Benfica - Sporting: quando a Segunda Circular é a via rápida para o Marquês
O Dérbi Eterno volta a ser o epicentro da decisão do campeonato. Façamos um balanço histórico dos grandes embates águias e leões na liga principal.
A história do Dérbi Eterno do futebol é já muito longa em Portugal, mas raramente um duelo entre Sporting e Benfica tem tido este caráter tão decisivo e imprevisto como o que se espera no Estádio da Luz neste sábado, com leões e águias empatados pontualmente e em que um deles pode celebrar já o título de campeão na penúltima jornada. O palco à volta da rotunda do Marquês de Pombal está praticamente montado, pronto para ser coberto de verde ou de vermelho.
Tem sido um dérbi do catano e, recentemente, do Catamo, o herói decisivo dos últimos dois jogos do campeonato, para alegria da massa leonina. A supremacia recente do Sporting é não só futebolística, como até desportiva, no âmbito masculino, superiorizando-se ao rival não só no futsal e andebol (os casos de um desequilíbrio já caricatural e até penoso), como no hóquei em patins e mesmo, este ano, numa das últimas bolhas de glória que restavam ao Benfica, o voleibol.
No futebol, a presente década também tem sorrido mais ao Sporting, galvanizado há quase dois anos por uma fera, Gyökeres, que o vergado Benfica não tem conseguido domar. Apesar dos dados estatísticos atuais e das probabilidades favorecerem o Sporting, que tem ainda a estrelinha dos últimos minutos que costumam ser fatais para o Benfica ano após ano, o balanço histórico é bem mais equilibrado. Há 118 anos que Sporting e Benfica jogam entre si, há quase 90 anos que o fazem no campeonato.
Em tantos dérbis no campeonato nacional, houve vinte que decidiram o título. Vamos lembrar em baixo nove deles e fazemos ainda batota para acrescentar um nada decisivo mas que se tornou memorável, épico para leões, embaraçoso para as águias: o 7-1 de Alvalade, na época 1986-87.
Contam-se nesta lista de dez jogos pokers dos avançados leoninos Peyroteo, Lourenço e Manuel Fernandes, mas também o tal hat-trick do benfiquista João Viera Pinto no inesquecível 3-6 de 1994. Se o ponta-de-lança leonino Fernando Peyroteo é o maior marcador de sempre dos dérbis, com 67 golos, houve outros carrascos sportinguistas para o Benfica que não estão neste top como o caso deste século de Liedson, o “levezinho”. Do lado das águias, destaca-se Eusébio, com 27 golos contra os leões. Mas Alfredo Valadas, Rogério “Pipi”, José Águas, Nené, Chalana, Isaías ou o paraguaio Cardozo também se inspiravam, e muito, sempre que viam à sua frente camisolas verde-e-brancas. Onde anda agora a inspiração benfiquista?
Daqui a duas semanas recordaremos os grandes dérbis na Taça de Portugal. Mas antes, são outras as contas. Eis em baixo dez confrontos históricos entre leões e águias para o campeonato nacional.
1947-48
Benfica – Sporting (Campo Grande) 1-4 > 22ª de 26 jornadas
O Benfica tinha ganho no terreno do Sporting por 1-3 na primeira volta. Mas vivia-se a fase áurea dos Cinco Violinos. No estádio do Campo Grande (recinto que o Sporting havia abandonado), onde o Benfica teve que jogar, e a que os leoninos chamavam jocosamente de “ilha da Madeira” por causa das suas bancadas de madeira, o Sporting superou a vitória do Benfica de meses atrás, vencendo por 1-4, numa tarde sinfónica do leão com a secção de Cinco Violinos, em especial Peyroteo, que marcou os quatro golos da sua equipa. O campeonato terminou empatado pontualmente entre Sporting e Benfica e em suspense até ao final. Valeu a vantagem de um golo no confronto direto em favor do Sporting, por um simples “pirolito”, numa referência popular à bolinha de vidro que servia de vedante a uma famosa bebida gasosa da época.
1965-66
Benfica – Sporting 2-4 (Luz) > 6ª de 26 jornadas
Se as bancadas do Estádio da Luz daquela tarde molhada de outono se cobriam de chapéus de chuva, no relvado houve outro tipo de chapéus, dois da autoria de Lourenço, que fizeram do baixo guarda-suplente encarnado Melo um mero boneco, contornado por uma circulação em arco do esférico. O avançado leonino de 24 anos aproveitava bem a vulnerabilidade da ausência do guarda-redes nº1 benfiquista Costa Pereira e igualava o feito de Peyroteo, com um poker, 4 golos, na Luz. Foi a primeira vitória do Sporting na Luz para o campeonato. O grande do Lumiar só voltaria a tomar-lhe o gosto na “catedral” em 1986. Apesar de disputado na primeira volta, logo à 6ª jornada, esta vitória leonina em 1965 seria decisiva para as contas finais, num campeonato ganho pelo Sporting com apenas um ponto de vantagem sobre o Eterno Rival.
