Samuel Úria: "todas as minhas canções são de alguma forma abrilistas"

Sai hoje o seu novo álbum, "2000 A.D.", o que motiva esta entrevista.

Com mais de 40 anos de idade, Samuel Úria revolve reviver a passagem do milénio, mas sem fogo-de-artifício, num jogo de espelhos entre as esperanças que teve aos vinte anos e as esperanças que viu defraudadas. 

"2000 AD" é um álbum de intervenção política e de reflexão introspetiva, mas também uma odisseia no espaço da sua própria vida, entre Tondela e Lisboa, num êxodo rural e mental. Úria vai ao passado para fazer perguntas sobre o presente, agora que teme o futuro.   

A salvação volta a ser a música, ora confortada na intimidade dócil, ora rejubilada em coros coletivistas e numa coisa que se chama amizade. E é na amizade que o álbum fecha comoventemente, num tributo a um imortal dos seus círculos de amigos, numa intimidade universalizada e transbordante. 

9 é o número de canções do álbum. 9 é o número algarismos do Sudoku, o jogo matemático com que, em espírito, desbloqueia os enguiços da escrita de letras. Nesta entrevista, o músico lisbeirão também joga ao Scrabble. 

A canção-título '2000 A.D." pode ser vista como uma radiografia da tua mente nos anos 90? 
Em boa parte sim, porque embora seja uma canção que de alguma forma revela algum desencantamento com o presente, esses desencantamentos estão alicerçados nalgumas expectativas que eu fui amontoando nos anos 90 e 80, os meus anos formativos. E agora, de facto, isto é uma espécie de crónica e retrospetiva ao mesmo tempo. E ainda por cima, eu cresci numa cidade pequena do interior e a canção também aponta um pouco para esse desnível que é, de repente, eu achar que vim para a cidade, saí de Tondela mais ou menos no início do século, quase como se fosse um passo evolutivo. E agora é uma espécie de acordar para a ausência dessa evolução, pelo menos de uma forma muito concreta. As coisas evoluíram de determinadas maneiras, mas nem sempre da forma positiva com que eu contava com aquilo que foram as minhas ilusões e construções da adolescência. É uma canção se calhar também sobre a idade adulta, mas também o mundo que também está de alguma forma a envelhecer, não da forma mais madura.

Samuel Úria

O mundo está estranhamente cavernícolo.
É verdade. Eu acho que todas as gerações podem queixar-se disso, mas eu acho que é inegável. Deixa de ser uma espécie de queixa subjetiva, neste momento em que estamos a viver, como o amontoar de coisas. E ainda por cima acabámos de sair de uma pandemia e de alguma maneira pensamos sempre que “depois da tempestade há a bonança”, ou que se calhar íamos ter aqui uns aninhos de paz depois deste tumulto, ainda por cima um tumulto acabrunhado. Nem sequer [foi] um tumulto que nos fez abanar, foi um tumulto que nos conteve. E não, de facto as coisas parecem não melhorar. 

Ainda sobre a canção 2000 AD, tu fazes um jogo de colagem de palavras parecidas: anjo - asno, letra - lepra, rezingo - respingo. Porquê?
É mesmo uma característica lúdica que eu encontro na língua portuguesa. Não é propriamente o formalismo do som da língua portuguesa de Portugal, do português colonial europeu, mas há uma espécie de comprometimento muito sério quando estamos a cantar em português. Eu estou a dizer isto porque quando comecei a fazer música, as minhas primeiras bandas cantavam todas em inglês, que é a língua franca de alguma despreocupação. O português compromete muito, mas por outro lado também é uma língua lúdica no sentido em que conseguimos de alguma forma, pela extensão do nosso vocabulário, encontrar palavras que sirvam o significado daquilo que queremos dizer, mas que também tenham graça ou que se emparelhem com alguma graça. E eu gosto muito de procurar isso nas rimas, que é encontrar palavras que podiam estar aleatoriamente por causa da maneira como elas soam juntas umas com as outras, a cacofonia do próprio encadeamento das palavras. Mas, por outro lado, também servem exatamente aquilo que eu queria dizer. Nesta canção, de facto, encontrei vários termos, vários vocábulos que juntos são engraçados, são próximos, são parecidos, embora às vezes até sejam antagónicos, mas que serviam exatamente aquilo que eu queria dizer. E é uma das minhas grandes motivações quando estou emperrado a escrever uma canção. Por isso é que muitas vezes comparo a ideia na escrita de letras - por muito que haja um lado sensível e até romântico e muito de coração - por outro lado há uma coisa muito matemática como o sudoku, que é um sudoku normalmente que nos aparece à frente. Temos um número limitado de números, de algarismos que podemos usar, mas sabemos que há uma conclusão certa para aquilo. Eu nunca desisto das letras, mesmo que elas não tenham sido descritas previamente, porque acho que existe uma conclusão perfeita para aquilo que eu quero dizer. Então insisto e insisto sempre com essa esperança matemática na resolução das letras.

