Nick Cave, um deus do palco na MEO Arena (as fotos)

Duas horas e meia de um concerto vibrante, com muitas emoções à solta.

Nesta longa noite de domingo, Nick Cave teve que desapertar a gravata para a torrente de alma, e não só de suor, que tinha que deixar correr para o seu mundo de fãs. 

O cantor australiano ligou o grande ao grandioso. O concerto era na maior da sala de espetáculos do país, a MEO Arena (em Lisboa), quase que cheia que nem ovo. A logística humana era de peso: dez músicos em palco a acompanhá-lo, incluindo o quarteto de coros. O ecrã atrás era gigante como os das grandes estrelas pop. E o concerto teve uma duração à escala de Bruce Springsteen & The E Street Band, com duas horas e meia. Mas ao centro havia Nick Cave, um ser superior em palco, à dimensão de um deus. Houve quem, da linha da frente, tivesse berrado que ele era um deus selvagem (citando tão só o título do seu último álbum, “Wild God”). Nick Cave respondeu ao seu estilo brincalhão: “eu já suspeitava”.

Nick Cave dá-se totalmente às filas da frente, mas põe todos em sentido. Impõe respeito, é generoso, pode até dar-se ao trabalho de autografar um vinil em plena performance, mas não abusem dele, porque a sua paciência é finita. O seu rosto varia nas mais diversas expressões que a cara humana permite e a sua dança de há alguns anos é à volta dele próprio, aos saltos, como um macaquinho, ou uma criança reguila que não consegue estar quieta.

A luminescência do seu olhar era permanente, no sorriso que repetia, mas também quando a lágrima lhe humedeceu sutilmente os olhos na canção de choro pela perda do seu filho Arthur em ‘Bright Horses’. O concerto era uma montanha russa emocional, por vezes, de fronteiras cerradas ao lúdico – em baladas sentado ao piano de cauda como Long Dark Night, Cinnamon Horses, I Need You, ou Carnage. Noutra vezes, numa excitação endiabrada com doses de entretenimento, como as passeatas frenéticas de ‘Jubilee Street’, ‘From Her to Eternity’, ou ‘Red Right Hand’, com Nick Cave em permanente ameaça de um crowdsurfing que só se evitava num último fôlego, com a ajuda de espectadores de mãos numeradas, a quem eram confiados o microfone do artista australiano. Quem está nas filas da frente sente-se num local tão privilegiado como um turista do Faial com vista para a ilha do Pico, em duas horas e meia com o franzino Nick Cave em cima deles. Na MEO Arena, o pico é emocional e é uma sucessão.

Os seis Bad Seeds em palco já não têm aquela imagem carismática de outras décadas. Demasiadas mudanças recentes esvaziaram-lhe a personalidade rufia. Ainda se vê por lá Jim Sclavunos, com uma panóplia de percussão que parece uma cidadezinha de arranha-céus e um vibrafone para a fazer cintilar. E claro, está lá o barbudo Warren Ellis, com aquele ar de druida e um talento desmesurado em qualquer instrumento à face da Terra, de genialidade incontinente nos sintetizadores ou no violino e agora com uma voz poderosa para os falsetes – como se bem ouve em ‘Bright Horses’. Mas Warren Ellis esteve um pouco mais apagado, por causa da sua perna amachucada, que o obrigou a vir de bengala e a fazer uma pausa a meio do concerto para pôr mais umas ligaduras. 

Relatar todos os momentos tocantes do concerto de duas horas e meia de Nick Cave implicaria escrever um livro de vários volumes. Se não se importarem, podemos então saltar para os encores, com a visão fantasmagórica de Anita Lane (antiga musa e namorada de Nick Cave e grande amiga para a vida) no ecrã, com um ar angélico, enquanto se interpretava ‘O Wow O Wow (How Wonderful She Is)’. A ‘Papa Won't Leave You, Henry’, Nick Cave chamou-lhe de canção muito antiga, que foi novo puxar de corda para o peão dar mais voltas à plataforma alongada do palco. ‘The Weeping Song’ já não foi um dueto com o ex-Bad Seed, Blixa Bargeld, mas um coro em uníssono de mais de dez mil vozes. No último encore, Nick Cave voltou sozinho para se sentar junto do seu piano de cauda e se despedir com ‘Into My Arms’, que o público cantou de cor, sem cábula.

Nick Cave efabulou ‘Tupelo’ como a tempestade em que nasceu o único gémeo vivo Elvis Presley numa terriola perdida da América. O próprio Nick Cave foi um vendaval. Rúben Viegas levou o colete salva-vidas, como se embarcasse na canoa que abanava no vídeo de ‘The Weeping Song’. Atracado junto ao passeio marítimo de Nick Cave, resguardou-se das gotículas de suor e de saliva do cantor e guardou-nos estas fotos de um concerto épico.