Márcia: "todos os meus álbuns são autobiográficos"
Sai hoje o novo álbum da cantautora, "Ana Márcia", com um conceito tripartido sobre quem foi e é: a miúda, o ser em procura do outro e a mãe.
Márcia volta ao aconchego da intimidade, onde as canções se confortam como se fossem suas filhas, no seu álbum mais confessional de todos “Ana Márcia”, que é lançado nesta sexta-feira.
Márcia bate o seu recorde pessoal de recordações pessoais, assumindo o nome próprio escondido e abrindo-nos o seu álbum de família no livrete do disco, com fotos suas em pequenina rechonchuda, com os irmãos e pais ou com os seus filhos.
“Ana Márcia” é um road movie auto-biográfico, uma circum-viagem que termina no ponto de partida, na infância do lar, mesmo que com outra idade. O tempo passou, os erros foram lições que se aprenderam. Nessa viagem pela estrada fora, Márcia dá boleia a convidados, como o sábio Sérgio Godinho e a amiga Catarina Salinas, e passa o volante para Jorge Palma para ‘Um Passo ao Lado’.
As voltas de “Ana Márcia” podem ser no planeta, no globo de casa, nas ruas perpendiculares da Avenida de Roma ou no universo de Márcia.
Márcia toca a 10 de fevereiro no Teatro Maria Matos, em Lisboa.
A imagem de capa é uma fotografia de ti em criança. Em que situação? Vejo ali uma flauta.
Ah, mas isso era a minha flauta. Quer dizer, era uma flauta do meu pai. Estava sempre ali. Ele não tocava, mas tinha aquela uma flauta de marfim lá exposta e foi o primeiro instrumento que eu toquei. Ninguém conseguia tocar nessa flauta, porque era muito grande. Ainda a tenho hoje em dia e eu aprendi a tocar naquela flauta. Eu conseguia tocar.
[A foto] é na minha casa de infância. Era o dia do meu sétimo aniversário. Eu devia estar muito impaciente, porque este ar de desespero fazia-me lembrar o meu filho quando queria muito uma coisa. Nós éramos parecidos em criança. Ele pequenito era muito parecido comigo em pequenita.
Eu não me recordo, mas eu imagino que isto seja o pré-festa, porque só estavam estas amigas que eram as minhas vizinhas e a minha irmã, que é a que está aqui à direita. A fotografia inteira mostra que a minha irmã é a que está ali ao meu lado. E eu devia estar impaciente para a festa.
Quem é que tirou a foto?
Foi o meu pai, com certeza. O meu pai é que tirava as fotografias todas, algumas com as cabeças cortadas, mas... Esta não está. Estava muito bem.
É na zona onde tu vives?
Esta casa de infância era ali na zona da Avenida de Roma [em Lisboa] e eu cresci ali, andei ali na Primária e frequentava aquela zona toda. E depois andei ali no Filipa [escola secundária D. Filipa de Lencastre, junto à Praça de Londres], fazia parte do volei do Filipa. Foi uma fase muito importante para mim. Essa zona faz parte da minha história.
“Ana Márcia” é um disco autobiográfico?
Na verdade, todos os meus discos são autobiográficos, mas este é declaradamente autobiográfico. Aliás, chama-se "Ana Márcia". Não é só “Márcia”, é “Ana Márcia”. Para a capa do disco, eu tinha muito claro que queria fazer a "Ana Márcia" em dourado. Depois, andei a trabalhar muito na fonte e acabei por desenhar eu esta "Ana Márcia". Tornámos isto uma marca tipográfica, mas é desenhado por mim. Ficou a minha assinatura e este dourado é inspirado no meu álbum de bebé, que era aquele almofadado branco pardo, aquele branco sujo. Eu sempre adorei aquele álbum, apesar de nunca ter gostado do bebé dourado. “Ah, isto é tão bimbo”. Eu achava um bocadinho confrangedor, quando era miúda, ver aquilo em dourado. E a minha primeira ideia para esta capa era ipsis verbis aquela capa [do álbum de fotos], com o “Ana Márcia” em dourado, com o bege... Mas depois fazer em almofadado era esquisito. A ideia do disco era toda à volta do álbum, como álbum de memórias, um álbum de fotografias. Por isso, depois optámos por fazer a fotografia a corte.
