Nem a chuva apagou a chama dos 30 Seconds To Mars no Marés Vivas
Para Jared Leto, este foi "o melhor concerto da digressão europeia".
A chuva poderia estragar um pouco as coisas neste final do segundo dia no MEO Marés Vivas, mas os 30 Seconds To Mars estiveram-se a borrifar... para a borrifadela dos céus, no seu espetáculo de mais uma hora - e para o qual não autorizaram fotografias da imprensa.
O vocalista Jared Leto está com um fato de branco, parece o John Lennon, tirando aqueles óculos escuros largajões que o ator gosta de usar. Começa por cantar ‘Kings and Queens’, abre os braços e obtém de imediato a participação do público, como se ele tivesse uma telecomando na mão em que manipula os espectadores como quer. Estoiram logo efeitos pirotécnicos, antes da chuva de papelinhos em ‘Up in the Air’. Como Jared Leto deve ter o dom da hipnose, desta vez bastou olhar para o público para receber a entoação coletiva da multidão. O vocalista dos 30 Seconds To Mars agacha-se e olha outra vez para o público. E pede: “one more time”. “One more time”, a massa festivaleira faz-lhe a vontade.
Segue-se mais uma entoação de uós em ‘Walk on Water’, numa interpretação que conta com uma gravação de um coro, que empolga o baterista Shannon Leto para baquetear em marcha militar.
“H#ly f#cking sh#t”, desabafa Jared Leto quando pede para iluminarem o público à sua frente. O momento pode ser espontâneo, ou fazer parte do guião (é mais provável este último). E de guiões percebe Jared Leto, mesmo aqueles mais batidos. O vocalista pede ao público para dizer “olá” de forma vigorosa e ainda convoca espectadores para o palco para dançarem e usufruirem todo o tema ‘Rescue Me’ ao lado dos seus ídolos, sem cá golden circles ou lá o que isso seja. Uma fã aproveita o capricho do palco e tira uma selfie ao lado de Jared Leto em plena missão de cantar.
Alguém, entretanto, lança balões pretos grandalhões para as filas da frente, enquanto um ruidoso e inoportuno fogo-de-artificio, algures no concelho de Vila Nova de Gaia, concorre em ruído com o acontecimento dos 30 Seconds to Mars.
Esqueçam entretanto a comparação com o John Lennon, Jared Leto está com o ar messiânico de Jesus Cristo, é isso - pelo menos segundo a recriação aloirada que surge nas pinturas de óleo do Renascimento. Já com o fogo-de-artifício das redondezas terminado, irrompe uma grande fumarada em palco ao som de ‘A Beautiful Lie’, mais outra.
Depois é a vez de ‘This Is War’, mas Jared Leto ainda não se conformou com os seus atos de hipnose e aprontou mais números, tais como este: o cantor ondula os braços no ar e o público imediatamente corresponde, enquanto se dá mais uma explosão de papelinhos no ar.
A chuva teimosa está cada vez mais intensa e a assistência vai-se munindo de todos os brindes à mão, incluindo os chapéus dourados e de palha que foram sendo dados ao longo da tarde. Perante a crescente desmaquilhação húmida do público, Jared Leto, às voltas na sua pequena plataforma, parece cada vez mais imaculado, longe das gotas de água que, sinceramente, começam a chatear.
Jared Leto relembra que Portugal foi o primeiro país onde os 30 Seconds To Mars lotaram pela primeira vez um grande pavilhão. Sempre que vêm cá, Jared Leto conta esta história, deixando ainda rasgados elogios ao lindíssimo país, e a tudo o resto, incluindo a comida e as praias. Só não elogiou o tempo porque a noite chuvosa não era a mais propícia para esse louvor.
Mas o maior elogio de Jared Leto estava reservado para o final, antes de fecharem com ‘Closer to the Edge’, ao desabafar que este tinha sido o “melhor concerto da digressão europeia”. Antes, Jared Leto quis assinalar o final desta digressão, ao chamar toda a equipa da entourage a palco para uma sessão de selfies que, caso tenham corrido bem, devem apanhar em fundo a roda gigante e o público com as lanternas dos telemóveis no ar.
Antes dos 30 Seconds To Mars, o aparato humano foi bem maior com a junção de Miguel Araújo e a sua formação com os elementos dos Quatro e Meia, o que conferia o impacto de uma big band.
O modelo do concerto foi quase o mesmo do espetáculo que uniu estas forças em Cascais, no Hipódromo Manuel Possolo, no ano passado.
Miguel Araújo e os Quatro e Meia dividiram salomonicamente as músicas de cada um. Com este ensemble, as músicas ganham um outro poder de tração, com uma dimensão mais quixotesca. ‘Olá Solidão’ ganha o aparato de cânticos ao estilo dos Arcade Fire, em contraste com o intimismo do tema dos Azeitonas, ‘Anda Comigo Ver os Aviões’, em que se ouve mais o acordeão, o violino e… o público, mais cantor que contemplativo.
A coisa ruma no final para a grande algazarra, com ‘Sentir o Sol’, apurado com salsa e muita festança latino-americana, com quase todos a darem uma mãozinha na percussão, para a batucada massiva. ‘Talvez Se Eu Dançasse’, em versão mais longa, é a convocatória derradeira para a chamada geral a palco, que incluiu Nena e até os petizes das família, com uma criança às cavalitas de Miguel Araújo, que teve, a meio, um ímpeto de cantor de ópera.