A 'Canção de Águas Mil' é a tua música mais abrilista de sempre?
Tendo eu feito parte da geração de rescaldo de 25 de Abril, ou seja, eu nasci ainda no final dos anos 70, ainda bebi de alguma euforia da revolução, ainda vivi alguma controvérsia. Não a que se vive agora. [Era] uma controvérsia, se calhar, um pouquinho mais saudável, em que conseguíamos identificar e estava muito mais objetivado aqueles que estavam errados em relação àquilo que se tinha passado. Hoje em dia, estamos num terreno pantanoso. Mas tendo vivido nessa geração, eu acho que todas as minhas canções são de alguma forma abrilistas, porque são a expressão de uma liberdade que foi conquistada pela geração dos meus pais, e pela geração entre a minha e a dos meus pais. Esta é a canção mais literal e que vai mais ao cerne da própria questão e da própria celebração. E, sobretudo, também é uma canção que aviva, não tanto o dia da felicidade, que foi o 25 de abril, mas todos os dias de infelicidade que forçaram a que houvesse essa revolução. Porque acho que são esses dias que estão a ser mais esquecidos, porque, de repente, andamos em conversas de surdos de quando é que foi a revolução, quando é que ela se concretizou, quando é que ela se cumpriu. Qual é o dia em que nós devemos celebrá-la? Que derivas é que houve dali que, de repente, afunilaram para a liberdade e a democracia constitucional e liberal com que nós vivemos? E muitas vezes essas discussões, que são inúteis e são facciosas, mesmo de facção, e que são puramente políticas e, às vezes, até muito demagógicas, fazem-nos perder um bocado a noção de que devemos falar daquilo que nos forçou a que houvesse um 25 de Abril. Essa canção celebra e lamenta. É uma espécie de memorial daqueles que sofreram e, sobretudo, daqueles que, sofrendo, quiseram ter voz para que o sofrimento parasse para os restantes. 

Samuel Úria

O facto de se comemorar os 50 anos do 25 de Abril cravou-te para esta canção? 
Esta canção até foi escrita do ano passado. Mas de facto eu estava já com muita vontade de fazer uma canção deste tipo, com esta temática, e infelizmente não tanto pelas comemorações do 25 de Abril mas por essa deturpação e por um revisionismo que eu cresci a achar que nunca seria propalado com tanta gente crédula a querer mascarar ou a querer às vezes maquilhar tudo aquilo que foram os 40 anos de ditadura. Acredito que esse atrofiamento nunca irá pôr o pé na garganta da liberdade que foi construída, da liberdade que foi conquistada. Ainda assim está a arrastar e a arrestar muita gente. E isso acho que foi o que me levou a querer avivar aquilo que eu acho que é a verdade histórica, embora depois estou aqui de uma forma poética e concentrada, eu escrevi pleno de convicção de que é a verdade histórica que está ali a ser remembrada. 

