Simone de Oliveira entre cantigas e memórias

Aos 87 anos, a cantora portuguesa recorda as mais de seis décadas de carreira.

Em 1965, Simone de Oliveira leva ‘Sol de Inverno’ até Nápoles para tentar a sorte no Festival da Eurovisão. Ficou em 13.º lugar.

Quatro anos depois, volta para carregar a canção 'Desfolhada', que acaba na 15.º posição. Entre bandeiras vencidas, largadas no chão, e filhos feitos por gosto, não derrotaram Simone nem a impediram de se tornar uma das maiores referências da canção nacional.

Passados 60 anos, Simone de Oliveira recebe-nos na casa do artista para recordar as idas aos Festivais da Eurovisão e décadas de carreira, por palcos de norte a sul do país e de todo o mundo. 

Começa pela rádio?
Antes da rádio, penso que já teria cantado… Mas em 1957, fui para a Emissora Nacional fazer um programa que se chamava “180”, com um amigo meu que já partiu. Depois fiz um que era o “Se a manhã se despenteia”, onde conversei com poetas, ministros, a comunidade gay... Tive um programa de noite durante quase dois anos.

Acho que tive sempre muita facilidade em conversar. Deve ter sido uma coisa que nasceu comigo.

Com o gosto por comunicar era quase inevitável que não aceitasse o desafio de entrar na rádio e de começar a cantar.

Sim, foi um bocadinho… É engraçado, aconteceram várias coisas.

No “Se a manhã se despenteia”, um dia o Santana Lopes o ar todo de Galanzuras, quase que se escondia debaixo da mesa. Tem uma vergonha de mundo, é um tímido. 

Outra personagem, de quem não falo o nome por respeito, o assessor avisou que não se podia falar da regionalização e da droga... No intervalo, perguntou-me sobre o que íamos falar. Tinha o assessor ao lado e eu disse “Senhor Ministro, regionalização e droga são duas coisas que não se pode falar” e ele responde “Não se pode falar porquê? Mas eu falo”. Falou disso tudo e de mais um par de outras coisas.

Entrevistei um dos nossos Presidentes da República, Jorge Sampaio... Vergonhosamente sou condecorada por três Presidentes da República de fações políticas completamente diferentes. Eu não sei se tropecei nas prendas, se cantei mal, porque é que me deram as condecorações. Até hoje estou para perceber. Já perguntei, mas por quê? Há outras pessoas que eu acho que mereciam. Eu fico um bocadinho cansada, sabe o que é que eu digo? Arranjem outras. Já foram três, agora uma diferente, não é? Não quero mais nada.

Quero ser feliz. Quero estar bem com a vida. Quero estar bem com os meus filhos, com os meus netos, com os meus amigos, com as pessoas todas desta casa. 

A cantiga aparece como uma distração? 

A cantiga aparece porque eu passei um momento muito mau na minha vida e fiquei muito mal em casa. Cantarolava umas coisas, ‘O fado da carta’, de Fernanda Batista. Cantava para a minha mãe dia sim, dia não, jamais pensando que ia conhecer a pessoa que cantava, cantar com ela e ser amiga dela. 

Foi uma fase muito má na minha vida. Até que a minha irmã,diz à minha mãe: “Há aquela escolinha da música, ela gosta tanto de ouvir música”. Na Emissora Nacional, à sexta-feira, havia um programa dessa escolinha. A minha mãe, muito a medo, fala com o meu pai. Não queria de maneira nenhuma, mas faz a cedência de ir ao centro de preparação de artistas da rádio falar com o Mota Pereira. Conta a minha história toda, diz “Ela vem para aqui não é para cantar, vem para ver se a gente a tira da cama e se aquela cabeça atina”, porque eu não andava sozinha na rua. Quando lá fui, o Mota Pereira diz-me “Sabe o que é um piano e um microfone?” e eu “Sei lá, nunca vi microfone”. Pergunta-me se quero cantar qualquer coisa, era a fase dos boleros, então canto um. 

Não com esta voz… Eu costumo dizer que ainda bem que eu perdi a outra, se não tivesse perdido aquela voz aguda não tinha chegado até aqui. Uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi perder aquela voz. Já perdoei a pessoa que fez com que eu perdesse a voz, mas levei uns anos a perdoar Marcos Vidal. Eu tinha um espetáculo à cabeça e com a ‘Desfolhada’. Laringite, faringite, com os papéis dos médicos.  Mas eu tinha de cantar. À primeira, à segunda, à terceira a voz apagou. O silêncio sepulcral, tudo a olhar para mim. Cheguei cá fora, escrevi um papel: “Estou muda”. Fui ao médico. Ligou ao meu Pai e Mãe e disse: “Eu tenho aqui a vossa filha sem voz, não canta mais”. Agarrei no carro e assapei, porque gostava de assapar. Parei à porta do Senhor Pai e da Senhora Mãe.

