Idosos pobres têm quase 30% mais probabilidade de não aceder a todos os medicamentos
Um estudo revela que as despesas com medicamentos estão a colocar idosos na pobreza. Quem o elaborou pede um "esforço conjunto" para dar mais e melhores respostas aos mais velhos.
Um estudo da Fundação La Caixa e da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), que vai ser apresentado publicamente esta quarta-feira, mostra que os idosos em situação de pobreza têm 30% mais probabilidade de não conseguirem aceder a todos os medicamentos de que necessitam.
Carolina Santos, uma das autoras da investigação, afirma que a idade não é determinante para aceder aos cuidados de saúde, ao contrário do rendimento: "Para os dados analisados, que foram de 2017, 2019 e 2023, idosos do escalão económico mais favorecido têm uma probabilidade só de 2% de não adquirir toda a medicação necessária. Mas, se formos para o escalão com maiores privações económicas, esta probabilidade dispara para 27%”.
Há dois anos, cerca de 14% dos idosos portugueses diziam não adquirir todos os medicamentos que necessitavam. Carolina Santos alerta que as despesas de saúde estão a colocar idosos na pobreza.
“São sobretudo os idosos que têm maior vulnerabilidade financeira e isto implica, por exemplo, face aos dados que analisámos, que idosos com 80 ou mais anos têm tantas despesas diretas em saúde face ao seu rendimento líquido que quase 6% deles são colocados em situação de pobreza ou risco de pobreza”, afirma a investigadora.
Em termos de contas públicas, os dados do estudo mostram que a entrada na reforma não significa um aumento com a despesa de saúde por parte do Estado, como sublinha Carolina Santos: “Retardar a idade da reforma contribui, pelo menos no curto prazo, para a maior sustentabilidade das finanças públicas, porque, a par de uma maior sustentabilidade do sistema de pensões, não se perspetiva aumentos da despesa pública em saúde.
Outra das conclusões do estudo mostra que a solidão entre os idosos continua a ser um flagelo em Portugal. A investigadora diz mesmo que a solidão “tem um impacto na saúde auto-reportada que se equipara a doenças como o cancro ou a doença pulmonar obstrutiva crónica”.
Carolina Santos pede um “esforço conjunto entre sistema de saúde e o sistema de proteção social” para dar mais e melhores respostas aos idosos no acesso a cuidados de saúde.
“É preciso garantir acesso a cuidados de saúde sem os idosos ficaram expostos a vulnerabilidades financeiras, mas também promover a sua participação no mercado de trabalho por mais tempo. É preciso também garantir que as habitações e as cidades estão adaptadas à sua mobilidade”, conclui a investigadora da Nova SBE.
Este estudo sobre o envelhecimento e o acesso a cuidados de saúde vai ser apresentado esta quarta-feira, às 10h, no edifício BPI All in One na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa.