‘Um Adeus Português’ é uma música mais recolhida e ao mesmo tempo mais aveludada.
Foi uma canção que me deu muito trabalho no sentido em que eu estive a rejeitá-la durante muito tempo. Eu escrevi um poema inspirado por outro poema. Eu faço muitas vezes canções que não são fáceis de ligar, mas que eu assumo que são inspiradas por filmes, por outras canções. Escrevo letras que são inspiradas pela literatura, por pinturas, por esculturas. Mas esta foi uma canção que foi motivada pela leitura de um poema do Alexandre O'Neill. Mas não é um musicar desse poema, nem é um apropriar da mensagem de um poema. É uma revisão íntima, motivada pelas ideias que o Alexandre O'Neill está ali a descrever n’Um Adeus Português, motivada até pelo lado biográfico e da maneira como ele consegue, de alguma forma, pegar no pólo de pensar a Portugalidade ao mesmo tempo que está a falar de casos completamente identificados que têm a ver com a intimidade dele. Eu quis fazer o mesmo, inspirado pela terminologia que está no poema. E então o que me brotou foi uma coisa que também muitas vezes chuto para canto: as letras das minhas canções raramente soam a poesia, no sentido em que usam linguagem poética, usam uns recursos estilísticos, mas não têm vida se não servirem para ser cantados. E esta canção estava a soar um bocadinho a poesia que podia ser lida. Isso deixou-me um bocadinho de pé atrás em relação à música, até que no ano passado, tive o privilégio de escrever o prefácio de um livro de poesia do Miguel Duarte, uma primeira obra, e fiquei muito entusiasmado por alguém que não tinha medo das palavras, não tinha medo de ser palavroso, não tinha medo de ser recôndito nas suas referências, não tinha medo de ser às vezes até um bocadinho formal nas soluções que usa e referencial. E isso fez-me pacificar com essa canção que estava engavetada. E então, depois de muita dor de cabeça com uma canção que ia ser assumidamente triste, e depois de tanto tempo a bater com a cabeça na parede, entreguei boa parte da ideia desta canção ao Miguel Ferreira, que fez os arranjos. Eu disse-lhe qual era a ideia, disse-lhe qual era o ambiente que queria, mandei-lhe uma maquete com uma coisa muito semelhante àquilo que é a estrofe e entreguei-lhe a parte mais suave e maviosa da canção, que são os arranjos de cordas, e ele fez uma surpresa muito grande, que era de me deixar de lá um espaço vazio, que seria para solos, para mais cordas, para a canção crescer, e ele devolveu-me uma maqueta em que havia quase uma espécie de silêncio, só guitarras acústicas a tocar ali. E não era a minha intenção, e de repente estou a apoderar-me dessa intenção, porque esses silêncios fazem parte da canção. Fico muito feliz porque alguém que não é detentor da mensagem original, compreendeu uma solução melhor do que aquela que o emissor da mensagem original tinha destinado. 

Em ‘Quem Me Acende a Voz’, fazes muitas perguntas. A quem?
A pergunta é a mim mesmo. Se calhar é uma temática recursiva, multiplica-se sobretudo nos meus últimos discos. pelo menos desde há 10 anos, no [álbum] “Grande Medo do Pequeno Mundo”, acho que é o primeiro disco que aborda isso, e depois, muito enfatizado no outro disco que é o “Carga de Ombro”. Tem um bocado a ver com quando nós procuramos a raiz das nossas capacidades, a raiz das nossas apetências. Muitas vezes estamos a fazer um exercício só em nós próprios e estamos a perder tempo, a esmiuçar uma coisa que já está adquirida. Com as minhas canções eu tento sempre pôr o dedo na ferida para essa espécie de autismo na produção das coisas, nos nossos objetivos. E o ‘Quem Me Acende a Voz’ é uma canção comunitária. É uma pergunta retórica, nesse sentido eu sei responder a essa pergunta. Estou a convidar as pessoas a também responderem a essa pergunta e que façam a pergunta da mesma forma que eu faço. Convidei os meus amigos, os meus irmãos, o coro que me acompanha nessa canção para uma forma mais amplificada e altissonante e harmonizada, por vozes de pessoas que têm a mesma resposta a essa pergunta. Dirigimos-nos e apontamos essa pergunta a quem quiser ouvir e a quem quiser submeter-se à questão. 

Tu delegas nos coros a voz da tua consciência? 
Não estou propriamente a delegar, estou a usar pessoas que me compreendem, que, antes de serem músicos que me acompanham, são amigos que me acompanham, são companheiros de vida em muitas coisas e companheiros de convicções. Estou a convidá-los para se juntarem a mim, para que a mensagem também não fique só detida no seu emissor primário. Porque se eu estou a tentar fugir um bocado a esse egoísmo que é natural, até há quem defenda que é genético. Tenho que o fazer com parceiros. E acho que a minha música não era nada, não ia a lado se eu não tivesse sempre gente tão boa, não só para me ajudar a fazer a canção, mas também pessoas com generosidade para quererem ouvir-me e para quererem compreender-me. 