O meu Pai pôs os discos todos a tocar e disse-me “De saudade também se vive”. 

Eu tinha de ganhar dinheiro para os meus filhos. Embora estivessem em casa dos meus pais, eu criei-os sozinha. Fui fazer de locutora de continuidade no casinho do Estoril com os meus vestidos de cantar. A última pessoa que apresentei foi a Amália. Um dia o Carlos do Carmo, amigos desde sempre, apareceu e disse “Ó Simone!”. Eu que estava lá atrás pensei “Do que é que eu me esqueci? Meu Deus, esqueci-me da cadeira, esqueci-me da guitarra, esqueci-me de qualquer coisa...”. Dá-me o braço e diz-me “Toca aí o ‘The Shadow of Your Smile’ três tons abaixo”. Eu disse “Ò Carlos não, Carlos não, Carlos não”, mas cantei. 

Daí aparece aquele programa com o Paulo de Carvalho, o Carlos Cruz e o Raul Solnado, ainda a preto e branco. Eu ouvi-os cantar e pensei: “Canta-se de outra maneira, diz-se de outra maneira… Já não consigo fazer isto, já não consigo fazer aquilo”. 

A minha mãe morre sem me ouvir voltar a cantar, quando eu tinha 33 anos. Já tinha cantado a ‘Desfolhada’, foi a minha prenda dos 30. 

Costumo dizer ao Nuno Nazaré Fernandes, que está cá na Casa do Artista, eu cantei a ‘Desfolhada’ e puseram o país em cima até hoje, por causa do “Quem faz um filho, fá-lo por gosto”. Ninguém dizia. Eu sou escolhida porque as outras pessoas que foram escolhidas não aceitaram.

É uma frase provocadora…

Naquele tempo, em 1969 era profundamente. Credo, valeu-me Deus, quer dize Salazar, Marcelo Caetano, ditadura… A mulher está maluca, não é verdade…

Quem fazia a locução desse espetáculo era a Maria de Lourdes Norberto, linda de morrer, que entra no meu camarim e pergunta “Tu vais dizer isto?”. Eu era a primeira, respondi-lhe “Se eu aceitei, eu vou dizer isto”, “Mas tu sabes o que é que vais dizer?” e eu disse “Sei”.  A última canção era da Maria da Fé, ‘O Vento do Norte’: “o vento do norte, do norte soprava”. Eu pensei, “o vento do norte, do norte já ganhaste”. Acabou-se. Já cantei, dá-me as palmas e tal. Fomos todos ver: Coimbra, ‘Desfolhada’; Leiria, ‘Desfolhada’… A minha grande frase é “está tudo bêbado”. Isto não está a acontecer. E a ‘Desfolhada’ ganha assim, sem eu saber porquê. 

A partir da ‘Desfolhada’ eu tive sempre o país em cima. E não é fácil porque há a tendência de que eu tenho de ser bem educada, bem disposta, suficientemente culta para responder, serena, elegante. É muito. Estou muito cansada, deixem-me ser velha. 

Falamos da ‘Desfolhada’, mas se pensarmos em ‘Sol de Inverno’... 

A melodia do ‘Sol de Inverno’ é muito mais bonita que a melodia da ‘Desfolhada’. Não tem comparação. 

No ano de ‘Sol de Inverno’, foi em Nápoles, em 1965, a ‘Desfolhada’ é em 1969, há um jornalista italiano que me pergunta em português “Bandeira vencida rasgada no chão, isto é a vossa batalha perdida contra o Salazar?” A delegação portuguesa estava toda com uma fruta na mão, parou, ficou tudo de boca aberta. E eu pensei “Como é que eu saio desta, minha Nossa Senhora?” e disse “Olha, isto é uma reunião para se falar de canções. O senhor deve ir para uma reunião de política. Deve ser na mesma rua, três números abaixo”. E ele responde “Você é muito esperta”. 

Fui aprendendo com a vida. Umas vezes melhor, outras vezes pior. Umas vezes com amargura. O dia mais difícil da minha vida foi no quando morreu a minha mãe. Estava a fazer uma revista no Maria Vitória. Não desejo a ninguém. The show must go on (em português, "o espetáculo tem de continuar")

Acaba por ser esta sua faceta que lhe dá depois a facilidade de agarrar nestas letras, que têm esta carga? 

