Tudo a post(e)s para o Benfica - Barcelona. Que a sorte de 1961 se repita

Saldo dos duelos entre águias e blaugranes é mais equilibrado do que se pensa.

A propósito de mais um embate entre Benfica e FC Barcelona para a Liga dos Campeões, fazemos uma travessia costa a costa peninsular... pela história dos encontros entre as águias e os blaugranes. Os duelos entre Benfica e FC Barcelona têm sido escassos mas já valeram um troféu dos grandes, a Taça dos Campeões Europeus, e foi para os portugueses. Do Atlântico ao Mediterrâneo, do Mosteiro de Jerónimos à Sagrada Família, da Luz a Camp Nou, todos os encontros oficiais entre os dois gigantes ibéricos foram só para a maior das competições clubísticas: a Liga dos Campeões ou, antes, a Taça dos Campeões Europeus

Curiosamente, o único Eusebio que jogou estes embates não tem acento no nome, foi médio, espanhol e blaugrana. No global dos embates, contam-se oito golos marcados para o Barcelona e sete para o Benfica; três vitórias do Barça contra duas das águias. As coisas até começaram bem para o Benfas, jogando 13 contra 11 sem fazer batota. Coluna, Germano, José Águas, o poste direito e o poste esquerdo derrotaram o Barcelona na primeira partida entre os dois. Já contamos melhor a história a seguir. 

1960-61: SLB jogou com dois postes e não eram de basquete 
O poste esquerdo de uma das balizas do antigo Wankdorf Stadium, em Berna, devia fazer parte do Museu Cosme Damião, no Estádio da Luz, em Lisboa. O tal poste foi o amigo decisivo do Benfica frente ao favorito Barcelona. Na primeira parte, aos 31 minutos, o defesa catalão tentou bloquear um ataque do Benfica com uma cabeçada tão atabalhoada que a bola fez um arco ao guarda-redes Ramallets e encostou no tal poste esquerdo, tendo atravessado à tangente a linha da baliza. O poste esquerdo que valeu golo ao Benfica passou na segunda parte à posição de defesa... da sorte da equipa capitaneada por José Águas. Quando o defesa encarnado Germano imitou o cabeceamento tresloucado do rival no autogolo catalão, o chapéu suicida tuga traiu o guardião Costa Pereira. A bola parecia destinada ao fundo das redes mas o poste esquerdo atravessou-se na trajetória e impediu o golo do Barcelona. Quando a sorte do Benfica já parecia ostensiva, passou a absurda após um remate de fora de área de Kubala que embateu no poste direito e saltitou para o tal poste esquerdo amigo que voltou a ajudar a equipa portuguesa, encaminhando a bola para fora da baliza e a adornando para as mãos do incrédulo Costa Pereira. 
O voo da águia foi uma tangente vertiginosa junto à linha e dos postes da mesma baliza, com a vitória por margem mínima – 3-2 – e a primeira Taça dos Campões Europeus a ser ganha por um clube português. O 11 todo português do Benfica derrotaria uma equipa fortíssima com um trio de húngaros de primeira qualidade – Czibor, Kocsis e Kubala – e um dos melhores jogadores espanhóis de sempre, o nº10 Luis Suárez. O Benfica de José Águas, Coluna, José Augusto e Germano ainda não tinha entre eles um tal de Eusébio - mas já faltava pouco.
Se hoje há benfiquistas ateus, é porque não viveram a ajuda divina a 31 de maio de 1961. Naquela altura, a conversão adeptos do clube às religiões só pode ter sido total. 

1991-92: o apocalipse no Nou de José Carlos
O lateral direito benfiquista José Carlos teve o seu dia não no Nou Camp, demasiado vulnerável às estocadas de Stoichkov, o fenomenal avançado búlgaro do Barça. José Carlos tinha o nº2 na camisola e dois foram os golpes de Stoichkov, que parecia um leopardo a contornar um coala. Os dois estavam em diferentes escalas. A falhada interceção de José Carlos a um longo lançamento de Koeman torna-se uma assistência para Stoichkov, que aproveita a oferta e dispara a bola como uma bazuca para a baliza que nem a intervenção de Neno conseguiu evitar. 11 minutos depois, José Carlos deixa escapar Stoichkov para mais uma fuga das dele até à linha final e, com boa visão à distância, faz um passe para Bakero que, à entrada da grande área, desfere um remate fulminante que faz de Neno um mero figurante. O Benfica precisava de vencer esse jogo para se apurar para a final da Taça dos Campeões no Estádio do Wembley, em Londres. Mas nem o golo de César Brito para as águias impediu a derrota por 2-1 no Camp Nou. A equipa do Barcelona de então parecia o Poble Espanyol (uma espécie de Espanha dos Pequenitos, uma das atrações da cidade de Barcelona), com representantes das várias regiões de Espanha no onze blaugrana. O representante catalão era Guardiola que, sem sabermos, estava a aprender com o treinador neerlandês Johan Cruyff aquele zelo pelo controlo de bola – que aplicou enquanto treinador no século XXI com o tiki-taka.
Refira-se que os embates entre Benfica e Barcelona eram ainda muito equilibrados. Vivia-se ainda a era pré-Bosman, quando ainda havia o limite de três estrangeiros nos onzes.      