Sei que não vês o ‘1998’ como um tema de western spaghetti, mas eu não consigo deixar de pensar isso. É um tema muito árido, tem assobios à Ennio Morricone. Parece que estou a sentir ali a carroçaria a galopar, a ouvir o chicotear sobre os cavalos.
Eu uso a estética da música das bandas sonoras de western spaghetti para depois também fugir a elas. A melhor maneira de desconstruir e de negar uma coisa é pegar nela e desvirtuá-la de alguma forma. E ela é desvirtuada de várias maneiras, ou seja, eu fiz o melhor que pude para reproduzir algumas das ideias que eu tinha do western spaghetti e depois também lhe acrescentei coisas que não fazem parte desse universo, como alguns sintetizadores, há um omnichord que aparece, instrumentos um bocadinho mais modernos ou pelo menos mais conectados com o synthpop, que são uma espécie de negação dessa tradição do final dos anos 60 e de início dos anos 70. Coisas até se calhar um bocadinho mais de uma Europa menos latina, e que contraria essa coisa do western spaghetti, que é latina e ao mesmo tempo americana, um americano a fingir. A ideia é começar como uma espécie de balada e acabar no duelo, como acontece nas músicas do western spaghetti, e aí fazer uso. E foi isso que me levou inicialmente a ir buscar essa estética, mesmo essa viagem entre a balada serena e depois acabar numa coisa tensa de duelo e pensar nos grandes planos do Sergio Leone e nos olhos, ou até alguma sujidade do Corbucci. A própria história da canção não tem que ver com o universo western spaghetti, embora seja uma canção de um episódio em Tondela, e muitas vezes eu finjo que Tondela é o farooeste onde eu cresci. E também tem referências a títulos de canções dos Blind Zero. Também não pode haver nada mais anti-Western Spaghetti do que canções dos Blind Zero, que foi a banda que tocou no meu baile de finalistas em 1998 e parte do episódio que essa canção de alguma forma relata centra-se nesse baile de finalistas.

E falas de Babel.
Ainda consagrado ao tema comum do disco, que é a ideia da passagem do tempo, a ideia da passagem do ano 2000, o ano de 1998 é o meu primeiro ano adulto, eu tive 18 anos em 1998, quase um ano inteiro. E, então, a ideia de que a idade adulta ia trazer esclarecimento ficou muito clara nesse ano que não era isso que ia acontecer. A idade adulta ia trazer-me mais confusão, ia fazer-me desaprender aquilo que eu achava em que podia confiar nos outros ou podia confiar na expressão dos outros. E nesse sentido, lá está. A minha Tondela, a terra natal, a terra que eu achava dominar, tornou-se também a minha Babel, o sítio, onde as linguagens divergem. 

O Chico da Ladra passou a viver através de uma canção, a tua, agora. Ele é um imortal da amizade.
Ah, sim. O Chico era mesmo o bastonário da ordem da amizade. E eu fiz o disco com essa canção. Acho que era necessário. A canção surgiu-me sem eu pensar que ia incluí-la num disco. Embora tenha surgido numa altura de retiro, enquanto estava a escrever algumas das canções que acabaram por aparecer aqui. Mas era uma canção que andava na minha cabeça desde há quatro anos, quando o Chico desapareceu. Não tinha uma presença abrasiva. Pelo contrário, era pacato, conseguia ser o rei da festa e conseguia ser um grande promotor de festas, uma figura da noite lisboeta, mas que durante o dia era o pacato João Francisco. Mas eu quis acabar o disco com esta canção porque, de alguma forma, se há um olhar desabonado em relação à sociedade, tive que fazer este contraponto de esperança, de encontrar num indivíduo só e não na sociedade a esperança. Por causa do Chico, eu quero ser melhor. É alguém que por causa de quem eu de repente me tornei melhor e vejo que isso aconteceu com todos os amigos dele. E eram muitos. Quando o Chico estava doente, quando ele adoeceu e até depois, quando quando partiu, eu vi uma onda de solidariedade em torno dos amigos e uma disponibilidade em torno de gente completamente diferente, porque eu achei que era o centro de vários grupos de amigos diferentes, entretanto amigos globais em torno dele também. Mas aquilo que ele gerou, com uma personalidade tão pacata, simples, direta, foi para mim muito comovente perceber que, de facto, eu sou melhor porque conheci aquela pessoa e não só eu como uma data de outras pessoas que são também são melhores e a amizade, aquilo que é o elo de ligação entre essas pessoas, também é melhor e é mais reforçado por alguém que já não está cá. E daí querer acabar [o disco] com essa ode a alguém que nos torna melhores, com a esperança de que é possível sermos melhores. Se não formos no global, pelo menos que sejamos no individual. 

