Gracie Abrams levou Lisboa para o quarto no maior concerto em nome próprio
Gracie Abrams trouxe a 'The Secret of Us' até ao Meo Arena. Mas quem ali parasse por engano podia ter achado que estava a entrar na casa da artista.
Gracie Abrams nunca tinha atuado em nome próprio para uma plateia tão grande. Lisboa também era território por descobrir. Não parece que isso a tenha intimidado. A voz manteve-se no sussurro habitual, na companhia da banda e da guitarra. Talvez o treino de verão em estádios ao longo da Eras Tour, como cantora de abertura de Taylor Swift, tenha ajudado.
Gracie Abrams começa como se por detrás de uma grade, em segundo plano, com 'Felt Good About You'. Mas não se esconde por muito tempo. Quando os primeiros acordes de 'Risk' são tocados, a plateia canta a primeira estrofe antes de tempo e a artista ri. Por esta altura, Abrams já está na beira do palco num tom mais enérgico, a ziguezaguear de uma ponta à outra.
As três primeiras canções da terceira paragem da tour seguem a ordem do início do último álbum. Mas este espetáculo, apesar de homónimo, não é só sobre o 'The Secret of Us', e é pela quarta cantiga que recuamos no tempo. Gracie volta aos '21', de 'Minor' (2020) o primeiro EP. Este é o momento em que fala à plateia pela primeira vez para confirmar que Lisboa "é o maior concerto que já fez em nome próprio". Agradece a presença do público "nos tempos difíceis que se vivem", mas pede que se deixem levar durante as próximas duas horas e "se distraiam da vida". E os fãs obedecem. Assim se faz grande parte do concerto, no palco principal, entre cantigas sobre amores e desamores.
Entre o sobe e desce de escadas o primeiro álbum, 'Good Riddance' (2022) aparece pela primeira vez com "Where Do We Go Now?". Abrams sabe qual é o caminho que quer seguir. "Mess It Up" (2021) faz com que a plateia dê um passinho de dança que se acalma quando admira 'Rockland', em que só uma luz ilumina Gracie Abrams e a sua guitarrista Elle Pucket.
Há uma certa candência e equilibrio entre as músicas agitadas e os acústicos que faz com que nunca se sinta uma grande quebra. Também o cenário ajuda. As projeções foram uma constante, mas de formas diferentes. Por vezes apostavam na artista e nas cores, intercaladas por paisagens. Como se fosse necessário efeitos visuais. Passamos por 'Camden', num sussuro. Mas o cenário não tarda a levar-nos até ao metro. Entre confissões e danças, é assim que em "Tough Love" deixa a banda para trás e parte para o segundo palco, que até ao momento estava coberto.
Um convite para ir ao quarto
A cama e as mesinhas de cabeceira com livros e vinis recriam o quarto onde compôs "grande parte das suas canções". Para Lisboa reservou 'Amelie', um dos primeiros lançamentos, enferrujada, como a própria cantora admitiu enquanto afinava a guitarra. Deu "pregos" entre acordes e esqueceu-se de parte das letras, mas talvez esse conforto - ou falta dele - tenha tornado esse momento único. Canta mais duas músicas e interage com o público: oferece uma palheta a uma fã que faltou a um teste e dá os parabéns a outra. Chovem pulseira arremessadas da plateia.
Em mais de duas horas, entre festejos e lágrimas, não houve tempo para mudanças de roupa ou para demoras. Segue uma última corrida até à banda. A voz de Taylor Swift faz uma visita à sala para um dueto em 'Us' e deixa libertar-se com 'Free Now'. É no palco principal e num tom alegre que a viagem termina, com 'Close to You' e um agradecimento por uma noite que "parece ter saído de um sonho".
Antes de chegar a vez de Gracie, também Dora Jar se estreou por Portugal. Lançada há três anos, fez o espetáculo só com companhia da banda, sem luzes nem qualquer tipo de projeções que a ajudassem. Também não precisou delas. Entrou em palco coberta por um lenço. Correu. Representou. Fez a espargata. Dora Jar divertiu quem a via.
Tinha o papel de "aquecer a plateia para Gracie", mas talvez tenha feito muito mais do que isso ao longo de seis temas que viveram entre o teatro e a voz.
As músicas ao vivo ganham uma nova forma: enquanto as gravações têm um ritmo composto, aqui apostam na simplicidade do acústico e percorrem os meandros da voz de Dora Jar. Sem tampa.
