Chris Isaak deu-nos baile à americana

Hora e meia de profissionalismo de topo no Campo Pequeno, em Lisboa

O Campo Pequeno, em Lisboa, parecia uma estufa, tal o calor. O tempo tão quente era um pequeno contributo para o ambiente californiano que o pouco público presente iria viver, por cortesia do grande músico e performer Chris Isaak, que nos abriu a vista para toda a costa do Pacifico.
 
Às 21h40, o guitarrista Chris Isaak entra com um excêntrico fato azul de lantejoulas, acompanhado pelos seus quatro músicos: um segundo guitarrista, o baixista, um organista e um baterista protegido por um acrílico. Isaak canta sobre o homem vulgar que se orgulha da sua autenticidade no tema de entrada ‘American Boy’. Ainda no palco, faz crooning sobre a sua especialidade, o fado da perda amorosa, em ‘Somebody's Crying’, a típica canção de ruptura conjugal, mas neste caso bem autobiográfica.

Um músico de entretenimento que se preze é também um comunicador com sentido de humor. Chris Isaak segue esses preceitos logo no primeiro discurso ao público: “quando me vêem com este fato, ou estão a olhar para um verdadeiro profissional do espetáculo, ou para um atleta de patinagem artística”. Opção 1: Chris Isaak é um verdadeiro profissional do espetáculo. E como verdadeiro “profissional do espetáculo”, Chris Isaak entra pela plateia sentada adentro, esgueira-se para várias espectadoras e sobe até à bancada, onde numa série de variações musicais, vai manobrar-se pelo clássico do cancioneiro português ‘Coimbra’, conhecido sobretudo pela frase “Coimbra é uma lição”, e apropriado pela música norte-americana como ‘April in Portugal’, um instrumental gravado por Les Baxter, já longe do Mondego mas molhado pelas ondas do Pacífico. Bem conhecedor de música, Chris Isaak lembrou que ‘Coimbra’ foi cantado por Amália Rodrigues.  

De volta ao palco, Chris Isaak provocou as primeiras grandes reações do público, mal começou a tocar os primeiros acordes de ‘Wicked Game’, uma balada escaldante no universo sensorial dos desejos, em que a modelo Helena Christensen é só um sonho de um vídeo veraneante e erótico, com palmeiras, areal e um verniz de unhas a estalar e a sujar os rostos dos dois amantes abraçados.

‘Go Walking Down There’ é um manifesto de dor de alma, mas a neura rock & roller, com guitarras em brasa levantou a plateia sentada. A versão do clássico do rock & roll de Roy Orbison, ‘Oh, Pretty Woman’, ajudou à festa e à dança, enquanto Chris Osaak já dava pequenos pulos. Toda a banda se senta para o slow ‘Forever Blue’ que é anunciado por Chris Isaak como influenciado pelo cantor e trompetista de jazz Chet Baker. Aqui, a personagem masculina de outro desencontro amoroso é descrita na terceira pessoa. Mantendo o volume sonoro baixo, toca-se suavemente ‘Blue Spanish Sky’, que tal como ‘Wicked Game’, surge na banda sonora do filme de David Lynch, “Wild at Heart”. Tudo é subtil em ‘Blue Spanish Sky’, incluindo a guitarrada de flamenco, até Isaak saber elevar a voz no momento certo.

Como “verdadeiro profissional de espetáculo”, mostra alguns truques que provam a boa rodagem da sua banda de há 30 anos, ao Interromper um tema sem problemas, no que parece ser uma ilusão ensaiada. Quando Chris Isaak deu a oportunidade ao seu guitarrista de escolher o tema a tocar, dando-lhe duas opções - a versão de 'Only The Lonely' ou 'Take My Heart' -, o seu músico deu a resposta do tema que estava no alinhamento, ‘Take My Heart’. ‘Love is true / Hold me tight / Whisper on my dear like lovers do”, aqui Chris Isaak retrata o jovem afoito que se prepara para dançar com a sua apaixonada, como se fosse um baile de finalistas de liceu. No Campo Pequeno, umas raparigas desinibem-se a dançar num dos corredores centrais, talvez à espera do tal rapaz afoito. A música é em modo oldie, e com Elvis a espreitar todo vivaço na canção. Tanto profissionalismo não merecia a traição de um reincidente problema de amplificação, mas o show tem que continuar.

