"Inicialmente não pensava muito na carreira de treinadora, mas cada vez mais penso"

Na Alemanha como chefe da missão portuguesa aos Jogos Mundiais Universitários, Patrícia Mamona não esconde que já pensa no pós-carreira e vê este papel como uma amostra do que pode ser o futuro.

A recuperar de uma cirurgia depois de uma lesão no joelho, Patrícia Mamona está, por estes dias, na Alemanha a acompanhar, longe da competição, os atletas-estudantes portugueses em competição nos Mundiais Universitários de Rhine-Rhur 2025. A chefe da missão portuguesa garante estar na competição para "motivar e inspirar" a equipa nacional, mas também para "pegar" na experiência no alto rendimento e desporto e "transmitir às próximas gerações". E em entrevista a esta rádio, admite que o futuro "pode passar um pouco" por este tipo de trabalho.

Entrevista com Patrícia Mamona

Leia aqui um excerto da entrevista:

No ano passado esteve num Top 50 das mulheres mais influentes de Portugal. Já disse aqui que o futuro pode passar por orientar atletas e suponho que fale também de treino. Como é que vê o seu papel para atletas jovens, para mulheres atletas jovens, e que mensagem é que tenta sempre deixar, mais do que nos Jogos Universitários, na carreira?

"Na carreira,  acho que acima de tudo é conseguirmos encontrar algo em que nós naturalmente somos melhores, porque facilita sempre muito. Em todo o tipo de trabalho existem desafios e complicações e, por vezes, a motivação não é algo que nos aparece e que tenhamos normalmente. Mas o facto de nós termos ou gostarmos de trabalhar em certos aspetos - e se estivermos dentro dessa área - obviamente ajuda muito. Acima de tudo, acho que temos algo que - pelo menos falo por mim - que foi muito importante na minha carreira, que foi a minha intuição. Desde muito nova senti que tinha uma empatia e uma conexão muito forte com o desporto. E muitos desafios, pessoas que diziam que não fazia sentido eu fazer triplo salto. Mas a minha intuição foi muito mais forte, ouvi aquilo por que o meu coração bate, de certa forma o que dizia, e segui em frente neste sonho. Segui em frente, fui trabalhando ao meu ritmo porque os resultados não apareceram de um dia para o outro. Demoraram, mas como estava feliz no processo, estava sempre com um objetivo muito definido na minha cabeça, que era este sonho de um dia tornar-me uma atleta olímpica. Acho que isso fez completamente a diferença. Por isso também acho que a mensagem final é que se nós acreditamos muito numa coisa, temos um objetivo muito definido e essa ligação muito forte a esse objetivo, é ir em frente e ir atrás dos nossos sonhos."

Definiu os Jogos Olímpicos de 2028 como objetivo e talvez como final de carreira. Mantém-se? Já voltou a treinar? Como é que está? 

"Estou num processo de recuperação que obviamente inclui treino, mas não inclui treino à qualidade que eu tinha prévio à cirurgia. Sim, é verdade, gostava muito de acabar a minha carreira num grande palco. Mas a recuperação tem o seu tempo e eu tenho de respeitar isso. Tenho de respeitar o meu corpo e o objetivo está lá, tenho de focar naquilo que é importante, para me conseguir manter saudável e conseguir estar mais perto desse objetivo. É focar naquilo que posso fazer hoje, que é conseguir recuperar.

Entretanto, também quero utilizar esta época olímpica para começar a trabalhar e já estou a dar os meus primeiros passos, a fazer parte desta missão, por exemplo. Até já este ambiente de liderança, para o futuro, porque também gostava de ter uma pós-carreira suave, não uma coisa muito bruta em que de repente deixava de ser atleta e tinha de começar uma coisa do zero. Por isso é também aproveitar este ciclo olímpico para começar a dar os passos e fazer uma transição mais suave para a minha pós-carreira. Mas sim, gostava muito de acabar a minha carreira num grande palco. Gostava, é esse o meu objetivo e vou tentar conquistá-lo."

Vê-se mais como treinadora ou como uma gestora de carreiras, uma mentora?

"Não sei. Sinceramente, sou um livro aberto [risos]. Eu acho que acima de tudo é aproveitar um pouco as experiências que vou tendo para ver aquilo que me chama mais a atenção. Eu inicialmente não pensava muito na carreira treinadora, mas cada vez mais penso. Também tenho noção que em Portugal é complicado viver só como treinadora, principalmente se estiver focada na parte do Atletismo. Mas sou um livro aberto, é criar oportunidades, ver as oportunidades que aparecem no meu caminho e depois, a partir daí, com aquilo que tenho na mesa, decidir. Mas, neste momento, não tenho nada definido."