Mais satisfeitos com médicos de família, 30% dos utentes esperam acima de dois meses por consulta

Participantes em estudo da DECO PROteste dão nota 8 aos médicos de família numa escala da 0 a 10, mas os centros de saúde enquanto recurso conseguem apenas um 6,4.

A satisfação dos portugueses com os médicos de família aumentou ao longo dos últimos cinco anos, mas os utentes esperam cada vez mais para conseguir uma consulta não urgente. 

Um estudo da DECO PROteste divulgado esta terça-feira mostra que, em mais de metade dos casos, o tempo de espera ultrapassa um mês e, em 30% das situações, chega a ser superior a dois meses. 

São indicadores que pioraram “e bem” desde 2019, nota Nuno Figueiredo, o porta-voz da DECO para questões de Saúde. 

“Há cinco anos, só 31% das consultas excedia um mês. Agora são 51% das consultas que excedem um mês, mas pior é que três em cada dez ultrapassam os dois meses, portanto, a tendência é crescente”, descreve, adiantando que tal acontece, “do ponto de vista da DECO PROteste e também do resultado, obviamente, deste estudo, por uma extrema necessidade de reforço de recursos humanos”. 

Apesar deste aumento nos tempos de espera, os portugueses gostam dos médicos de família e da relação que têm com estes. Espelho disso é a nota 8 que dão a estes profissionais numa escala de 0 a 10 valores, um contraste com os 6,6 de 2019.

A explicação está na "ligação que os médicos estabelecem com o doente, na facilidade que têm de esclarecer as dúvidas e de os ajudar a ultrapassar os problemas” que levaram os utentes a procurar auxílio médico. Estes são fatores, adianta Nuno Figueiredo, que “fazem melhorar bastante tanto a perceção que têm os utentes para com os médicos de família, como para fazer com que as pessoas frequentem mais os centros de saúde, que é o previsto”. 

Nesta fotografia, quem acaba por ficar pior são os funcionários e serviços administrativos, que receberam uma avaliação de 6,2 em 10 e “estão muito longe de reunir o consenso quando a questão é colocada ao nível de satisfação”.  

E “não é pela questão da falta de humanismo, da relação humana. É porque os serviços administrativos são aqueles que têm de dizer ao doente que a sua consulta vai demorar dois meses até chegar. O doente não quer ouvir isto, mas eles são o porta-voz dessa mensagem”, justifica.

"Sabem o que fazem", mas "são poucos"

Para a DECO, a resposta é apostar em mais recursos humanos de forma que os centros de saúde possam receber utentes “fora de horas”, algo que ajudaria a combater outra realidade detetada por este estudo: 64% dos utentes que procuravam urgências foram diretamente aos hospitais. 

Entre estes, 46% fizeram-no porque o centro de saúde em questão não tinha consulta de urgência, 30% por estar fechado e 24% por funcionar num horário muito limitado. 

“Se houvesse mais profissionais, seria suficiente para ajudar a resolver muitos dos problemas que atualmente se passam porque a questão não é tanto por meios técnicos, é mais por meios humanos. Os meios humanos que nós temos e estamos a falar em enfermeiros, médicos e assistentes, têm conhecimento. Eles sabem o que fazem, são pessoas bem formadas. O problema é que são poucos”, adianta Nuno Figueiredo. 

A falta de profissionais de saúde traduz-se também numa incidência de 16% no número de inquiridos que, à data deste exercício - feito entre junho e julho de 2024 com mais de seis mil pessoas - não tinham sequer médico de família. 

O estudo avaliou também os cuidados de enfermagem, que obtiveram nota de 7,4 em 10, ao passo que os centros de saúde em geral conseguiram um 6,4. 

Entre os participantes no inquérito, 87% referiram que têm um centro de saúde a menos de dez quilómetros de casa, permitindo uma “medicina de proximidade” e uma “primeira linha de apoio aos cidadãos”.

A nível territorial, os agrupamentos de centros de saúde do Grande Porto V - Porto Ocidental, Cávado I - Braga e Matosinhos têm o nível de satisfação mais elevado. No extremo oposto da avaliação estão os agrupamentos da Lezíria (Santarém e região), Arrábida (Setúbal e região), Arco Ribeirinho (Alcochete, Barreiro, Moita e Montijo), Guarda, Sintra, Baixo Alentejo, Alto Trás-os-Montes I – Nordeste e Pinhal Litoral (Leiria e região).