Há aqui músicas que já pedem mesmo palco e até festivais, não é? Estou a pensar, por exemplo, no 'Era de Ouro'. 
Já fiz a experiência de tocar essa canção, embora tenham sido concertos em teatros, foram concertos um bocadinho mais conservadores. É claro que quando estou em palco, acabo por me marimbar para esse lado conservador. Eu acho que é uma canção que está a pedir um público em pé e também está a pedir aquilo que são guitarras acústicas conceptuais que estão nesta canção, que elas se eletrifiquem um bocadinho mais quando chegarem a palco. Acho que esta vai ser daquelas canções que eu vou ter de guardar um bocadinho mais para o fim do alinhamento porque me vou estragar seriamente. 

Vais ter de conseguir transpor esta exuberância do disco, com aquele coletivismo dos coros, para o palco, não é? 
Sempre que tiver possibilidade para andar com o coro, que muitas vezes me acompanha, vou querer tê-lo em palco. Nem sempre é fácil por questões logísticas e financeiras andar com tanta gente na estrada. Mas, havendo essa possibilidade, vou tentar. A banda que me acompanha regularmente já trata de muitas tarefas e conseguem muitas vezes suprir algumas das coisas que são feitas por mais pessoas em disco. Mas quando puder ter o maralhal todo em palco, vou fazer questão. 

Samuel Úria

Esta direita política de hoje está a ficar descentrada, está a perder o plano? 
Quando me assumi, eu assinei um manifesto de pessoas que não estavam sob a alçada do socialismo, mais ou menos isso, embora me reveja na social-democracia. Não é a do PSD, estou a falar da social-democracia, que tradicionalmente é uma ideologia de esquerda. Mas, de facto, há uns anos eu achava que era do centro e o centro está completamente a ficar mais isolado, até porque as pessoas que são do centro, de alguma forma, estão a querer embirrar com coisas que tradicionalmente eram do centro por uma questão de quase preservação identitária e partidária. Não sou antipartidário no sentido em que acho que os partidos não devem existir. Eu é que não sou capaz de ser partidário no sentido do religionário que está sob alçada de qualquer tipo de partido. Ou seja, eu quase que ideologicamente estou próximo de uma espécie de anarquismo com convicções, que é um bocado isso. Mas estou de facto muito desgostoso com uma direita populista que está inquinar uma esquerda mais centrista, que de repente está também a querer enjeitar, a tirar parte do centro a essa direita por ganho político também. 
É uma altura de convulsão política que eu acho que vai ser muito interessante para quem escrever livros de história daqui a uns anos, mas que para quem está a vivê-la, como um moderado como eu, está bastante preocupado com o rumo a que isto está chegar. 

Está a faltar moderação, não está? 
Está a faltar muita. A moderação é uma virtude - e uma virtude política. Porque de repente aquilo que é imoderado está a ecoar numa grande parte do eleitorado como uma virtude, porque é antissistema, porque estão a dizer aquilo que ainda não foi dito até agora. E o que ainda não foi dito até agora, tanto tem coisas boas, mas cabe lá tudo. E o que cabe está-se a revelar muito mau e oportunista. Está-se a revelar falseador de uma data de coisas e está, de alguma forma, a querer entronizar um pensamento que estava excluído, não pela sua pequenez ou pela sua pela falta de acesso a uma espécie de elite, mas por uma pequenez mesmo de ideias, de sentimentos, uma pequenez de solidariedade, de lisura política.