Assim faz contraste e permite que sobressaia o título.
Faz, exato. É inspirado no álbum de bebé. É [como] aquele lustro no quarto dos teus pais, que é assim um bocadinho feio, ou aquele cortinado cor-de-rosa, com o frufru. E às vezes resolves assumir que aquilo faz parte também da tua vida. Aquele álbum faz parte da minha vida, o nome Ana Márcia, que eu sempre tive, também. Ana Márcia é o nome completo e tudo isso faz parte. É um bocado uma analogia ao que está lá dentro, porque todas as canções falam de [outras] coisas também, algumas que não são as mais agradáveis, mas que fizeram parte. Foi o que fez a Ana Márcia crescer, ela está dividida em três capítulos. O primeiro mostra de onde é que vem. O segundo é o encontro e o desencontro. E o terceiro é a jovem adulta que se torna mãe e que depois retorna à infância. A nossa vida é sempre esta, circula muito.
Essas memórias menos agradáveis que tu falaste estão mais centradas na segunda parte do disco, na idade adolescência? Parece que falas de amores perdidos.
Não é só amores perdidos, na verdade. O primeiro amor perdido da minha vida pode-se considerar a minha mãe, porque ela saiu de casa quando eu era adolescente. Por isso, o ‘Quem Quer Dizer Adeus’ dedica-se quase a todos os amores que partiram deliberadamente da minha vida. Quem quer dizer adeus, que o diga de uma vez só, não tenha dó. É uma canção que eu já escrevi há mais de 15 anos e nunca a editei, porque a achava um bocadinho dura. Mas ela faz parte da história, ao fim ou ao cabo é uma história bem sucedida. Passas por aquela sensação de perda, de abandono. Mas [a sensação] transforma-se e acaba por apaziguar tudo através do crescimento, ou da esperança, ou mesmo da própria relação com os pais. Sempre tive uma necessidade de diálogo, tanto com o meu pai como com a minha mãe, apesar de serem pessoas completamente diferentes e em relações diferentes, de harmonia e de reconsideração. Ou seja, cada ano em que vais crescendo, vais reconsiderando o que é que achaste naquela altura e vais compreendendo ou não as pessoas que fizeram parte desse passado.
O teu pai é a figura mais forte na tua vida?
Foi [mais] presente, foi a pessoa que ficou connosco.
Foi a sua morte que te empurrou para este disco mais autobiográfico?
Não, a morte do meu pai talvez me tenha empurrado para o livro que eu escrevi em 2020 [“As Estradas São para Ir”]. O meu pai faleceu em 2019 e deliberadamente escrevi o livro a pensar muito nele. Mas antes de fechar o livro, reli-o e reparei que tinha poucas páginas dedicadas à minha mãe. E saiu-me um poema num dia que escrevi, ainda bem que escrevi, porque inesperadamente - o meu pai era quase 20 anos mais velho que a minha mãe - a minha mãe faleceu apenas dois anos depois do meu pai. Não resistiu muito. Não lhe sobreviveu muito e foi tão inesperado que foi uma coisa mais complicada para mim.
Quem é a ‘Maria Jorge’, da segunda canção? É uma colega de carteira? É uma amiga?
Não, não. Maria Jorge era o que me chamavam quando eu era miúda. Como o meu irmão mais velho se chamava Jorge e eu era maria rapaz, o meu pai chamava-me Maria Georgina. Maria Jorge, Maria Georgina. Pronto, então é a história da Maria Jorge, que pertence ao primeiro capítulo que fala de onde é que eu venho. Tu vês aqui a fotografia de família, não é? A família completa eram cinco [Márcia aponta para uma das páginas do livrete do disco]. Éramos cinco e a família completa foi-se alterando e foi-se perdendo. A seguir tens o meu irmão comigo em pequenina [apontando para a foto redonda das páginas seguintes] e é uma canção escrita totalmente para ele, uma canção dedicada a ele, mas curiosamente foi editada pela Ana Bacalhau em 2017. Fui buscar as canções que eu achava que contavam a história da proveniência da Ana Márcia. Já há muitos, muitos anos que eu percebi que o meu caminho é escrever autobiograficamente, porque tu também empatizas com problemas teus, com coisas que os outros escrevem.
