Marina Sena: "a arte tem uma energia que nos conforta"

Entrevista à artista brasileira que atua no Ageas Cooljazz, em Cascais, a 27 de julho.

Marina Sena é um dos nomes confirmados para a 20ª edição do Ageas Cooljazz - festival que decorre de 9 a 31 de julho entre o Hipódromo Manuel Possolo e o Parque Marechal Carmona, em Cascais. 

O astro emergente brasileiro atua no festival a 27 de julho, o mesmo dia em que o Cooljazz recebe a também brasileira Luedji Luna. No cartaz da edição de 2024 estão confirmados os seguintes nomes: Lana Gasparøtti e Air (9 julho), Chaka Khan e Morcheeba (10 julho), Dino D'Santiago e MARO (19 julho), Diana Krall (26 julho), Marina Sena e Luedji Luna (27 julho), Fat Freddy's Drop e Expresso Transatlântico (30 julho) e Jamie Cullum e Inês Marques Lucas (31 julho)

Oriunda de Minas Gerais, agora a viver em São Paulo, Marina Sena vai chegar a Portugal com dois álbuns - "De Primeira" (2021) e "Vício Inerente" (2023) - e a meio da composição do terceiro. A artista brasileira, que soma 5 milhões de ouvintes mensais na plataforma Spotify, vai estrear-se no festival de Cascais com o espetáculo "Vício Inerente 2.0", com o qual irá viajar pelas diferentes fases artísticas que protagoniza, desde a altura em que tocava violão na praça de Monte Claros, em Minas Gerais, à azáfama das gravações em estúdio e das digressões internacionais.  

O novo espetáculo, criado um ano após a edição de "Vício Inerente", surgiu da "necessidade de explorar mais versões do trabalho" que editou em 2023.  

Como amostra do que vai apresentar em Cascais, a cantora e compositora brasileira partilhou uma versão acústica de 'Mande um Sinal' - uma das faixas do disco. 


O que é que vais mostrar no Ageas Cooljazz?

Ando na estrada, a mostrar o "Vício Inerente", há cerca de um ano. Tenho andado pelo Brasil mas também tive a oportunidade de levar o espetáculo até à Europa e a Portugal. Acho que, ao longo do ano, o conceito do álbum amadureceu bastante. Sinto que foi mais aprofundado e penso que esse amadurecimento também se refletiu em mim enquanto artista. Foi por isso que criámos o [espetáculo] "Vício Inerente 2.0", que acaba por ser uma versão mais amadurecida do disco ao vivo. É precisamente o "Vício Inerente 2.0" que vou levar a Portugal. É um espetáculo no qual toco violão e aproveito para ir buscar canções mais antigas. Temas do tempo em que atuava na praça de Monte Claros [em Minas Gerais]. O espetáculo tem esse lado mais intimista, que acaba por ser o meu momento favorito, mas também passa pelas minhas outras fases artísticas. Vou passar pelo "De Primeira" [álbum de estreia], que é uma fase mais animada, e depois pelo "Vício Inerente", que, embora seja uma fase mais sensual e misteriosa, também é muito dançante.  

Esse amadurecimento já se sente naquele que será o teu próximo disco? O que é que podes contar?

Estamos na fase de composição, por isso ainda estou a tentar entender como será o produto final. Já fizemos um camping [criativo], mas também gosto de compor quando estou sozinha. É, aliás, quando gosto mais de compor. Adoro compor em casa, de madrugada, ao violão. Só eu e o violão. E saem muitas músicas. O violão é mesmo o meu instrumento favorito para compor. Já sabia disso, mas com o "Vício Inerente" essa certeza tinha ficado um pouco abalada. Agora não tenho qualquer dúvida. E sentia falta de compor no violão. Sobre o novo álbum, posso também dizer que as músicas novas têm características mais latinas e há ritmos brasileiros muito ritmados. Acho que está mais próximo do "De Primeiro" do que do "Vício Inerente", mas mais amadurecido. Desde a forma de compor à escolha das palavras, à própria poesia. Estou "chocada" com a minha poesia. (risos) Acho que evoluiu muito. Como estive quatro ou cinco meses sem compor, cheguei a recear que a fonte se tivesse esgotado, mas isso não aconteceu. Antes pelo contrário. Fiquei muito feliz por sentir que a minha poesia evoluiu. Acho que estou muito mais sagaz na forma de compor. 