Em 'Dancin'' é já Chris Isaak a avançar para a pista de dança e para a sedução, num tema mais adulto, sem a inocência de ‘Take My Heart’. As tais raparigas continuam a dançar no corredor da plateia, mas Chris Isaak manda-as avançar para próximo do palco, como se estivesse a recriar ali mesmo a letra de Dancin' - a música mais antiga do seu reportório tocada no Campo Pequeno.

Chris Isaak resolve falar mais um pouco com o público, como se estivesse num balcão de um bar, a conversar com um amigo. Desabafa ele então, feliz: “adoro o que faço! Já trabalhei em ranchos, em portos e em cima de telhados. Mas sempre vesti um fato todo bonito. E um amigo meu perguntava-me: ‘Chris, porque vestes sempre esses fatos?’ ‘Um dia saberás?’. Para que não tivessem dúvidas da sua paixão à sua profissão de músico, cantou a sua versão de ‘Can't Help Falling in Love’, a assumir bravamente a sua descendência de Elvis Presley. Vários casais abraçaram-se e, Chris Isaak, o casamenteiro, incentivou-os a beijarem-se. Depois, amplificaram-se mais as guitarras para o tema célebre de Chris Isaak, 'Blue Hotel' (de 1987), numa Route 66 do amor, mas conduzida sozinho. A passageira pertence só aos sonhos. Christopher Isaak pode ter a benção do seu homónimo São Cristóvão, padroeiro dos viajantes, mas não se chama Valentim. As flechas sem pontaria ao coração da mulher são a fonte das suas canções, incluindo ‘Blue Hotel’, que motivou uma coreografia dos dois guitarristas e do baixista ao estilo da surf music.

Os cinco músicos em palco dão em seguida corpo a ‘Notice the Ring’, sobre as expetativas goradas quando se descobre que a desejada está comprometida. Uma fã junto ao palco estica então o braço na direção de Isaak. Teria ela um anel? ‘Notice the Ring’ abre campo para vários solos instrumentais de toda a banda. Em 'San Francisco Days', Chris Isaak volta a ser Mister Simpatia, quando se agacha para uma guitarrada, para facilitar uma selfie de uma fã que se tinha aproximado de uma das pontas do palco. Chris Isaak vai para trás, põe as mãos nos ombros do teclista, e a banda segue então para o puro blues de ‘Big Wide Wonderful World’, durante o qual as pessoas foram-se sentando na escadaria do palco, para a selfie com a estrela de lantejoulas acima deles, Chris Isaak.

No encore, Chris Isaak volta a palco com um fato ainda mais brilhante e até espelhado, para o excitante ‘Baby Did a Bad Bad Thing’, com o cantor norte-americano a engrossar a voz no momento do refrão, como um monstro demoníaco, como o aterrorizante e lendário músico Screamin Jay Hawkins. E ainda infiltra um pouco da música de James Bond, com reforço de surfbilly, e enfia lá no meio um trecho da canção ‘Bye Bye Baby’ dos Four Seasons. Durante a interpretação de Baby Did a Bad Bad Thing’, Chris Isaak abre o palco para a invasão de espectadoras, e nem ali as selfies deixam de ser uma preocupação. Não só gramam Chris Isaak como instagramam-no. Em embulição como um furacão Elvis no momento áureo de ‘Baby Did a Bad Bad Thing’, Chris Isaak agiliza-se todo, abre as pernas, abana-as e ergue a guitarra no ar, como um “verdadeiro profissional de entretenimento”.

No tema seguinte, ‘Live It Up’. é o seu guitarrista que faz o brilharete, em rotações de 360º repetidas, no corredor da plateia sentada, enquanto o baterista de “há quase 40 anos” de Chris Isaak tocava com uma escova num pequeno tambor de pé. O concerto conclui-se com a música ‘The Way Things Really Are’, que também se poderia perder numa compilação qualquer de baladas de oldies.