Pode dizer-se que a primeira parte do disco é a tua infância e a segunda parte sobre a tua adolescência?
Apesar do disco estar tripartido, não está ordenado. A primeira parte não é a infância total, é sobre a miúda. E é sobre a miúda nesta fase da minha vida que deve ter durado, sei lá, até eu sair de casa. Eu tentei aqui explicar ou mostrar um bocado da solidão porque é aquela solidão que se tornou artística. Eu passava muito tempo sozinha e por isso é que fazia canções e fazia pinturas e desenhos. Mas este é o universo. O primeiro capítulo dá-te um mote para o resto. E depois o segundo não é propriamente adolescência, é quando entra o outro. Quando tu procuras o contacto ou quando tu vais tentar colmatar aquela falta que existe no 'Quem Quer Dizer Adeus'.
O ‘Quem Quiser Dizer Adeus’ parece ser uma canção mais dorida?
‘Quem Quer Dizer Adeus’ é o mote para o segundo capítulo, que é o encontro com o outro, a perda do outro, o poder do outro ao deixar-te. E esta música é muito sobre isso. “Dobra a voz da indiferença”. É sobre isso e depois termina com o ‘Às Vezes O Amor’ do Sérgio Godinho. Faz parte dessa segunda fase. É a parte bonita do encontro, do encontro amoroso, que é a pessoa que é arrebatada pelo amor. Quando o amor entra de repente “pela porta da frente e fica a porta escancarada”. É sobre essa fragilidade e sobre essa abdicação de poder.
Já tinhas feito há uns anos uma versão dessa música. Fazes questão de cantar a versão quase toda. O Sérgio Godinho só dá umas pequenas achegas.
Ele é convidado, mas eu disse-lhe: "Sérgio, é-te feito um convite, mas é cretino". É só para vires dar o teu aval. Ele riu-se e veio.
Antes, chamas uma espécie de “amiga solidária”, a Catarina Salinas (dos Best Youth), para o tema ‘Quem Cá Está’.
Ah, a Kate. Ah, Eu adoro a voz da Kate. A Catarina foi chamada para fazer aquela parte da juventude em que tu vais para a discoteca e tens sempre uma amiga que é o teu espelho. E elas ali falam uma para a outra. Se reparares, é uma canção também sobre o maltrato.
Eu percebi. Senti que havia qualquer coisa de agressão, de uma chapada.
É. E também é muito antiga esta canção. Eu fiz este alinhamento desta forma e quis terminar com a beleza, a canção do Sérgio é a mais leve. Mas se tu fores ver, tens a questão do abandono no ‘Quem Quer Dizer Adeus’, passas pela zona da adolescência, da juventude, que é a da jovem em ‘Quem Cá Está’. Elas revêm-se uma na outra, são o espelho uma da outra. Eu sempre imaginei este vídeo, é uma história para mim. E uma diz à outra: “vamos estar preocupadas com a única pessoa que não está cá? Estão cá os outros, quem não está não está". Sempre achei essa música muito dura. E por isso nunca a tinha editado. Agora já estou pronta.
Não é habitual ouvir-te numa sequência de músicas mais amargas, mais duras.
São duras. O ‘Ainda Bem’ é uma das minhas favoritas do disco. Eu sento-me ao piano e escrevo aquela canção. É impressionante como é que ainda saem canções com esta temática.
A música do Sérgio Godinho, ‘Às Vezes O Amor’ é uma lição de sabedoria?
É um percurso. É o que aprendeste.
Mas há ali quase uma conclusão, não é?
