Dinheiro, prioridades, informação. Três em cada dez jovens europeus não querem ter filhos
Os millennials e gen Z europeus dizem ter maior literacia sobre contraceção do que fertilidade, menos de metade falaram com profissionais de saúde sobre estes temas e mais de três quartos querem ver a criopreservação de gâmetas mais debatida.
Quase um terço dos jovens europeus não querem ter filhos por razões de natureza económica, pessoais ou de informação sobre fertilidade. É a principal conclusão do barómetro FutURe 2025, que ouviu mais de 30 mil pessoas entre os 21 e os 38 anos em 12 países europeus.
De acordo com os dados do trabalho promovido pela Merck Portugal, uma empresa da área das ciência e tecnologias com foco na Saúde, há mais jovens (80%) a dizer ter literacia sobre contracetivos do que os que dizem estar informados sobre fertilidade (67%).
Pedro Moura, diretor-geral da Merck Portugal, adianta em entrevista a esta rádio que, entre as razões económicas para não querer ou não ter o objetivo de ter filhos estão o acesso à habitação, "os custos associados ao cuidado de uma criança" - como alimentação ou vestuário - e também os custos das "creches ou qualquer instituição que fique com as crianças enquanto os pais estão a trabalhar".
"A componente económica é transversal a todas as latitudes", sublinha, e alia-se a razões do foro pessoal que podem ser definidas como "prioridades".
"Podem ser de cariz profissional, querer avançar para uma determinada carreira em determinado sentido", adiando a parentalidade, ou "no sentido de gozar a vida sem preocupações e essa responsabilidade de ter de arcar com as preocupações de um descendente".
Outra dimensão é o planeamento familiar: só menos de metade (49%) dos inquiridos dizem já ter discutido fertilidade ou criopreservação de gâmetas - óvulos ou espermatozoides - com profissionais de saúde.
Esta falta de contacto com profissionais de saúde "significa que há muitos casais que decidem adiar o processo de parentalidade de forma ou não informada, ou mal informada".
Neste cenário, nota Pedro Moura, "quando chega a altura de avançarem para uma gravidez, chegam à conclusão de que não foram avisados ou não sabiam que pode ser já tarde demais".
"Esta informação pode vir de forma proativa da parte dos profissionais de saúde ou reativa a partir do momento em que tenha consciência desta potencial necessidade e inquira o meu médico", assinala.
Mais: 77% dos participantes defendem que a criopreservação devia ser objeto de maior debate público.
Nestes casos parece haver noção, sustenta, das consequências de adiar a parentalidade e, portanto, uma estratégia de prevenção baseada na ideia de que "então talvez fosse interessante ter os gâmetas criopreservados para que quando, ou se, decidirem ter filhos, já não seja tarde demais.
Como resolver?
Que soluções podem, então, ser elencadas? Pedro Moura identifica estratégias necessárias nos três eixos.
Na economia, sublinha que nem todas as empresas criam condições propícias à constituição de família, como "a possibilidade de trabalho remoto, horários flexíveis ou alargamento de tempos para aleitação".
Ainda assim, avisa, "nada disto adianta se não houver capacidade para comprar ou arrendar casa, ou pôr os filhos na creche".
No contacto com profissionais de saúde, defende que a abordagem de temas de fertilidade "seja posta pelo menos em nível de paridade com temas de contraceção".
"A literacia sobre temas de fertilidade pode começar, numa fase mais precoce, nas escolas, mas depois tem de ser acompanhada, na altura da puberdade e mais tarde quando se começar a entrar no processo de constituição de família", explica o responsável.
Para isso, defende uma aposta em "campanhas públicas através de placements em séries de televisão, de publicidade, de outdoors, de comunicação institucional" que alerte para a "possibilidade de encontrar problemas em engravidar se se adia por demasiado tempo o processo de parentalidade".
Há quem queira mais de três
Do outro lado da moeda da parentalidade estão os 70% de jovens que querem ter filhos. Entre estes, "um terço quer ter dois e 9% querem ter três ou mais".
Considerando "monstruoso" o peso dos 30% que não querem ter filhos, Pedro Moura tem, perante os dados, uma pergunta: "Não querem ou assumem que não podem?"
Este estudo não encontrou diferenças assinaláveis entre os jovens da Geração Z e os Millennials quanto à intenção de serem pais, "o que significa que esta é uma tendência que já se verifica transversalmente ao longo do tempo que já, portanto, abarca franjas de uma e outra geração. Não é um problema novo e está longe de ser um problema resolvido. Pelo contrário, há tendência de agravamento".
