Nena brinda ao agora no novo álbum
Entrevista à cantora e compositora que edita hoje o segundo álbum de originais.
Nena edita hoje (16 de maio) "Um Brinde Ao Agora", o segundo álbum de originais e o sucessor de "Ao Fundo da Rua", o disco de estreia que lançou em 2022.
O novo disco chega com 14 faixas, entre as quais 'Temos Pena!', 'No Próximo Ano', ‘Telefone Estragado’, 'À Espera do Fim' (com Luís Trigacheiro) ou 'Lembras-te de Mim' (com Carolina de Deus).
Com quatro anos de carreira, Nena tem agora dois discos editados, estando este último mais virado para o pop rock, um caminho auspicioso para fazer.
Depois de ter atuado no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, e na Super Bock Arena, no Porto, Nena estreia-se em nome próprio no lisboeta Sagres Campo Pequeno, a 4 de outubro, somando mais uma sala ampla à estrada que está a fazer.
A cantora também continua em digressão, ao lado de Joana Almeirante, com o projeto "2 Pares de Botas", estando o palco do Coliseu do Porto reservado para a dupla no dia 22 de janeiro de 2026.
Recentemente, a cantora e compositora estreou-se como mentora do programa The Voice Kids, da RTP.
Quero começar pelo título do álbum. Porquê "Um Brinde Ao Agora"?
Demorei algum tempo a chegar a este título. Já tinha sido um pouco difícil [encontrar um título] para o disco anterior. O que costumo fazer é reunir todas as canções para depois tentar perceber quais são os pontos que têm em comum. O título deste álbum, "Um Brinde Ao Agora", reflete a jornada dos 20 aos 30 que estou a fazer. Tenho 28, portanto estou mais ou menos no meio. (risos). Na verdade já estou a chegar aos 30. Acho que o título reflete a forma como estou a tentar abraçar o amor próprio e a leveza de viver no presente. É uma mensagem para mim e para os outros sobre a importância de brindarmos ao momento presente, independentemente do caminho para o qual a vida nos leva. Independentemente das coisas coisas e das menos boas. Encontrei esse ponto em comum entre as canções. Até nas canções mais tristes tento sempre ver um lado positivo.
Isso revela maturidade. Há muita gente que demora mais tempo a chegar a essa conclusão. A perceber a importância de viver o agora, de meter o foco no presente. A música ajuda-te nesse trabalho de introspeção?
Sem dúvida alguma. Este trabalho reúne as experiências que vivi nestes últimos três, quatro anos. Tento sempre compreender o que observo à minha volta. Procuro compreender e transformar essas vivências em canções. É a minha forma de interpretar tudo o que se passa à minha volta. Não só comigo mas também com os outros.
Quais são as principais diferenças entre este disco e o anterior?
Não acho que o álbum anterior fosse mais honesto, mas sinto que arrisquei mais neste. Acho que me pus um pouco mais cá fora. E creio que compus canções sem me levar tanto a sério. Um exemplo disso é a canção Os Croquetes Acabam que faz parte do disco. Quero explorar a minha obra como eu quiser, sem estar muito preocupada com o feedback. Foi o que senti quando compus este álbum. Senti que podia explorar o que quisesse sem ter medo de meter cá fora as coisas que fazem sentido para mim.
E esse medo vinha de onde? O que é que, na tua opinião, te prendia?
Eu acho que não tinha propriamente amarras. Acho que simplesmente faz parte do processo. Vou descobrindo o que é que quero pôr cá fora, o que é quero mostrar do meu universo mais privado. Faz parte da minha descoberta como artista. É mais sobre aquilo que faz sentido para mim partilhar num momento específico da minha vida. Neste disco vão poder encontrar muitas histórias que falam sobre mim mas também coisas que fui ouvindo dos meus amigos. Coisas sobre esta transição estranha dos 20 aos 30.
Já tens vontade de meter um pé no rock há algum tempo, não tens?
Acho que foi a altura certa para experimentar. Não devemos ficar presos dentro de uma caixinha ou prisioneiros de um estilo musical. Gosto de pop, de pop rock, de country. Este disco acaba por integrar quem eu sou musicalmente, com todas estas facetas.
O João Só, que te impulsionou a seguir a carreira de cantora e compositora, continua a ser um companheiro criativo, certo?
Sem dúvida alguma. O João é um dos produtores deste álbum. São três produtores, o João Só, o João André e o Feodor Bivol que também é o meu diretor musical. O João faz parte do meu caminho, claro, mas também tem sido bom conhecer muitas outras pessoas talentosas nesta indústria. Honestamente sinto que estou a trabalhar com colegas mas também com amigos. É a magia de poder fazer música com as pessoas de quem gostamos e chegar a um resultado do qual nos orgulhamos.
Parece haver quase um espírito comunitário entre vocês. O que é que aprendem uns com os outros?
