Take That dentro do seu próprio biopic musical

Dia inicial do Marés Vivas fica marcado pela atuação de estreia em Portugal da histórica boy band inglesa.

Esta sexta-feira parece um dia temático de boy power no Marés Vivas. Em dia de concertos dos D'ZRT e dos D.A.M.A., os Take That atraíram os holofotes no seu batismo ao vivo em Portugal, ao fim de mais de 30 anos de carreira.

Desfalcados há dez anos de dois dos seus membros - a estrela principal Robbie Williams e Jason Orange - os resistentes Gary Barlow, Mark Owen e Howard Donald já não fazem coreografias muito exuberantes, adaptando a sua performance à idade. Mas a imagem ainda jovem dos três parece um pacto com a eternidade, sem sinais de que são já cinquentões.

Uma roda de barras faiscava com dois T no meio do círculo. O trio vocal surge em palco a cantar 'Greatest Day', com o repto para todo o espetáculo: "Today this could be the greatest day of our lives". 'Giants' tem a imponência visual de Mark Owen e Howard Donald a baterem em tambores. 

'Everything Changes' tem cheiro a intemporalidade pop, em que sobressai o saxofone, na formação de seis instrumentistas que acompanha o trio Take That. A partir do quarto tema do alinhamento, 'Shine', Gary Barlow senta-se junto ao seu querido piano, com Mark Owen na liderança vocal, zelosamente acompanhada pelos coros. Na música 'A Million Love Songs', Gary Barlow parece um cantor de bar de hotel ao piano, a cantar a sua balada, complementado por um saxofone devoto de Kenny G.

Nos temas 'I Found Heaven' e 'Pray', começa a ficar mais clara a natureza biográfica do espetáculo, como se fosse um musical, com Gary Barlow, Mark Owen e Howard Donald a intercalarem-se nos enquadramentos das várias fases dos Take That. Os três vestem os casacos de couro e fazem uma coreografia maior, como se fossem uma boy band outra vez, mas com mais ferrugem nos movimentos.

Depois, os Take That pegam nesse tranquilizante eterno dos Bee Gees, 'How Deep Is Your Love', que termina com um exigente falsete. 'Patience' arranca com uma ligação telefónica: "hey rapaziada, que tal voltarmos a juntarmo-nos outra vez". 'The Flood', 'Get Ready for It' e 'Windows' são os capítulos seguintes da história dos Take That, num período mais morno do espetáculo.

Em 'This Life', Gary, Howard e Mark recriam um piquenique onde pegam em bandeiras de Portugal, pastéis de nata, vinho do Porto e cerveja nortenha. Sentados, como se estivessem em cima de toalhas, e de chapéus de palha, pareciam uns simpáticos turistas reformados.

O trio de cantores recolhe-se, a banda faz a continuidade... instrumental. Quando os Take That voltam, vêm vestidos de branco, prontos para a festança e para arrasar. Nos temas 'These Days' e 'Hold Up a Light', estão em modo "Saturday Night Fever", ou melhor Friday Night Fever, reconquistando a juventude, reavivando as rotações que faziam nos anos 90. 

Depois, a enciclopédia musical apropria-se do alinhamento de forma sorrateira e fantasmagórica. Interpreta-se um dos temas mais populares dos Take That, 'Back for Good', na linha das baladas dos Bee Gees (outra vez, os Bee Gees), com Gary Barlow no empenho musical, ao piano e no comando vocal, enquanto os dois restantes membros ondulavam os braços no ar com a multidão. Em 'Never Forget', sai a cadência rítmica de 'Will Rock You' dos Queen. 'Rule the World' fecha a hora e meia de um espetáculo que explora as sobras da adolescência. As saudosas e mais adultas espectadoras fizeram o mesmo, lá dentro das suas memórias. 

Antes, estiveram em palco os D.A.M.A., com o trio de MCs Francisco Maria Pereira, Miguel Coimbra e Miguel Cristovinho na frente do palco, enquanto a banda de apoio tocava numa plataforma mais elevada.

Em ‘Não Dá’ o palco ficou com um céu pristino, mesmo que a noite ainda não tivesse caído no verdadeiro céu. ‘Não Faço Questão tem na sua geografia uma montanha que é um solo de guitarra todo vistoso. Em ‘Oquelávai’, os D.A.M.A., tornam-se grandes sentimentalões.

Mais próximo do final, ouve-se 'Loucamente', no seu habitat de música cigana. E no tema final ‘Casa’, a arena estrelou com tantos telemóveis no ar, numa melodia com chamamento alentejano, incluindo uma familiaridade com ‘Menina Estás à Janela’, de Vitorino.

O concerto de Syro abriu o palco principal, debaixo de uma neblina pouco veraneante. Teve em palco a visita especial de David Carreira para o dueto de ‘Coração’, que é uma palavra muito querida para Syro. Confidenciou que o seu coração está no norte, até porque toda a sua família é nortenha, apesar de viver a sul. E confessou que o cartaz de sexta-feira era muito especial para Syro, sobretudo os D’zrt, a primeira banda ao vivo que diz ter visto, quando tinha nove anos de idade.

Syro gosta de fazer interpretações chorosas, ou uma coisa assim, de olhos semicerrados, a forçar os músculos do rosto, num esforço simultâneo de alma. Syro senta-se, leva a mão ao peito e sai do palco, para junto do público, para aumentar o sentimento. Foi uma hora de sentimento.

A fechar a noite de boy power, numa espécie de reencarnação da adolescência, estiveram os D'zrt. Tudo o que tentaram fazer, era para ser com estrondo, como se não conhecessem outro modo, até mesmo no anúncio de mais concertos – em Coimbra, a 28 de setembro, com os 4 Taste e as Just Girls; e no Multiusos de Gondomar, e a 29 de novembro, com os 4 Taste à pendura. Isto ainda não acabou, dizem eles. ‘Para mim tanto faz’, foi este o tema de encore. Antes, tocaram ‘Verão Azul’ e outros verões, apesar do tempo acabrunhado negá-lo. Aquelas acrobacias de dois dos membros dos D'zrt, com saltos mortais no final, requerem formação de ginástica desde os tenros anos.