1967-68
Benfica – Sporting 1-0 (Luz) > antepenúltima de 26 jornadas
No jogo do título e de altas emoções, o Sporting foi para a Luz com um ponto de vantagem. Mas o Benfica imperial dos anos 60 superou os leoninos, com um golo de Eusébio. Repetia-se uma cena tantas vezes vista no estádio benfiquista. A engrenagem de alta cilindrada do onze benfiquista – Coluna, Simões, José Augusto, Torres e companhia – tinha sempre uma visão binocular para descobrir lá na frente Eusébio e para o lançar em corrida. Depois ele fazia o resto, com arte e engenho. Dado o forte abanão nas redes, com o golo, Eusébio erguia os braços na direção da bancada a abarrotar de gente, até receber valentes abraços dos seus companheiros. Foi assim ao minuto 8 do jogo de 28 de abril de 1968. Bastou esse golo para o Benfica escalar para o lugar de topo e lá ficar até ao final.
1974-75
Sporting – Benfica 1-1 (Alvalade) – penúltima de 30 jornadas
Pela primeira e única vez na sua história, o Benfica celebra o título na casa do rival, naquele que foi o jogo do ano. Curiosamente, foi nesse jogo que foi entregue o troféu de campeão nacional da época 1973-74 ao Sporting. Na segunda parte, valeu o golo do benfiquista Diamantino Costa para o empate decisivo, mantendo quatro pontos de vantagem, no que se tornou uma passagem de testemunho. Vivia-se uma época de tréguas entre os dois rivais e os festejos do Benfica foram respeitosos e pouco exuberantes, tal como relata a imprensa da época. O biBota de Ouro Eusébio já não jogava pelo Benfica, o Bota de Ouro argentino Yazalde ainda jogava pelo Sporting. Mas a equipa do Benfica era muito forte, com figuras históricas como o guarda-redes Bento, o central Humberto Coelho, o médio Toni, os atacantes Vítor Baptista e Nené e ainda o experiente Simões.
1981-82
Sporting – Benfica (Alvalade) 3-1 – 23ª de 30 jornadas
Era um domingo de março de 1982, ao final da tarde. Os futebolistas ainda jogavam com camisolas de mangas compridas e o antigo Estádio de Alvalade ainda não tinha a Bancada Nova, com os prédios em construção bem à vista do relvado. Mas nem o golo de adiantamento do Benfica, a partir de um canto direto de Carlos Manuel, impediria a cavalgada triunfal de um Sporting que estava mais forte. A equipa leonina estava mais vivaça, muito rápida no contra-ataque, sobretudo Jordão e Lito, que se confundiam ao olhar. Quando o jogo ainda estava equilibrado e empatado a uma bola, Bento teve o seu momento de irracionalidade, numa brusquidão “chega para lá” com Manuel Fernandes, a quem o guarda-redes dá um encontrão dentro da grande área. O momento foi como um xeque-mate auto-imposto: expulsão e penálti para o Sporting. Jordão teria a sua maior noite de glória, com um hat-trick emblemático. Fica célebre aquela corridinha da estrela do Sporting, sempre que festejava cada golo. Com esta vitória, o Sporting, treinado pelo inglês Malcom Allison, consolida uma vantagem de sete pontos face ao seu adversário direto de longa data. O clube leonino festejaria semanas mais tarde o 16º título de campeão, o último antes de um longo jejum de 18 anos.
1986-87
Sporting – Benfica (Alvalade) 7-1 – 14ª de 30 jornadas
Aconteceu um poker de Manuel Fernandes numa tarde avassaladora da ofensiva leonina que humilhou o Benfica, ao ponto dos seus adeptos queimarem cartões de sócio e outros adereços benfiquistas na Superior Norte. Este jogo ainda é hoje muito lembrado, num campeonato que não correu nada bem para o Sporting, que terminou em 4º, com dez pontos menos que o Benfica que se sagraria campeão. Por estranho que pareça, o jogo teve algum equilíbrio até aos 68 minutos, antes da rajada de golos que cristalizou os jogadores do Benfica, que pareciam em estado de choque.