Eu não sei, eu não sei...  Por exemplo, estava a ensaiar uma coisa complicada e o David Mourão Ferreira com o seu chapéu, cachimbo e cachecol diz-me assim “Era capaz de cantar uma coisa minha?”. Disse “Se o Senhor escrever, eu canto”. Acho que cantei em Espinho, tive um prémio com uma canção dele. 

Eu nunca pedi uma canção, eu nunca pedi um poema... As coisas foram aparecendo e eu tentei fazer sempre o melhor que eu sabia. Devo ter feito algumas coisas menos bem, com certeza que fiz, objetivamente. Terei errado muito, mas tentei... 

Acho que não se podem dizer as palavras por dizer as palavras. Tem de se perceber o que é que cada palavra tem dentro da própria pessoa, porque pode não ser aquilo que o poeta pensou. O poeta escreveu determinadas coisas com determinado sentido. Mas eu tentei sempre puxar essas palavras para a minha própria sensibilidade e gostei muito de cantar e de representar. 


Sente a diferença entre cantar uma música que fosse, por exemplo, adaptada ao português e uma canção que lhe fosse oferecida?

Eu devo ter cantado muito poucas músicas tiradas de outras coisas. Só no início, com o António José, fazia as adaptações. Cantei com o Marco Paulo. 

Também acabo por cair no teatro da maneira mais parva. Estava de luto da minha mãe e fui. É onde conheço o Varela. Tenho de contar uma coisa engraçada. O Sr. Varela Silva era diretor do meu primeiro espetáculo. Quando punha os óculos na ponta do nariz estava bem, agora quando os punha virados ao contrário...

Uma vez disse-me “Minha Senhora, não quero pés de vedeta”. Fui buscar o tique de levantar os calcanhares da música, quando havia uma nota mais difícil. Nunca mais o fiz.

À medida que a vida foi avançando, eu fui fazendo coisas. Depois fui escolhendo. Mas houve coisas que eu tive a sorte realmente de estar onde as coisas me correram bem. Não sou de negar palmas, não sou... Se não gostar, pronto, tranquilo. 

Descobre recentemente que estava na lista da PIDE…

Sei lá porque é que está na lista da PIDE… Deve ter sido porque eu disse que “Quem faz um filho, fá-lo por gosto”. É a única coisa que eu encontro para me pôr o nome da PIDE. Sei lá o que é a PIDE. Também era mau, eu era presa com certeza. Quer dizer, eu não tenho paciência.

Quando vim de Nápoles, eu tinha quatro senhores da PIDE à minha espera. À frente, atrás, à direita e à esquerda. Entraram e saíram da minha casa. Deve ter sido pela música. De resto, porque é que eu tenho o nome da PIDE? Não faço a menor das ideias: não matei ninguém, não roubei ninguém, não assaltei nada, só cantei cantigas. 

Só cantei os nossos poetas, os nossos músicos. Mas está bem, pronto, guardem lá o nome da PIDE.

Ainda está fresca a chegada a Santa Polónia depois da Eurovisão?

Ainda hoje estou para perceber. Viemos de comboio porque havia colegas meus com medo de andar de avião. Já vinha farta, sete horas de comboio, muito calor…

O Nuno Nazaré Fernandes é um dos responsáveis da chegada a Santa Apolónia. O comboio começou a parar em Vila Franca de Xira. Parava-se porque as pessoas estavam a ir ao comboio para me abraçar e dar beijinhos. Perguntava “Mas porquê que o comboio parou?” e diziam “As pessoas estão na linha, o comboio não pode andar senão mata as pessoas”. 

Chegámos a Santa Apolónia, eu lá saí do comboio e vejo uma coisa muito bonita. Estava o locutor Zé Fialho, a Maria Leonor, o João Soares Louro - que foi o meu padrinho de casamento - e, no meio, estava o meu pai. O meu pai nunca me disse que eu cantava bem. Essa imagem que eu vi há pouco tempo, é daquelas imagens que é capaz de me mover imenso.  

Isto é muito engraçado. De Santa Apolónia telefonaram para a televisão, “Estão aqui 500 pessoas”. E a televisão mandou três ou quatro polícias. Agora estão 1.500, naturalmente tem de se mandar uns guardas a cavalo. E de repente, e agora estão aqui 23.000.  Penso que há aí uma razão por trás disso política. Já havia Marcelo Caetano. É aquela mulher completamente louca que diz uma coisa que ninguém dizia. Que afronta uma sociedade inteira dizendo que quem faz um filho fá-lo por gosto. Penso que seja por aí.

