mais estrelado, mas com uma luz de Lisboa que ainda não se apagou no suão e no seu suor imenso, onde os rios que lhe correm pelo rosto são também as lágrimas do Tejo.
Ricardo Ribeiro é um homem novo com a sapiência dos antigos, um homem do fado de pouco enfado. Das escavadelas museológicas descobre o tesouro do futuro. Ouvi-lo é um livro a falar.
Sempre houve muito suão na tua música. Por que razão sentiste agora necessidade de reforçar isso neste disco e com este título: "Terra Que Vale o Céu"?
Como dizes, e muito bem, isso já vinha de trás. Mas o reforço acontece porque vim viver para o Alentejo e fui pai recentemente, o meu filho tem um ano e nove meses. Ao viver aqui, tudo se transforma. Aqui, o vento do sul passa ajoelhado. Parece que, a qualquer momento, de noite tu estendes a mão e apanhas o céu. Nunca dei por mim tantas vezes a observar o céu, as estrelas e a lua, de verão ou de inverno. Reforcei porque tem a ver com o meu interior, com a minha sensibilidade e com o meu mundo interno. Qualquer coisa que está cá dentro que é preciso vir cá para fora. Eu amo a cidade de Lisboa, é qualquer de mágico e profundo no mundo. É muito curioso ver Lisboa com sol e céu de Mediterrâneo, é uma cidade fascinante. Ao mesmo tempo, era importante cantar o sul e o interior. A vida não pode ser só feita de cidades, de cimento armado e de automóveis e desses termos ingleses, como se diz... do 'fashion', do 'cozy', do 'fancy'. É muito mais importante a paz e a voz do silêncio.
Este título do "Terra Que Vale o Céu" não tem só a ver com terra no sentido literal da palavra, mas é também a terra interior, aquilo que escavas dentro de ti para encontrar alguma coisa. Hás de reparar que quando se cava bem fundo se encontra o céu. Porque primeiro descemos e depois levantamo-nos para encontrarmos a paz e a harmonia que procuramos na vida. A vida é este jogo de contrastes. Se a vida fosse só leve, não se saberia o que era duro. O mundo acontece por contrastes. "Terra Que Vale o Céu" é exatamente isso, é também terra interior, quando escavamos dentro de nós para encontrarmos algo de mais profundo, de nobre e de belo na nossa condição humana. Depois, há esta leitura integral de que é o sítio onde estamos que conta, que deve ter o nosso valor e a nossa observação. Às vezes, olhamos só com olhos de olhar e não de ver. Vivemos muitas vezes em sítios em que não conhecemos a árvore que está à frente da nossa casa. Este título é uma chamada de atenção para isso. Às vezes, vamos ter agradáveis surpresas e vamos conhecer o mundo de uma outra forma e a nós mesmos.
Sentiste que a letra de Gil Vicente de 'Tirai os Olhos de Mim', com música de Alain Oulman, merecia ser cantado?
Quando um amigo meu mo mostrou, eu não conhecia e senti que o devia cantar, não me perguntes porquê. As palavras são majestosas, de 1523. São palavras maravilhosas. Às vezes, é preciso que tirem os olhos de nós. Hoje em dia, temos muito medo da solidão, mas confunde-se muito os termos. Solidão é uma coisa, isolamento é outra. A solidão só faz bem, é uma coisa importantíssima. Às vezes, é importante que tirem os olhos de nós, para termos olhos para ver o mundo. Esses versos do Gil Vicente são absoultamente geniais e a música do Alain Oulman também.
As letras do Fernando Tordo, da Carminho, da Amélia Muge, da Maria do Rosário Pedreira, ou do Nuno Judice vieram ter contigo naturalmente sem teres que forçar?
Não tive que forçar. A Carminho disse-me: "olha, fiz umas coisas que eu acho que encaixam em ti. Vê lá o que gostas e escolhe". E escolhi este 'Chave da Memória'. Sou muito amigo da Carminho. E também do Fernando Tordo e da sua mulher Eugénia, e do filho Francisco. O Fernando escreveu-me quatro canções e escolhi esta ['Do Silêncio Saímos']. Uma outra só vou cantar ao vivo, ainda não a gravei, quem sabe se não o gravo noutro disco e com outro reportório. O Nuno Júdice... somos também amigos e ele também já me tinha feito uns versos. E tinha estes e foram estes que eu gravei [de 'Fado Passado'], porque tinham a ver com este "Terra Que Vale o Céu".
Os versos aconteceram assim, nessa chegada. Com a Amélia Muge, aconteceu a mesma coisa. Ela tem vários temas fantásticos, um deles eu nunca cantei, que se chama 'Transparência', com versos do Eugénio Lisboa, que são qualquer coisa de extraordinário na língua portuguesa. E um dia disse à Amélia que gostava de cantar uma coisa dela. E então pedi-lhe um tema que tivesse a ver com o sul. Ela escreve essa canção 'Terras dum Mar Interior'. Lá vêm essas palavras "terra" e "interior", em que o refrão diz o seguinte: "No regresso a casa sou a Garça/Gaivota em grito aberto frente ao mar/Andorinha com seu negro golpe de asa/Sou da gente de partir e de voltar". Aqui tens a resposta à tua pergunta inicial. Ou seja, sou um homem de partir e de voltar, sou dos portugueses antigos, daqueles que gostam de ir, à procura de melhores condições de vida, mas não só, também por curiosidade e por fascínio do que está para lá da tal linha de que fala o Camões. [A Amélia Muge] foi fantástica porque era exatamente isto que eu procurava. No fundo este disco era também uma viagem por esse sul, por esse Mediterrâneo, por esse Oriente, e depois a volta a casa, ao mar, à andorinha e à gaivota.
