NOS Alive: Dua Lipa nas danças do amor
Cantora inglesa seduziu toda a gente, com um espetáculo pop insuperável.
Um apito dá a ordem de início do espetáculo grandioso de Dua Lipa no Palco NOS, no tema ‘Training Season’. Como um apito de arranque, o verso "training season's over" cantado por Dua Lipa é o aviso. Terminou o período de treinos, agora as coisas são a sério.
Dua Lipa dá ela própria o exemplo e faz o que canta. Envergando um top e enfrentando o frio, comanda cheia de confiança um enorme exército de dançarinos que vai da língua de palco às duas pontes pedonais montadas. Mexe roboticamente os ombros para a frente e para trás. Os milhares de movimentos em palco estão todos coordenados com precisão e perfeição, com Dua Lipa e o seu corpo de dançarinos a mexerem-se como se fossem centenas de membros de um só cérebro.
Os obstáculos que Dua Lipa possa ter tornam-na uma heroína da pop. As botas brancas de salto alto não lhe atrapalham as rotações de 360°, nem lhe quebram a dinâmica os longos cabelos escuros, que com estilo agita e atira para trás dos ombros sempre que fotogenicamente se desordenam. De pele bronzeada, tem um ar leve e um olhar sorridente e empático e ao mesmo tempo felino. Olha-nos de lado e conquista-nos num flirt calculado. Assim foi ‘Training Season’, assim se replicou em muitos outros temas ao longo do espetáculo, sem nunca cansar.
Na primeira parte do espetáculo, Dua Lipa procura o amor durante a euforia da boémia. “Dance all night, dance all night”, pede a cantora no 3º tema do espetáculo, ‘Illusion’. O rebuliço continua na canção ‘Break My Heart’, com a cantora a descer a escadaria da ponte como uma estrela glamourosa de Hollywood, mas de traje veraneante. A pergunta ao público “estão preparados para viajar para a lua?” é como uma rampa de lançamento do foguetão funky ‘Levitating’, no momento da noite dos maiores desejos, em que Dua Lipa aponta o dedo para cada um de nós, para se juntarem a ela.
O tema ‘These Walls’ assinala o começo da 2ª parte, em modo melancólico, com Dua Lipa a lamentar o murchar do amor conjugal - “these walls, they'd tell us to break up” - numa forma pop mais lacrimejante que desliga por poucos minutos a pista da discoteca. Assim, o corpo acalma e os dançarinos descansam.
Dua Lipa pede depois para iluminar o público, dizendo que “são a cereja no topo do bolo”. A artista de sangue albanês emociona-se a falar, num discurso de despedida da digressão, que inclui um grande agradecimento à sua banda, que faz questão de apresentar, antes de interpretar o tema ‘Be the One’, que confessou ser “uma música que vai cantar para o resto da sua vida”. Depois do amor murchar, esse amor rompe-se, mas Dua Lipa levanta a cabeça e volta às danças exuberantes com a sua equipa, como quem diz: “a vida continua”, “vou seguir o meu caminho”.
O concerto avança como um enredo amoroso. Na música seguinte do espetáculo, ‘Love Again’, a personagem da cantora cai nas contradições românticas - “You got me in love again” -, enquanto faz par com um dos dançarinos. Com dons hipnóticos de estrela pop, Dua Lipa sabe parar o espetáculo. Com pose de diva e com uma só mão, dá a ordem de excitação a cada lado da arena, até reativar tudo junto numa êxtase global.
A cada mudança de ato, Dua Lipa deixa brilhar ou os músicos ou os dançarinos, enquanto se recolhe por brevíssimos minutos. Na terceira parte do concerto, irrompe um nevão de papelinhos, enquanto canta ‘Hallucinate’. Na versão de Cold Heart, de Elton John, a frenética Dua Lipa surpreende-nos quando se senta nos degraus da estrutura do palco. Quando Dua Lipa se prende ao suporte de microfone, a pop toma conta da canção sem a concorrência de outros géneros dançáveis, como no tema de rompimento conjugal ‘Happy for You’, em que a artista britânica desaparece numa nuvem de fumo como quem se despede do seu antigo amor.
Segue-se o encore, ou, por outras palavras, a razia final desta performer pop de topo. ‘Physical’ é um esplendor rítmico e visual, com Dua Lipa ainda mais majestosa na sua ação, seja na exuberante coreografia com os seus dançarinos, seja naquelas coisas simples com que também nos conquista, com o tal olhar sedutor e tão simpático e aqueles cabelos ondulantes que agita e corrige de forma tão rotineira quanto charmosa. Dua Lipa estica os braços como uma rainha, e leva os seus habituais movimentos a uma êxtase sensorial.
‘Don't Start Now’ é uma declaração da independência da mulher - “Aren't you the guy who tried to hurt me with the word "goodbye"? / Though it took some time to survive you / I'm better on the other side” – como um 'I Will Survive' de Gloria Gaynor dos tempos atuais. E depois vem o fecho com 'Houdini', em que o amor tem que acontecer o quanto antes, num apogeu musical que mereceu fogo-de-artifício e um passeio glorioso de Dua Lipa pela língua de palco. Que show!
Tal como no concerto na Altice Arena de 2022, o espetáculo volta a fechar com o êxito de Whitney Houston, que precisa de ser descrito pelo verso do refrão e não pelo título mais abreviado - “I wanna dance with somebody who loves me” – para se perceber o que Dua Lipa nos anda a sugerir. Dancem com Dua Lipa, amem-na.
Antes, no mesmo palco, tocou Arlo Parks, que não deu meramente um concerto de aquecimento para a estrela principal da noite (Dua Lipa, lógico), mas antes uma lindíssima atuação em lume brando. Porque foi de brandura de que se tratou este concerto de uma hora. Foi com brandura soul que a lindíssima voz de Arlo Parks bafejou uma música estruturada no rock. De recursos simples - apenas mais três músicos— mostrou diferença e individualidade de um modo elegante.
Com o seu corpo roliço, umas saias largas e meias subidas, Arlo Parks gosta de fechar olhos como quem está sentir o momento. O tema 'Dog Rose' é um exemplo de quando a guitarra elétrica se faz ouvir mais, Arlo Parks não precisa de elevar a sua voz. Mas é 'Devotion' o cume estético desse jogo entre soul e rock, com Arlo Parks a avivar a canção na guitarra elétrica e com um canto mais bonito que nunca.
Enquanto substituta de última hora de Tyla, Arlo Parks aproveitou bem a oportunidade de ouro e deixou um rasto de classe. O público pode não se ter manifestado muito, talvez porque o cozinhado musical em lume brando ainda não tenha fervido nas almas dos espectadores. É uma questão de tempo.












































