Ivandro: "não há magia maior do que a magia de tentar"
"Trovador" - o primeiro álbum de estúdio a solo de Ivandro - já é de quem o quiser escutar.
"Trovador" - o primeiro álbum de estúdio a solo de Ivandro - já é de quem o quiser escutar. São 21 canções e uma série de convidados de alto gabarito. António Zambujo, Marisa Liz, Slow J, Bispo, Van Zee, Pikika, Julinho KSD, o rapper britânico M Huncho ou os brasileiros Agnes Nunes e Vitor Kley fazem parte do elenco.
O disco, que tem vindo a ser pensado e construído desde 2021, é também o reflexo, em palavras e melodias, do próprio caminho do músico que em 2022 foi o artista português mais ouvido na plataforma Spotify. E foi sobre esse caminho que conversámos.
"Trovador" está disponível nas lojas e nas plataformas digitais.
"Trovador à vista: a longa travessia de Ivandro cumpre finalmente o seu desígnio" é a frase que lemos na nota de imprensa que descreve o teu álbum. Quero saber como foi essa travessia...
A travessia é a batalha que todos nós travamos. Falo da batalha de nos conhecermos a nós próprios. Comigo, aconteceu na sequência do que vivemos com a pandemia. Esse período deu-me imenso tempo para pensar. Diria até que me deu tempo para voltar a acreditar mais em mim. Antes da pandemia estava a ter um grande momento, era fácil acreditar nas coisas. Tinha acabado de lançar um tema enorme como o Bispo, comecei a ter os meus primeiros concertos. De repente, chega a pandemia e cancela tudo. Fiquei numa espécie de corda bamba. Tive de decidir se queria arriscar ser músico. Tive de escolher entre ir atrás da música ou seguir outro caminho. Decidi ir atrás da música.
Já te dedicas à música há algum tempo. Acredito que o caminho não tenha sido sempre fácil...
Sim. Estou na música há cerca de dez anos, embora no início não estivesse de uma forma tão profissional como estou agora. Ainda assim, creio que comecei cedo a tentar profissionalizar as coisas, a tentar perceber mais de música. A aprender mais sobre os processos de mistura e de captação. Foi por isso que estudei Tecnologias da Música [na Escola Superior de Música]. Queria melhorar nesse aspeto e tapar as lacunas que tinha por não ter tido formação musical. Sou um autodidata. Aprendi tudo pela internet, mas esse curso serviu para preencher essas lacunas.
Nessa travessia quais é que foram os principais obstáculos com que te deparaste?
Na altura da pandemia, como não podia dar concertos, fiquei sem a minha maior fonte de rendimentos. Deixei de poder contar com aquilo que gerava com a minha música. Foi quando tivemos de equacionar se iríamos continuar a investir, mesmo sabendo que não haveria retorno, ou se seria preferível parar e usar o dinheiro de outra forma, para pagar contas, por exemplo. A verdade é que não demorei muito tempo a decidir que o que queria era continuar a lançar músicas mas fiquei com receio de lançar um álbum. Editar um disco é um investimento muito maior e fazer esse tipo de investimento naquela altura parecia muito arriscado. Já tinha começado a trabalhar nesse disco mas decidi pô-lo de parte. Perdi a coragem de investir tanto sem ter certezas, a olhar para um vazio. Nesse período, em que todos tivemos de ficar em casa, pensei muito sobre o assunto. Também pensei muito sobre mim e acho que foi nesse processo [de introspeção] que encontrei coragem para continuar na música. Pensei: 'mesmo que isto não mude, tenho de arriscar à mesma. Vai ter de ser assim'. Foi nessa altura que comecei a montar o projeto. Lançámos o 'Moça', o 'Lua'. Foi um investimento até à última gota. Se não tivesse corrido tão bem, teria de mudar de plano. Mas correu.
Então, este "Trovador" resulta da coragem de arriscar, de não teres ficado confinado no receio...
Sim. Aprendi que vale a pena arriscar. Não digo, com isto, que toda a gente "deva saltar de um penhasco" (risos), mas acho que quando visualizamos o que queremos ser ou quando vemos o nosso futuro no horizonte, lá mais à frente temos de saltar. Mesmo que estejamos a olhar para um penhasco.
Há quem evite olhar para dentro. Sentes o exercício de introspeção te constrói, além de servir de matéria-prima para a tua criação?
Sim. Acho que só assim é que consigo ser alguém melhor. Tento olhar para mim próprio de uma forma constante. Gosto de olhar para o meu caminho e de pensar sobre a forma como me estou a movimentar. Não quero chegar a uma certa idade, olhar para trás e arrepender-me do que fiz. Gosto de aprender com os momentos maus e com momentos bons. Evito reagir de forma negativa aos momentos maus. Não adianta nada.
