Corações ao alto, os Mumford and Sons passaram pelo Campo Pequeno

O grupo britânico voltou a Portugal com a promessa de um regresso para breve.

Os Mumford & Sons regressaram a Lisboa, agora com "Rushmere" (álbum editado em março) "debaixo do braço". É o primeiro disco que os britânicos editam em sete anos e o primeiro sem Winston Marshall (o homem do banjo) que saiu da banda em 2021 devido a um controverso desalinhamento político.

Importa contextualizar que Rushmere é o nome de um lago com história para o trio. Localizado em Wimbledon Common, no sudoeste de Londres, foi ao pé deste lago londrino que Marcus Mumford, Ben Lovett e Ted Dwane uniram intenções e decidiram formar uma banda. Em 2009, editaram "Sigh No More" – o aclamado álbum de estreia que semeou o folk-rock nos gostos mais trendy da época.

Evocar o lago no título do álbum mais recente mostra que os três músicos querem revitalizar as raízes – mesmo que, ao longo do tempo, tenham segurado as sementes com as mãos bem apertadas. 

O alinhamento da atual digressão passa pelo disco novo, revela canções que ainda não foram editadas mas também dá um espaço substancial aos dois primeiros álbuns - o tal "Sigh No More" e "Babel", o segundo disco que saiu em 2012. Ainda assim, a primeira a ser tocada ontem à noite em Lisboa foi 'Run Together' – canção que foi estreada nesta digressão e que aponta para o que está ao virar da esquina. 'Conversation With My Son (Gangsters & Angels)' – outra fresquinha e promissora de um futuro em terreno criativo fértil – ficou guardada para o final do concerto.  

Depois de terem passado por duas edições do NOS Alive (2012 e 2015), pelo Coliseu dos Recreios (2013) e pela MEO Arena (2019) desta vez foi o Campo Pequeno o ponto de encontro feliz e catártico entre o trio (acompanhado por mais sete músicos) e os fãs que semearam em Portugal.

Uma espécie de instalação luminosa (a lembrar as luzes natalícias) "caía" do teto do palco. Corações, estrelas, andorinhas, ramos ou flores cruzaram-se com um jogo de luzes criado ao detalhe para cada canção. A combinação foi acompanhando, com gosto e simplicidade, a atmosfera do concerto.

A entrada em palco dos músicos aconteceu, porém, com discrição e na penumbra, e debaixo de uma "chuva torrencial" de aplausos. Focos de luzes azuis incidem depois nos três comparsas de estrada: Marcus Mumford, Ben Lovett e Ted Dwane. Os três alinham-se na frente do palco, enquanto os músicos de suporte ficam um pouco mais atrás, mas nunca esquecidos.

Marcus Mumford, na guitarra acústica, Ben Lovett, nas teclas, e Ted Dwane a segurar e a balançar o contrabaixo energizam a recente 'Run Together', que provocou euforia instantânea na sala. E o concerto estava só a começar. Foi também durante o tema de abertura que o carismático Marcus Mumford, ontem vestido de preto, soltou o primeiro grito. Um forte "Lisboaaaaaa" ecoou pela sala alfacinha e talvez arredores.

O dedilhar frenético de Marcus Mumford na guitarra acústica redobra euforia na sala. Vinha aí 'Babel', do catálogo mais old school. Por esta altura, Ted Dwane segura nos braços o baixo, e Ben Lovett, de boné, jovial e sempre irrequieto, permanece nas teclas. O frontman do trio expande, com convicção e intenção, a voz que, por vezes, parece que chega aos céus, descendo depois no tom certo para nos confortar. 

"Obrigado! Somos os Mumford & Sons", diz, às tantas, o vocalista que foi multiplicando os agradecimentos ao longo de todo o concerto. 

É então que se ouve mais uma novidade, 'Rubber Band Man' que na versão de estúdio conta com a voz do irlandês Hozier. "Já não vínhamos a Portugal há muito tempo", exclama o frontman do trio, desafiando depois os que estavam na bancada a levantarem-se para a agitação da que vinha a seguir.

A canção, que acabou de sair do forno do clã Mumford, foi bem acolhida, mas a bem mais antiga 'Little Lion Man' (do álbum de estreia) explodiu em cantoria. Marcus volta a dedilhar a guitarra como se guardasse nas mãos toda a alegria dos milhares que ali estavam. Todos pulam, todos dançam, todos levantam os braços. As vozes alinham-se a cappella num dos momentos da canção. A devoção é festiva. Marcus Mumford contempla a festa. Há alegria neste reencontro. 

Transição com as teclas de Ben Lovett para 'Hopeless Wanderer', de "Babel". Marcus volta a agarrar, com unhas, mãos e força invejável, a guitarra acústica. Eleva-se, a dada altura, para avistar todos na sala e rodopia, com graciosidade, no final. 

"Como estão, Lisboa", pergunta Ben Lovett. "Este é um dos lugares mais mágicos do mundo. É muito bom estar de volta. Temos estado em digressão e isso lembra-nos sempre o quão sortudos somos. Podemos fazer o que fazemos e isso deve-se a vocês. Obrigado por terem vindo esta noite", acrescentou. 