Sim, há, porque a história deu certo. Dali, ela casa-se, ela tem filhos, a esperança continua e revisita a infância através dos filhos. Eu acho que isso acontece sempre quando se é pai, mãe. Todos os amigos com quem eu falo e tudo o que eu leio sobre isso. A mulher quando é mãe, ou o homem quando é pai, recorda a sua infância de uma forma muito forte e muito involuntária. Aquele filme, que eu adorei ver, “Ainda Estou Aqui”, do Walter Sales, que recomendo a toda a gente pela temática que é, pela ditadura militar, mas o ambiente é uma das coisas mais bem captadas nesse filme. E uma das coisas com que eu me identifiquei é que os anos 80 em Portugal eram exatamente assim. Toda a gente fumava dentro de casa, mas ninguém tinha cuidado de não fumar para cima de outros. E eu lembro-me que eu e os meus irmãos íamos no carro todo cheio de fumo.
E sem cinto de segurança.
E sem cinto de segurança. A ausência de cinto de segurança é normal, mas o cigarro nas consultas de pediatria era uma coisa que existia. Eu estou a dar este exemplo porque eu acho que acontece muito isto quando tu és pai ou mãe. Tu viajas involuntariamente ao teu passado. Eu lembro-te, espera aí, eu estou a proteger os outros, mas a mim nunca ninguém me protegeu. Eu tenho uma relação muito boa com os meus filhos de diálogo. Eu adoro conversar com eles. Era uma das coisas que eu tinha como objetivo antes de ser mãe. Até aos cinco anos, eu queria ir buscá-la cedo e estar com ela e conversar com ela. E ela sempre foi a minha prioridade. Porque é que eu tinha esta 'panca'? Porque eu achava que até aos cinco anos ela tinha que desenvolver a autoestima e que tinha de ser ouvida. Eu não me lembro de ter sido muito ouvida, nem os meus amigos. Mas isso teve efeitos para toda a gente, determinados efeitos que eu não sei o que acham, mas provavelmente o meu foi querer fazer-me ouvir através da canção e da voz cantada.
E essas similitudes que tu encontras, nas algumas características dos teus filhos fazem-te mais facilmente viajar à tua infância?
Sim, neste disco eu brinquei um bocadinho com isso, porque essa é a parte luminosa da minha vida. É a parte em que era o meu sonho. Muita gente me pergunta: “sempre sonhaste ser cantora?” Pá, não, eu sonhei em ser mãe. Por isso a Ana Márcia teve sucesso. A Ana Márcia teve sucesso, tornou-se mãe. Essa era o desejo da vida dela. “Então, qual foi a melhor coisa que te aconteceu?” Respondo que foi quando eu conheci o meu marido, porque é a verdade. O meu sonho era encontrar e apaixonar-me pela pessoa certa. Com os erros de caminho que existem, eu sinto que cheguei lá, que aquilo era o objetivo. Era ter uma vida feliz. As pessoas são muito obcecadas com o trabalho. É como se a vida da sociedade dissesse que o trabalho é o que justifica tudo. Para mim não é. Não é mesmo.
Terminas com um tema em que canta o Jorge Palma: ‘Um Passo ao Lado’.
Com uma canção que eu escrevi para ele e com uma enorme lata, consegui.
A música tem também a palavra “Estrada”, que ele também canta no seu tema ‘A Gente Vai Continuar’.
É uma palavra que eu gosto muito. Eu também tenho a “estrada” no livro “As Estradas São Também para Ir”. Eu escrevi esta canção para o Jorge, "o Jorge tem de cantar isto”. E ele cantou. Oh pá, quando ele chegou ao estúdio e pôs-se a cantar, eu e o Felipe [C. Monteiro, multi-instrumentista], que somos os dois produtores, ansiámos tanto aquele momento, ouvíamos tanto eu a tentar fazer a voz no tom do Jorge... Quando ele começa a cantar, os dois chorámos: "não acredito nisto". A voz dele é arrebatadora. O homem canta alto, tem um vozeirão e está a cantar melhor que nunca. Aquilo é fortíssimo, maravilhoso. E eu tenho uma admiração enorme pelo Jorge. É uma canção tão palmiana, é tão ele, que eu queria-o. Ele veio cantar ao meu disco. Depois eu só tive de fazer lá uns miaus atrás para justificar.