Tanta coisa. Por exemplo, na primeira sessão de estúdio que tive com o João André, que é um dos produtores, estive a falar das minhas influências musicais. Ele quis simplesmente ouvir as músicas que eu ouvia. A primeira sessão foi só para falarmos de música. Adorei esta abordagem. Antes de tudo o resto partilhámos as nossas influências. Eu partilhei as canções que ando a ouvir neste momento, canções da Gracie Abrams, Olivia Rodrigo, Taylor Swift, etc, e o João partilhou influências mais antigas. Acabámos por encontrar um meio termo muito engraçado. Eu ouvi as dele e ele ouviu as minhas. Acho importante ouvirmos as pessoas que chegaram cá antes de nós. É importante aprendermos com elas.
Vamos agora falar das canções. Quando apresentaste o exclamativo single 'Temos Pena!' ficou no ar a ideia de ponto de viragem e da celebração da liberdade de viver sem as amarras das opiniões alheias. Porque é que decidiste lançar esta canção com esta espécie de statement?
A parte de ser um single "exclamativo" é realmente muito importante. (risos) Queria que fosse uma espécie de manifesto. É uma canção que, a nível sonoro, mostra um lado que eu queria ter trazido ao de cima há já algum tempo. É uma canção mais groovy com umas pontadas de rock e pop. Também tenho a mania de apontar no meu dictafone as expressões que vou ouvindo no dia a dia. Gosto de criar histórias a partir dessas expressões. O 'Temos Pena!' nasceu assim. Quis escrever sobre o ato de relativizar as opiniões alheias e de brindar aos momentos que estou a viver. A quem eu quero ser. Não podia estar mais orgulhosa desta canção. É um tema muito divertido para cantar nos concertos. Os fãs vibram, cantam e gritam "temos pena!". Nada me deixa mais feliz do que poder testemunhar isso.
O single 'No Próximo Ano' é uma espécie de lista de resoluções transformada em canção, certo?
As pessoas que ouvem a canção acham que é um tema sobre o fim de uma relação mas na verdade é sobre o plano de não ter plano nenhum. Escrevi o tema no dia 31 de dezembro e acabou por ser essa tal lista de resoluções. Foi uma canção boa de escrever. Sinto que quando a escrevi me saiu um peso de cima. Se pudesse, teria lançado o tema no dia em que o escrevi mas claro que não foi possível. (risos)
Também é um tema sobre o exercício de saber aceitar e de ir fluindo com aquilo que nos acontece...
Isso é muito importante. Seja aceitar de uma forma alegre ou numa perspetiva de aprendizagem, é importante reconhecermos a beleza das imperfeições. Neste caso falo do meu processo de transformação pessoal. E espero que as pessoas que oiçam o álbum sintam o mesmo.
Para a canção 'À Espera do Fim' convidaste o Luís Trigacheiro. Como é que esta colaboração aconteceu?
Sou fã do Luís há muito tempo. Quando ele participou no The Voice [e ganhou] votei nele. Acho que é uma das pessoas mais talentosas que temos em Portugal. Ele foi assistir a um concerto do João Só no qual eu participei e, pelos vistos, gostou da minha atuação, ao ponto de me mandar uma mensagem. Acabei por lhe mostrar uma canção que eu e o João [Só] tínhamos guardada na gaveta. E ele gostou. Gostou muito da canção. É um tema que fala sobre a emigração. E achei que fazia muito sentido. Ele é do campo, eu sou da cidade. Ambos temos laços com pessoas que vivem fora do país. Como acontece com a maioria dos portugueses, acabamos por nos relacionar com o sentimento de estar à espera do reencontro com alguém que vive longe. O Luís também se conectou muito com a canção. Não podia estar mais feliz. Também tenho família alentejana. A minha mãe e os meus avós não são de Beja, como o Luís, mas são de Évora. Ter uma canção no disco com a voz dele simboliza muito para mim.
E que outras canções do álbum destacas?
Há uma, da qual gosto muito, que se chama 'O Pior Inimigo Sou Eu'. Acho que as pessoas vão reconhecer que nessa canção partilho um pouco da minha vida. Estava a precisar muito de escrevê-la. A canção fala dos momentos em que sinto que sou mesmo a minha pior inimiga. Acho que todos nós nos relacionamos um pouco com esse sentimento. Falo das vozes inimigas que criamos nas nossas cabeças. Também há vozes do lado de fora, claro. Nem toda a gente tem de gostar do nosso trabalho. Isso é normal. Mas o importante é estarmos bem connosco. Temos de saber dialogar com as vozes internas.
Nem sempre é fácil chegar a esse lugar de diálogo...
É um processo. E estamos continuamente em processo de aprendizagem. Até ao fim da vida.
E podes ir registando esse processo, os avanços ou recuos nas tuas canções...
Sem dúvida. Não há nada mais bonito. As canções ficam. Mesmo as canções de artistas que já não estão cá. Ficam para sempre. É muito bonito podermos testemunhar isso.