1993-94
Sporting – Benfica (Alvalade) 3-6 > 30ª de 34 jornadas
12 anos depois do último título de campeão leonino, o Eterno Dérbi voltava ao epicentro da luta pelo título, ao fim de longos anos de uma bipolarização, entre Benfica e FC Porto. O Sporting de Balakov, Figo e Paulo Sousa empolgava os seus adeptos. E à 30º jornada, era o perseguidor quase a apanhar o Benfica, só a um ponto das águias e com a oportunidade única de poder superar o rival da Segunda Circular no antigo Estádio de Alvalade. Só que do outro lado havia um jogador chamado João Vieira Pinto, com tanto talento para slaloms no relvado, como para rematar na direção das redes. Fez um hat-trick na primeira parte e ainda brilhou em dois magníficos contra-ataques pelo flanco em desguardo do Sporting (após uma polémica substituição do lateral Paulo Torres pelo extremo Pacheco pelo treinador Carlos Queiroz), com Isaías a bombardear a bola sem parcimónias para o fundo das redes. Para o fundo, foi também a alma dos sportinguistas, numa vitória benfiquista de 3-6 que se tornou decisiva.
2004-05
Benfica – Sporting (Luz) 1-0 > 33ª de 34 jornadas
Jogo de elevada tensão, em que, à semelhança deste sábado, qualquer um dos dois clubes poderia sagrar-se campeão. Só que, naquele ano, o FC Porto também estava envolvido na corrida, o que impediu os festejos do vencedor do dérbi, o Benfica, com um golo de Luisão que aproveitou uma saída em falso de Ricardo para dar uma cabeçada no sonho leonino que se desfazia totalmente dias depois numa final infeliz com o CSKA Moscovo na Taça UEFA. Quanto ao dérbi em si, a maior surpresa veio do técnico leonino José Peseiro que improvisou uma estratégia eminentemente defensiva, numa equipa que só estava habituada a atacar. O Benfica aproveitou, com o talento do injustamente esquecido centrocampista Nuno Assis, o reforço de Inverno decisivo, que foi empurrando as águias para cada vez mais recorrentes ataques contra o Sporting. Não foi Simão Sabrosa, que desperdiçou escandalosamente várias oportunidades, mas o gigante Luisão a decidir, aos 83 minutos da partida. Com a vitória na Luz, o Benfica tornava-se o líder isolado a uma jornada do fim. Na semana seguida, quebraria o seu mais longo jejum de sempre, 11 anos sem ser campeão.
2015-16
Sporting – Benfica 0-1 (Alvalade) > 25ª de 34 jornadas
Este é o dérbi do Mitroglou, ou do Mitrogolo, uma bola atabalhoada em que o ataque insistente do Benfica deixa a defesa do Sporting desequilibrada. Naquele lance decisivo ao 20º minuto, o Benfica faz um cerco à área leonina. Naquelas frações de segundo, entre bolas bombeadas e mal aliviadas, o alviverde William Carvalho vê-se grego, entre outros dois, entre o pontapé de recarga de Samaris de fora da área e o remate de golo de Mitroglou a poucos metros da baliza. Com a lesão à última hora do guardião benfiquista Júlio Cesar, o suplente Ederson tinha sido chamado para as feras, a toca do leão assanhado, e torna-se no grande protagonista ao impedir o empate, com defesas acrobáticas, após o massacre ofensivo leonino, intensificado na segunda parte. O Benfica sai milagrosamente incólume perante um Sporting mais forte, dinamizado por Jorge Jesus (que havia trocado o Benfica pelo Sporting no verão anterior, num golpe bem sucedido do presidente Bruno Carvalho). Na ventura de lotaria, o Benfica contou ainda com dois desperdícios escandalosos do médio sportinguista Bryan Ruiz. As águias tomavam o lugar cimeiro que não mais largaram, para um tri ganho por um triz num taco-a-taco que reavivou a grandeza do Dérbi Eterno.
2023-24
Sporting – Benfica 2-1 (Alvalade) > 28ª de 34 jornadas
Já se sabia que o duelo da Segunda Circular era um dérbi do catano. Mas este foi um dérbi do Catamo, que bisou decisivamente, no início e no fecho do jogo. O jogo foi um retrato da atual conjuntura, com um Sporting dinâmico e autoritário, perante um Benfica sempre acabrunhado e atrás do prejuízo. Por incrível que pareça, o possante Gyökeres (um dos carrascos do Benfica) não marcou nenhum golo neste jogo, mas fez tremer a barra e a desgastada defesa do Benfica. O herói, porém, esteve no centro da defesa leonina, a torre uruguaia Coates, que conteve a tardia reação do Benfica na segunda parte, ao impedir três golos que estavam quase escritos, com cortes providencias. Outro uruguaio também se destacou, o guarda-redes Franco Israel, que voou para bolas que pareciam indefensáveis. Com esta vitória, o Sporting ganhava uma distância de sete pontos face a um rival afundado numa crise de identidade de que ainda não saiu. O dérbi do Catamo foi o jogo mais simbólico para o 20º título de campeão do Sporting. O Benfica treinado pelo impopular Roger Schmidt ficaria no final a dez pontos (!) do Sporting do competentíssimo Rúben Amorim, treinador que tantas saudades deixou em Alvalade.
