Marés Vivas: Bendito Harper

Muito bem apoiado por uma excelente banda, o cantor norte-americano deu uma onda espiritual ao festival.

Ben Harper, com o seu habitual gorro, tem a calma de um guru espiritual. Há uma linha contínua de equilíbrio do guitarrista ao longo do concerto de mais de 75 minutos e que passa para a sua voz.  

O momento mais forte ocorreu logo nos minutos iniciais, em registo à capela, com os cinco músicos em palco a cantar ‘Below Sea Level’, em gospel de luto, a fazer o funeral para a mortandade que está a ocorrer com os imigrantes no Mar Mediterrâneo ou, na origem da canção, o Oceano Pacífico. 

A banda liga a engrenagem instrumental em ‘Diamonds on the Inside’: duas guitarras elétricas, um órgão, um baixo e uma bateria em trabalhos. À terceira música do concerto, ‘Glory & Consequence’, Ben Harper parece um guitarrista berbere do blues-rock do deserto, com consanguinidade com os Tinariwen ou Mdou Moctar.  Qualquer tema seu brota espírito ativista, mas este é um lema de vida geral.

A guitarra de Ben Harper continua amplicada em Burn to Shine , mas a sua voz permanece bem moderada. Em 'Don't Give Up on Me Now', a vestimenta instrumental torna-se mais meiga, uma espécie de slow rock. 

'Finding Our Way' exponencia o que Ben Harper e a sua banda têm de melhor. Os instrumentos continuam em estado livre, mas em formato de reggae, de que Ben Harper sempre gostou. A música expande-se no tempo, os músicos expandem as suas virtudes 

Ben Harper vai manobrando os seus vários talentos de guitarrista.  Em 'Mama’s Trippin', big Ben voltar a ser um herói blues-rocker à guitarra. No tema 'Steal My Kisses', Ben Harper senta-se para tocar uma das suas guitarras horizontais sobre as suas coxas. 

“Podemos fazer o maior dueto do rock & roll convosco?”, pergunta Ben Harper. “Vanessa da Mata não pode estar aqui". ‘Boa Sorte’ é um dueto bilíngue com o público a cantar vivamente em português abrasileirado, a merecer uma reação mais expansiva de Ben Harper, que faz o seu pezinho de dança, longe do microfone e dos seus instrumentos. 

‘Burn One Down’ continua a ser uma das músicas mais reconhecidas pelo público, rematada por um grande dedilhado do seu companheiro da guitarra. Em ‘Say You Will’, o cantor californiano abana a cabeça na direção dos céus, fecha os olhos, enquanto toca outra das suas guitarras horizontais. 'Faded' merece uma longa introdução numa das suas guitarras especiais. O seu modo contido de cantar arrisca o anti-clímax, mesmo a meio de um dos seus temas mais emblemáticos.

Depois, Ben Harper desenha um instrumental, em que as suas mãos deslizam pelas cordas da guitarra sem palheta. A música vai parar a outro deserto, num parentesco com a música do filme "Paris Texas", composta por Ry Cooder.

No encore, para festejo de alguns, Ben Harper volta a palco com uma camisola alternativa do FC Porto. Canta ‘Amen Omen’ de forma delicada, embelezada por alguma transcendência. A colagem à versão de 'Knockin on Heaven's Door', de Bob Dylan, é a escadaria celeste faltava. 

Ben Harper termina a atuação sozinho em palco, para tocar à guitarra elétrica ‘Walk Away’, uma música de despedida de alguém que partiu, que parece ideal para o final do concerto.

Assim que James Arthur começou a cantar no palco maior do Parque da Madalena, a chuva parou, a mesma chuva que tinha acompanhado todo o concerto de Rag'n'Bone Man na hora anterior.

A meio do seu concerto, James Arthur fala da importância da coragem em se admitir problemas de saúde mental com amigos e família, para se poder superar dessa enorme tormenta, antes de cantar 'Train Wreck'. A luta pela saúde mental tem sido uma das grandes causas do cantor, que viveu pessoalmente questões de ansiedade e de depressão.

A sua devoção espiritual em ‘Naked’ vai até à rouquidão. Enfia na canção ‘Sermon’ trechos de ‘Ready or Not’ dos Fugees, com a passagem da voz de Lauryn Hill.

Aclamou o público do Marés Vivas como um dos melhores que tem tido e não parou de referenciar uma cerveja portuguesa em particular, com o acompanhamento rítmico de 'We Will Rock You' dos Queen. “Tão deliciosa e refrescante”, dizia ele sobre aquele líquido de cevada. ‘Say You Won't Let Go’ é a balada que fecha o concerto, com o público a aderir ao refrão.