No tema 'Trovador', o tema-título do álbum, cantas o seguinte: "às vezes, só temos uma oportunidade para falar verdade. E erramos nesse preciso momento. A música abriu-me uma porta para todo um novo universo". O que é que isto significa para ti?
Acho que vi a porta para esse outro universo na forma como as pessoas receberam a minha música. Havia certos assuntos, que estavam ainda por resolver, que consegui passar para os outros através da música. É sobre algo que queria ter dito antes, mas que se perdeu no momento. Quando estou a ter uma discussão ou uma conversa não consigo seguir uma linha de pensamento tão perfeita como a que sigo quando estou no estúdio. Tenho a mesma discussão no estúdio mas tenho-a sozinho. Levo a conversa para onde eu quero, como eu quero. O que reparei foi que os outros entendem [essa minha conversa].
E sentes que quando estás no palco a tua verdade é sentida pelo público?
Apercebi-me de que a minha verdade não é só minha. Todos nós passamos pelas mesmas batalhas. Vejo isso nos concertos. Quase que me sai uma lágrima quando vejo pessoas a chorar. É quando percebo que aquelas pessoas sentiram o que eu senti. Quase que me leva de volta ao momento sobre o qual escrevi a canção. Até o corpo reage.
Esse desejo de conexão com quem te ouve existe desde que começaste. É ouro para ti, certo?
Sim. E acho que a pandemia ajudou-me a entender muito bem como é que posso criar algo que afete positivamente as pessoas. Criar algo que as faça vibrar, que as sintonize com aquilo que estou a sentir. Descobri que ir para o estúdio constantemente é um compromisso. Vou para o estúdio até chegar aquele dia em que estamos sintonizados na frequência certa. Quando isso acontece, até quem está na sala [do estúdio] sente. Nesses momentos, sabemos que encontrámos alguma coisa. Quando traduzimos essa sensação para a realidade, lançamos o tema e a canção é bem recebida, sinto que estou a caminhar no sentido certo. E tem corrido bem.
Em 2022, por exemplo, foste o artista português mais ouvido na plataforma Spotify. O que é que sentiste quando conseguiste essa proeza?
Felicidade. Sinto-me o homem mais feliz do mundo [com esse reconhecimento], com os prémios que recebi. Lembro-me do dia em que recebi um prémio pela primeira vez. Estava no carro, sozinho. Quando soube que tinha recebido o prémio não consegui parar de rir. Até fiz uma story [no Instagram]. Não estava a acreditar que aquilo pudesse estar a acontecer. É muito gratificante. A aprovação é algo que nos sabe sempre bem. É instintivo.
Reuniste uma série de artistas para este disco: António Zambujo, Marisa Liz, Slow J, Vitor Kley, Bispo, Van Zee, entre outros. Se este disco reflete o teu caminho, em que medida estas colaborações refletem essa jornada?
Quando escrevi o single 'Trovador' já sabia para onde queria levar o disco mas sentia que ainda não tinha canções suficientes. Fui fazendo música, ia-me cruzando com as pessoas no estúdio. Tive a oportunidade de me cruzar com o M Huncho [rapper britânico], de estar em estúdio com o António Zambujo ou com a Marisa Liz. Mas nem sempre foi com o objetivo de fazer som para o meu álbum. Reparava, porém, que essas pessoas acabavam por encaixar na perfeição nas mensagens. Voltamos à questão de todos passarmos pelas mesmas batalhas. Com o M Huncho, por exemplo, conectei-me por causa do meu passado religioso. Ele também é uma pessoa religiosa. Foi por isso que fizemos o tema 'Give God Praises'. Com o Slow J fizemos a música 'Equilíbrio'. Lembro-me que, nessa altura, eu andava numa correria e até foi ele que me disse para abrandar. (risos)
Continuas a ser um homem com fé?
Sim. Sempre fui muito ligado à religião. Fiz o estudo bíblico. Li a Bíblia do início ao fim, analisei as histórias bíblicas. Isso moldou-me muito. Apesar de, hoje em dia, não ser praticante, não perdi a fé. Continuo a sentir que Deus existe e que as escrituras fazem sentido. Gosto muito de debater esses temas com amigos que também são religiosos. E misturamos esse assunto com a questão do Universo, por exemplo. Tenho mesmo curiosidade em entender o que é que se passa. Sinto que há alguma coisa a acontecer. Não acho que tenha chegado até aqui de forma aleatória. Apesar do trabalho e da dedicação, quando olho para trás vejo que há uma ligação de fatores que não atribuo apenas à sorte. Acho que foi Deus ou então algo superior que nos vai guiando quando percebe que estamos à procura de algo.
Voltando ao elenco de convidados, com o Bispo tens já um caminho...
