Morreu Maria Teresa Horta, a última das Três Marias
Poetisa e feminista tinha 87 anos. Escritora foi coautora do livro "Novas Cartas Portuguesas".
Morreu hoje a escritora e jornalista Maria Teresa Horta, de causas naturais, aos 87 anos – apurou a nossa rádio junto de fonte próxima da família.
A sua morte foi também confirmada pela sua editora Dom Quixote. "A Dom Quixote, sua editora, lamenta o desaparecimento de uma das personalidades mais notáveis e admiráveis do nosso tempo, reconhecida defensora dos direitos das mulheres e da liberdade, numa altura em que nem sempre era fácil assumi-lo, autora de uma obra que ficará para sempre na memória de várias gerações de leitores, e que ainda há bem pouco tempo foi eleita, pela BBC, uma das “100 mulheres mais influentes e inspiradoras de todo o mundo”.
Maria Teresa Horta foi uma opositora da ditadura do Antigo Regime e fez parte do movimento feminista Três Marias – a par de Maria Isabel Barreno e de Maria Velho da Costa – que assinou o livro “Novas Cartas Portuguesas”, em 1972. O livro, escrito durante o governo do ditador Marcelo Caetano, foi um levantamento das várias discriminações sociais em Portugal, incluindo a condição desvantajosa e oprimida da mulher.
Maria Teresa Horta foi detida por várias vezes pela PIDE (Polícia Internacional de Defesa do Estado). A escritora assumiu à época a sua condição de feminista, que era mal vista pelo Antigo Regime e por alguns sectores da sociedade portuguesa.
A escritora foi bastante enaltecida durante as comemorações dos 50 anos sobre a Revolução dos Cravos, do 25 de Abril de 1974. Antes da efeméride, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou Maria Teresa Horta com a Ordem da Liberdade.
Maria Teresa Horta era a última das Três Marias vivas. Maria Isabel Barreno morreu em 2016 e Maria Velho da Costa faleceu em 2020.
Em declarações à nossa rádio, a biógrafa de Maria Teresa Horta, Patrícia Reis, que assinou o livro "A Desobediente”, declara que “a Maria Teresa Horta deixa-nos um legado imenso, uma obra que convém revisitar e revisitar, não só na poesia como na ficção. Era uma mulher de grandes lutas, uma mulher que acreditava sobretudo na liberdade, que comemorou com enorme felicidade a democracia e que, de alguma forma, contribuiu para ela, porque fez muita resistência ao regime. Foi muito maltratada antes do 25 de Abril e depois do 25 de Abril porque não teve claramente o reconhecimento académico e da crítica que deveria ter tido. Não teve os prémios que deveria ter tido, são poucos os prémios que a Maria Teresa recebeu. Eu diria que hoje morre um dos grandes nomes da literatura portuguesa, mas também um dos grandes nomes da causa feminista portuguesa".
A luta contra a violência doméstica que afeta as mulheres foi uma das causas de Maria Teresa Horta, que nunca renunciou ao seu ativismo. Em 2012, recusou receber o Prémio D. Dinis pelo livro “As Luzes de Leonor” das mãos do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, por entender que o governante estava “determinado” a “destruir tudo aquilo que conquistámos com o 25 de Abril [de 1974] e as grandes vítimas têm sido até agora os trabalhadores, os assalariados, a juventude que ele manda emigrar calmamente, como se isso fosse natural”. Em 2012, vivia-se em Portugal o período de austeridade económica ordenado pela Troika e defendido por Pedro Passos Coelho.