Falas em Além-Tejo, mas em Terras dum Mar Interior, vais ainda mais além. O que te fez fazer esta viagem vocal?
Eu acho que me vão crucificar com esse tema. Fiz uma entrada que em árabe antigo tem um nome, o taqsim, que é como se fosse um interlúdio na música ocidental. Depois, no meio, há uma improvisação sobre o modo, o maqam, que origina o tarab, que é quase como a saudade, é um sentimento parecido. Eu digo que vou ser cruficificado porque está cantado em quartos de tom. Os ouvidos menos instruídos vão achar que eu estou fora de tom. Tem quartos de tom e oitavos de tom sobre dois modos árabes. O tema está cantado em ré e posteriormente em sol. Com a participação do Jarrod [Cagwin] a tocar o mizhar, que é um instrumento [de percussão] árabe, nomeadamente do Iraque, portanto é um tema que me é muito querido.
As músicas onde tens participação autoral têm um espírito muito otimista. De onde vem essa energia positiva? Imagino que seja o teu filho.
Também! Tenho o condão - que se adquire com o tempo e com o sofrimento - de usar a tristeza e não ser usado por ela. Uso a tristeza como fonte de energia para criar qualquer coisa. Desta vez, compus virado para a graça no sentido da benção e da dádiva e da alegria. Sou mais dado a compor na tristeza, mas desta vez aconteceu ser a alegria. O Tronco e Raiz surgiu comigo a olhar para o Francisco aqui no meio do campo a pegar nas pétalas de uma flor com uma delicadeza inacreditável. Olhei para aquilo e comovi-me. Sempre que falo disso, comovo-me. Como nós, quando somos tão pequeninos, somos tão delicados? E sabemos logo à partida o que é delicado e o que é frágil. O 'Tronco e Raiz' nasceu assim, tanto que na última quadra diz: "Oh almas do meu país /Ficai com esta crença /Há que ser tronco e raiz /Pra lembrar vossa existência /Pra valer vossa existência". O que vale essa existência é essa capacidade de discernir o sensível do bruto, o belo do feio.
Já trabalhaste com grupos de cante alentejano, como os Ganhões de Castro Verde. Qual é o maior elo em comum que encontras entre o fado e o cante alentejano?
Tenho uma teoria, mas que não passa disso: o fado tem como mãe uma minhota ou uma transmontana e o pai alentejano. O avô era árabe e o outro era judeu. Creio que com isto respondo à tua pergunta. Encontras esses laivos na forma de cantar, no cante apoiado na garganta. No fundo, eles encontram-se todos em Lisboa e criam esta canção. Traziam dos campos e das suas vidas e depois ganham forma e cor em Lisboa, que tem esse condão de dar coisas novas ao mundo. Até mesmo na literatura, desde o Pessoa até à filosofia portuguesa: o António Telmo, o Álvaro Ribeiro. Há muitas coisas que se passam em Lisboa que nos passam despercebidas, porque andamos atarefados com outras coisas.
Apesar de seres ainda um homem novo, tens a sapiência dos antigos e inspiras-te muito neles. Como é que olhas para estes tempos de hoje tão poucos humanistas?
Não me cabe a mim julgar. Todos os finais e inícios de séculos têm sempre viragens, umas mais profundas, outras mais superficiais. Nós estamos a viver uma transformação muito intensa em muitas questões: na questão social, na questão económica, na questão política. Há transformações muito grandes. É ainda prematuro julgar. Podia tomar o lugar de crítico e dizer que acho mal isto e acho mal aquilo. Mas como não sei os desígnios da própria vida, não sei para que lado se apresentam as coisas, é prematuro dizer-te. Agora, se me perguntares: concordas com o desrespeito que há entre as pessoas? Achas que as pessoas depois da pandemia ainda se tornaram ainda mais egoistas? Não vejo isso com bons olhos. Nós hoje sabemos fazer tudo mas ninguém se pergunta porquê. Eu sei porque é que canto. Não canto só para sobreviver, canto porque preciso de cantar, é como se fosse mais um membro que tenho, como se fosse mais um coração que tenho ao lado do outro. Sei porquê, porque quero fazer bem às pessoas. Um dos melhores elogios que tive na vida foi um senhor que se abraçou a mim com as lágrimas nos olhos e só me agradecia. "Mas está a agradecer-me porquê?". "Porque eu fiz um operação muito complicada aos intestinos que demorou nove horas e depois foi a ouvir com os phones os seus fados que me ajudou a recuperar". É para isto que eu canto. Hoje em dia, vivemos uma época muito complicada em que é tudo muito imediato, todos procuram ser famosos ou importantes. A importância não se procura, a importância adquire-se através de atos. Não são os atos nas redes sociais que nos vão tornar importantes. Eu acho que é pelos atos com o outro, pelos atos do que sabemos fazer bem. Nomeadamente, os artistas devem ter esse cuidado.
Ricardo Ribeiro atua a 11 de abril de 2024 no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, acompanhado por José Manuel Neto (na guitarra portuguesa), por Carlos Manuel Proença (na viola) e por Daniel Pinto (no baixo).
