The Black Mamba pela rua dos funkeiros
Concerto no Coliseu dos Recreios foi de entrega total.
Nesta noite, no Coliseu de Lisboa, os Black Mamba deram primazia aos temas de “Last Night in Amsterdam”, o álbum inspirado em Amesterdão. Mostraram boa pedalada e navegaram pelos canais do funk e da soul com tranquilidade.
Dos Países Baixos para a Baixa, os Black Mamba foram uma autêntico maquinão instrumental do tempo, um turbo transatlântico que aplana mais nas memórias da América do Norte do que no Mar do Norte que banha as terras neerlandesas.
Agora, são já um septeto, com camadas cada vez mais recheadas, com coros mais aprumados e maiores variações instrumentais, sobretudo nos vários teclados. A banda parece ter pedido emprestado o guarda-roupa excêntrico e hippie aos Sly & The Family Stone. O vocalista e guitarrista Pedro Tatanka, com direito a uma plataforma central mais alta, só precisava de ser ele próprio para não destoar do resto da banda, com o seu chapéu redondo, os óculos escuros, calças de fazenda e um casaco de couro
O concerto arranca com ‘Love Is Dope’, numa soul muito instrumentalizada e evocativa de Curtis Mayfield. Nas canções subsequentes, as vibrações funk aumentam, a soul e o rock & roll embrulham-se, com Tatanka a aveludar com trabalho de tapeçaria elaborado a guitarra elétrica, com um solozinho que evitar abusar, em nome da prioridade à canção no seu todo.
‘Boys Don’t Cry’ é um dos postais de Amesterdão dos Black Mamba, com muitos pontos de exclamação e muita alegria, como se tivesse sido escrito no Red Light District. E ‘Fire’ também parece daquele bairro animado.
Ouve-se depois uma intromissão folk na flauta de Gustavo, “a sétima cor do arco-íris” dos Black Mamba, assim apresentou Tatanka o seu novo membro da banda. Há também momentos intensos e sombrios de cabaret em The Number One, que depois se transforma e se galvaniza para mais uma festança.
O maquinão instrumental dos Black Mamba também tem a opção do modo de deriva enquanto Tatanka prova a voz afinada nos falsetes. Há depois momentos mais teatrais, com chamadas telefónicas em inglês, e alguma algazarra instrumental, com ecos de Funkadeilic. Tatanka é o centro nevrálgico da coisa, ora cantor, ora guitarrista exímio, ora ator de comédia, ora coreógrafo. Foi uma coreografia que comandou com o público na zona de plateia do Coliseu, com os espectadores ora virados para a direita, ora para a esquerda.
Os Black Mamba mostraram-se muito bem ensaiados, diga-se de passagem, com transições oleadas entre as músicas que esvaziam intervalos. ‘Cracy Nando’ é um empurrão para a dança que fecha o set.
Após o gira-disquismo do DJ, que metralha sons como ‘Superstition’ de Stevie Wonder, ‘Sexy MF’ de Prince e algum hip hop da old school, os Black Mamba voltam de fatos brancos para o que Tatanka chama de “secção de êxitos” da banda, como ‘Red Dress’, ‘Believe’ ou a soul-pop orelhuda de ‘Wonder Why’.
Quando o primeiro encore terminou, ninguém acreditava que seria o último, porque faltava “aquela”. E “aquela” lá surgiu, a canção vencedora do Festival da Canção ‘Love Is on My Side’, cortejada pela programação de sons orquestrados e um trabalho refinado na guitarra de Tatanka que desafiou o público a estrelar a sala com as luzes de telemóveis no ar, “o isqueiro do século XXI”, como chamou.
Foram duas horas em que os Black Mamba deram tudo o que tinham em palco.