Sim. Nós começámos a fazer estrada quase assim do nada. Conheci-o porque ele era da turma dos meus primos e do meu irmão. Aliás, ele conhecia-me como o irmão do Zé. Entretanto, descobriu que eu sabia fazer música, mas ainda havia alguma desconexão entre nós. Quando somos mais novos a diferença de idades de três, quatro anos ainda faz muita diferença. Foi apenas em 2017 ou 2018, que ele me perguntou se eu queria ser o back vocal dele. Depois disso, estivemos um mês a ensaiar e fomos logo para a estrada. Fizemos um caminho incrível. Ele teve um ano a solo incrível. Lançou o 'Nós2' nesse ano. Tivemos a oportunidade de estar em estúdio. Andámos juntos por Portugal inteiro. Também cantei com ele no Meo Arena [na altura Altice Arena]. Estava ali, a experimentar estar no palco. A ouvir as pessoas, a sentir a energia de um concerto. Lembro-me que pensei que um dia gostaria de ser eu a fazer aquilo. Entretanto, fizemos uma música, o 'Essa Saia', e correu muito bem. As coisas começaram a acontecer. O Bispo acreditou em mim. Acreditava que eu podia chegar mais longe. Disse-me apenas que precisava de me organizar mais e de priorizar a minha música, de ir mais a fundo. Até se ofereceu para me ajudar nessa organização. Foi nesse período que entrei oficialmente para a Mentalidade Free e continuámos a trabalhar. Lançámos o 'Mais Velho', um tema que estava mais na direção daquele tal primeiro álbum que acabou por se tornar noutra coisa. Acho que sem a pandemia, o disco não estaria tão assente na procura da verdade. Esse período deu-me tempo para me preparar e para descobrir a maneira de fazer a música que funciona para mim. Música carregada de sentimentos.
E como foi jogar com as sonoridades que encontramos em "Trovador"?
A bossa-nova, por exemplo, surge no álbum no seguimento das conversas que tive com o [guitarrista] Tadashi. É meu amigo há muitos anos. Está a estudar advocacia, mas eu estou sempre a tentar puxá-lo para a música. Sinto que tem muito jeito. Sempre teve, desde a altura em que éramos crianças. Houve um dia em que ele foi ter comigo para gravar guitarras e gravou o som para o 'Lua'. Produzi a canção, fechei-a e, mais tarde, esse single acabou por se tornar na música do ano. Depois, juntámo-nos outra vez e fizemos mais canções. Trabalhámos o 'Noite' com o [brasileiro] Vitor Kley, por exemplo. É uma canção que tem um gostinho de bossa-nova. Foi o Tadashi que me levou a encaixar o bossa-nova nessa canção. Também me encaminhou, com a guitarra, no tema 'Trovador' e foi precisamente na composição dessa canção que encontrei o nome para este projeto. O som que fiz com o António Zambujo também tem um toque de bossa-nova.
Na canção que partilhas com o António Zambujo, a 'Conversa', falas da experiência da paternidade. Sendo que estás quase a ser pai, quero saber como é que te sentes com o que está prestes a chegar à tua vida...
Acho que estou nervoso, o que é normal. Há sempre aquele medo de falhar. Não queremos que isso aconteça. Mas estou mais contente do que amedrontado. Agora tenho estado rodeado de momentos bons e quero simplesmente aproveitá-los. Quero aproveitar estar cá, viver isto. Quero absorver ao máximo esta experiência. Com a felicidade que estou a sentir, o nervosismo desaparece.
Que conselho é que dás aos mais novos, aos que estão a criar ou a fazer música no quarto, ainda sem grande oportunidade de serem ouvidos?
Acho que o mais importante é ter fé. Pode ser fé no sonho ou naquilo que quiserem, mas é importante ter fé. Sinto que quando o Bispo falou comigo eu estava pronto para a situação. Era fã, conhecia o catálogo dele. Bateu tudo certo. Eu também tive a oportunidade de gravar com Julinho KSD no meu quarto. Gravámos músicas como 'Hoji En Sa Tá Vivi', 'Sentimento Safari' ou a 'Vivi Good'. São canções que bateram milhões de streams e foram gravadas no meu quarto. Não há magia maior do que a magia de tentar. Foi o que aconteceu comigo. Era isso que estávamos a fazer. A sonhar alto e a tentar. Isso fez-me perceber que não havia razão para não acreditar que a minha música pudesse fazer o mesmo trajeto. Aconteceu no meu quarto. Foi o que me deu combustível para olhar para as coisas e pensar que era possível. Sabia que era possível, só precisava de saber como. Fui trabalhando e fui tendo sempre fé. Vamos ouvir muitas vezes a palavra "não" e há coisas que não vão acontecer da forma que queremos, mas o mais importante é saber o que fazer a seguir.