2005-06: postes reativam fantasma de 1961, mas Barça passa
Na primavera de 2006, Benfica e Barça reencontram-se nos quartos-de-final da Liga dos Campeões, em duelos novamente equilibrados, apesar do fosso qualitativo entre as equipas. Do lado do Barcelona, jogavam Ronaldinho Gaúcho, Deco, Eto’o, Henrik Larsson ou Van Bommel. Do lado do Benfica, jogavam Moretto, Beto e outros que já ninguém se lembra como o inconsequente extremo Laurent Robert ou o central Anderson. Moretto foi um causador de arritmias cardíacos aos benfiquistas nos jogos com o Barcelona, a oscilar entre o melhor – defesas elásticas, um penalti defendido – e o pior – passes desajeitados que iam parar aos avançados do Barça. Safou muitos golos iminentes na primeira mão na Luz e os postes voltaram a salvar o Benfica (seriam os mesmos postes do Wankdorf Stadium?). No onze encarnado, a estrela era há muito Simão Sabrosa, só que não teve arte e engenho para desfeitear Víctor Valdés em oportunidades flagrantes, quer na Luz, quer na segunda parte da segunda mão no Camp Nou, após uma assistência primorosa de Miccolli. Já Ronaldinho Gaúcho e Eto’o não perdoaram em frente a Moretto. O técnico neerlandês Frank Rijkaard sorriu no final mais do que o seu ex-companheiro da Laranja Mecânica, Ronald Koeman, técnico do Benfica e o herói da primeira Taça dos Campeões Europeus vencida pelo Barça na final do Wembley em 1992.

2012-13: tiki-taka na Luz, taco-a-taco no Camp Nou  
O treinador do Barça de então, o falecido Tito Vilanova, só tinha que ligar a máquina do tiki-taka de que tinha assumido o comando, meses depois da saída do seu antigo chefe técnico Guardiola. Quando chegou à Luz, a 2 de outubro de 2012, bastou-lhe colocar peças da consagrada família como Messi, Xavi, Busquets ou Pedro Rodríguez, que trocavam a bola como queriam e trocavam os olhos a quem os tentava seguir. O meiinho blaugrana instalou-se na Luz e provocou tanto conformismo quanto sono. Messi distribuía o jogo e esperava pacientemente para desequilibrar nos momentos certos. Foi o que fez aos minutos 6 e 55, entregando as bolas para os golos dos avançados Alexis Sánchez e Fàbregas, que formaram o resultado previsível de 0-2.
Parece ideia de louco, mas a 5 de dezembro o favorito do Barcelona – Benfica era a equipa portuguesa, por uma razão muito simples: o onze blaugrana estava radicalmente mudado e aparentemente à mercê, para poupar os melhores para combates futuros, porque o 1º lugar do grupo e a passagem aos oitavos-de-final estavam garantidos aos catalães. Mas o Benfica não podia dizer o mesmo e tinha que vencer para passar. Houve oportunidades flagrantes de parte a parte, a maior delas foi parar aos pés do benfiquista Rodrigo Moreno, que isolado na grande área, tinha duas opções: ou passava a bola ao adiantado colega da esquerda Nolito que teria a baliza escancarada, ou rematava ele próprio com um pouco de pontaria e com o guarda-redes em posição muito desvantajosa. Rodrigo seguiu a segunda opção, mas falhou a baliza. A má fama deste falhanço passou a persegui-lo. Se o Benfica tivesse ganho e passado à segunda fase, o falhanço de Rodrigo seria esquecido. O Benfica não foi além do 0-0.
Só para enquadrar, o plantel do Benfica tinha jogadores como Gaitán, Salvio, Cardozo, Aimar, Matic, Garay, Luisão ou Maxi Pereira. Foi neste ano de 2012-13 que o Benfica sofreu duplamente com o minuto 92, na final da Liga Europa e ainda o tal golo de Kelvin que ajoelhou Jorge Jesus e levou o Benfica a perder o campeonato.   

2021-22: segunda parte à Benfica na Luz
Nove anos depois, Benfica e Barça reencontram-se, com equipas mais fracas, sem os génios argentinos Messi e Gaitán, e num cenário humano depauperado pelo impacto da pandemia, com algumas bancadas vazias e adeptos de máscara. Busquets era um dos raríssimos resquícios daquela grande equipa do FC Barcelona. Do lado do Benfica, havia um monstro no ataque chamado Darwin Nuñez (um dos grandes responsáveis pelas alegrias atuais do Liverpool). Foi o avançado uruguaio que abriu o marcador na Luz para uma noite feliz do Benfica, com uma vitória esmagadora de 3-0 contra uns blaugrana à deriva, ilustrados pelo ar carregado do treinador barcelonista Ronald Koeman. Na primeira parte, os deuses da fortuna que protegeram o Benfica na final europeia de 1961, regressaram para manter a baliza de Vlachodimos inviolável, apesar do cerco frenético às redes benfiquistas por Pedri e companhia. Na segunda parte, o Benfica acordou como gigante europeu e fez do dia 29 de setembro de 2021 uma noite de pesadelo para o emblema catalão. Com a inspiração de João Mário a construir... o golo de Rafa Silva e outro de Darwin avolumaram a vitória. Em Barcelona, numa noite chuvosa, quando estava 0-0, o ponta-de-lança encarnado Seferovic tem um golo cantado ao minuto 92 que, com o guardião Marc ter Stegen ultrapassado e tanta rede de baliza à sua frente, consegue atirar a bola para os placards. O destino final da bola deixou os benfiquistas incrédulos, num falhanço mais embaraçoso do que o de Rodrigo em 2012 ou o de Simão Sabrosa em 2006… E, assim, o Benfica prolongou a seca de golos no Camp Nou, apesar da noite chuvosa.
Ainda assim, a campanha do Benfica na Liga dos Campeões em 2012-13 iria mais longe do que a do clube catalão, só terminando nos quartos-de-final, diante de um fortíssimo Liverpool.