Como é que a tua poesia te ajuda a olhar para a vida ou até para ti?

Creio que os artistas estão conectados com a energia criadora de Deus. Acho que Deus é um grande artista. Estou numa fase bastante esotérica. Tenho aprofundado muito este meu lado. Leio muitos livros sobre estas questões. Ajudam-me a entender qual é o papel do ser humano na história do Universo. Entendo que o nosso papel é o de observar a obra. Estamos cá para aproveitar tudo isso e para colocar o que vemos em palavras ou em música, de forma a que fique eternizado. É como se fôssemos os espectadores de Deus. Estamos aqui para testemunhar que tudo isto existe e é maravilhoso. A nossa consciência dá-nos essa capacidade. O artista conecta-se com a energia da criação e ajuda as pessoas a entenderem a existência. A arte ajuda-me a existir. Se não fosse a arte, não sei se seria tão forte a enfrentar a vida. Viver é um processo que dói. O peso da existência dói a qualquer pessoa. A arte ameniza essa dor. Ajuda-nos a estarmos conectados com o que realmente importa. É algo que quase não conseguimos explicar. É uma energia que nos conforta. Parece que explica a razão de estarmos cá. Para mim, a arte está neste lugar.   

Como é que estás a viver a fama? É como imaginavas?    

Não sabia que tinha de trabalhar tanto. (risos) Quem vive afastado do mundo do espetáculo acha que é tudo muito fácil. A minha mãe, por exemplo, fica chocada quando me vê a trabalhar. Ela não imaginava que desse tanto trabalho ou que eu tivesse de passar 24 horas dentro de um estúdio. As pessoas não têm noção. Eu também não tinha. Ao início, fiquei assustada. Nem conseguia pegar no violão. Hoje em dia, isso já não acontece. Agora já marco uma posição. Mas antes, posso dizer que aquilo que menos fazia era cantar. Passava o tempo na maquilhagem ou a filmar videoclipes e a dar entrevistas. Isso assustou-me um pouco. 

Em 2023, deste uma entrevista em que disseste que te tinhas preparado muito bem para a exposição da fama mas que tiveste de endurecer o coração depois de teres lido alguns comentários negativos em relação à tua voz. Como é que está esse coração agora?

Ainda estou a abrir o meu coração. Está em processo de abertura. É muito assustador ver a forma como as pessoas nos atacam, às vezes, só por existirmos. As pessoas atacam sem qualquer motivo. Isso assustou-me. Fiquei completamente apática. Não sentia tristeza, não me sentia feliz. Não sentia nada. Entretanto, comecei a libertar-me da prisão onde me tinha colocado. Voltei a sentir. Sinto-me muito mais livre. Já nem ligo a essas opiniões. 

Como artista, achas que podes ajudar a suavizar o ódio que anda a circular nas pessoas e consequentemente nas redes sociais?

Não sei o que é que os artistas poderão fazer a não ser continuar a trabalhar. Ainda estamos todos a aprender a lidar com esta realidade. A opinião sempre existiu, mas antes ficava em casa de cada um. Acho que os artistas não podem levar as opiniões não sustentadas a sério. Há tantas pessoas a expressar opiniões à toa, que acabam por perder credibilidade. Essas opiniões acabam por perder toda a força. 

E essa experiência está retratada de alguma maneira no teu novo registo?

Sim. O novo álbum fala muito disso. Fala sobre a forma como me libertei desse momento. Da sensação de simplesmente deixar de me importar com esse tipo de julgamentos. A verdade é que eu tenho uma história. Tenho uma trajetória que não é pequena. Tive de fazer um caminho longo para chegar ao sítio onde estou agora. E não foi um caminho fácil nem curto. Foquei-me nisso e lembrei-me do valor que tenho. Posicionei-me do jeito que tinha de me posicionar. Este novo álbum realmente fala disso.        

Não sei se costumas ouvir música portuguesa mas quero saber se existe algum artista português com quem gostarias de colaborar...

Eu oiço vários artistas portugueses mas posso dizer que gosto muito da Ana Moura. Gostaria muito de fazer uma música com ela.