Em Espanha, era a 13.ª a atuar e fiquei em 15.º lugar, por razões absolutamente políticas, claro. Quando chegámos ao hotel, o Ari já ia com uma besana, o hotel estava todo iluminado, o que era estranho. Entra um senhor, com chapéu de diplomata, que era um ministro espanhol. Levantou-se e disse “Eu não venho como ministro porque não posso, mas venho como espanhol pedir-lhe desculpas do que se fez hoje no seu país”. 

Coisas engraçadas, coisas que eu guardo com muita ternura e com uma gratidão muito grande. Eu costumo dizer, “eu só cantei e representei”. Terei tido atitudes que as mulheres na altura não tinham, terei comentado e dito coisas que não era hábito as mulheres dizerem. Hoje é vulgar, em 1969 não era. Talvez por aí eu tenha aberto alguns caminhos.

Terei aberto caminhos, mas custaram tanto.

A despedida dos palcos foi há três anos. Como se sentiu?

Olha, minha querida, foi tudo pensado ao pormenor. Fui eu que decidi. Eu quero sair deixando um cheirinho suave de uma primavera ou de uma lavanda agradável. E não aquela sensação de que já devia ter acabado. 

Quis sair com a voz no sítio, com a cabeça no sítio, com as canções que eu escolhi. Eu cantei 431 canções, para escolher aquelas quinze foi uma luta.

A sua música chega a todas as gerações, mesmo a quem não viveu a Eurovisão…

Sim, completamente. Há muitos anos, ainda eu fazia espetáculos fora, entra um garoto para aí com oito ou nove anos no meu camarim para me pedir um autógrafo. Estava eu, a Fátima e a Adelaide já depois do espetáculo. Uma coisinha… E eu “Olha, posso-te perguntar porque é que me pedes o autógrafo?” ao que responde “Porque a senhora diz as palavras de uma maneira que eu as percebo e as sinto”. O miúdo saiu e ficámos as três sem falar. 

É engraçado que a gente mais nova se identifica muito comigo. Eu sinto que não é pelo que eu cantei, é por aquilo que eu sou: maluca todos os dias. Espero ser assim até ao fim. Eu acho que vou lá para cima aos gritos. Porque não me apetece nada morrer, tenho medo de morrer.

Há alguma coisa que gostava de ter feito, alguma música que ficou por cantar?

Gostava de ter feito um monólogo. 

Sobre o quê? 

Sei lá. Até posso falar sozinha, se quiser. Gostava de fazer um monólogo. Escrito por alguém. Não um monólogo patético. Gostava de fazer um novo desafio muito grande. É um desafio não sei se vai acontecer. Quer dizer, pelo amor de Deus, eu tenho 87 anos. 

Qual é a memória dos palcos que guarda com mais carinho?

São muitas... É capaz de ser o São Luís da ‘Desfolhada’. Até porque eu sabia mal a canção. Na terceira fila estava o senhor com quem eu vivia com a namorada ao lado. E aquela raiva toda com que eu cantei naquele primeiro dia era só isso. Na terceira fila eu dizia assim, Simone aguenta, Simona aguenta...

Depois o Maracanãzinho com as 45 mil pessoas: “Agora para Portugal, Simone de Oliveira”, queria ir para a minha mãe... Nápoles com ‘Sol de Inverno’, eu vivia com o Henrique numa fase de paixão, de amor... 

Há memórias de pessoas, há memórias muito boas… Memórias até de pequenas cidades onde eu cantei. Tinha saído de um espetáculo feito na província, estava cá fora uma senhora, já com uma certa idade, com uma grande costura aqui na testa, que me diz: “É por sua causa que eu tenho isto aqui. Eu fui para Santa Polónia para a ver. Foi entrando gente, entrando gente, entrando gente e eu caí na linha”. Tinha ido parar no hospital. A vontade que nós tínhamos de rir.

É uma vida de histórias.

Muitas, muitas muito boas.

O nascimento dos meus filhos foi maravilhoso. A minha filha chama-se Eduarda porque o meu pai estava a ler ‘Os Maias’ de Eça de Queiroz. Ele estava convencido que ia ter um neto, que era o sonho porque tinha duas filhas. Dizia “este Eça de Queiroz tem umas personagens de mulher... Esta Maria Eduarda…”, nasce a rapariga Maria Eduarda. E depois Pedro, sempre disse a vida toda que se tivesse um filho era Pedro.

Foi assim.