A sala já estava a ferver e a luminosa 'Lover of The Light' acelerou ainda mais os corações. Agora sentado no posto da bateria, como, aliás, costuma fazer neste tema, Marcus Mumford canta como se, por alguns minutos, soubesse resolver todas as encruzilhadas emocionais dele próprio e de quem tinha ao redor. No trono da percussão, de sorriso afável e aberto, foi o maestro dos coros que ganharam ainda mais corpo na ponta do refrão. Um trio de sopros insuflou a canção que, após um breve momento de serenidade introspetiva, voltou a avolumar-se para o êxtase do final que se manifestou num destemido e esperançoso grito coletivo.    

Em muitas canções dos Mumford & Sons, sente-se, a vários ritmos, o contraste entre as sombras humanas e os vitais pontos de luz que as combatem - e isto tantas vezes com a convicção de luta declarada na voz de Marcus Mumford. Há sempre uma luz de presença que ampara e nos mete a cantar de mão ao peito.


"Muito obrigado a todos", reforçou Marcus, mas agora a arriscar no português. É nesta altura que o músico pede ao público para erguer as luzes dos telemóveis de modo a  iluminar a sala. Do teto cai agora uma bola de espelhos. Cenário preparado para 'Believe', de "Wilder Mind". Com um pé no rock, Marcus Mumford agarra-se à guitarra elétrica, enquanto a arena se transforma num oceano de luzes. A meio do tema, troca a guitarra pela pandeireta e anda à solta no palco, ao mesmo tempo que vai apontando, com tom de cumplicidade, para o público que tem aos pés.  

"Como estão, estão bem?", pergunta aos que estão na sala. "Temos andado a compor canções e fazer discos", desabafa, com um franco entusiasmo jovial pelo regresso ao estúdio. O desabafo antecede 'Truth' - um manifesto pela autenticidade do mais recente "Rushmere". O tema, que evoca o rock sulista, cresce numa atmosfera pintada de vermelho e é sobreaquecido com a quentura das labaredas que saem das laterais do palco.

'Here' – mais uma que ainda não foi editada – pula a seguir do alinhamento. É uma das faixas de "Prizefighter", o álbum que o trio vai editar em fevereiro e que ontem foi, orgulhosamente, gabado pelo vocalista. 

Compasso de espera para Marcus Mumford, Ben Lovett, Ted Dwane e Matt Menefee (o músico que agora toca banjo) correram pela arena para um palco mais pequeno, íntimo e próximo do público. Como moeda de troca, os aplausos aconchegaram os músicos enquanto estes se acomodavam no mini palco.
 
A solenidade acústica de 'Ghosts That We Knew' fez a arena lisboeta transbordar de comoção refinada. Corações ao alto, silêncios respeitadores nos momentos que os pediam e uma atmosfera de união e partilha intimista tão necessária e urgente num mundo que, a uma velocidade doida, parece estar a fugir-nos das mãos. No set acústico, o grupo ainda incluiu canções como 'Caroline' e ou 'Guiding Light'. A arena cantou em uníssono, a meia-luz.

Foi também neste espaço de aconchego que Marcus Mumford chamou uma pessoa do público para traduzir o que nos queria dizer. Ao longo de três minutos, a escolhida, de seu nome Margarida, cumpriu a missão com distinção e sem embaraço. "Vou estar aqui a traduzir para o Marcus", começou por dizer e continuou. "Nós adoramos vir a Lisboa. Adoramos tudo em Lisboa mas principalmente a pastelaria. Hoje tivemos um lindo dia a passear pelo castelo, fomos também ao antigo convento do Carmo. Aquele sem teto. É muito bonito. E ontem comi mais do que em qualquer outro dia da minha vida. Boa comida portuguesa. Prometemos que não vamos demorar tanto tempo a voltar a Portugal", disse-nos então Marcus Mumford pela voz da Margarida.

De volta ao palco principal, o Campo Pequeno escuta e canta a "anciã" e delicada 'White Blank Page', do álbum de estreia. Salto no tempo para 2015. Em 'Ditmas', Marcus Mumford, com uma força anímica inesgotável, corre para os braços do público, andando, olimpicamente, pela arena e subindo, com bravura, até ao cume da bancada - um spot com vista privilegiada que Marcus soube aproveitar durante alguns momentos, claramente entusiasmado e de microfone em punho. Aplauso, também olímpico, para a proeza. Os mais ágeis conseguiram tirar os telemóveis dos bolsos para captar o momento, outros cristalizaram-no, certamente, na memória fotográfica não menos importante. 

Agora com apenas estrelas penduradas em cima do palco, os acordes anunciaram a esperada 'The Cave'. Ben Lovett sorri no seu posto, Ted Dwane cerra os olhos enquanto domina o contrabaixo, ao ponto de erguê-lo a dada altura. A dança coletiva e os pulos fazem o chão do Campo Pequeno ranger. A alegria é palpável. Recomenda-se.

A efusiva 'Roll Away Your Stone' começa debaixo de um fundo alaranjado. Marcus Mumford sorri, abre os braços e saúda o público. Ben Lovett salta das teclas e arrisca uma coreografia meio tribal, muito própria e encantadora. 

Passagem para o energético 'The Wolf' que mostrou as garras até ao encore. Mais palmas, luzes acesas e uma declaração de amor de Marcus, com a voz agora a roçar uma leve rouquidão pela força com que foi projetada. "Adoramo-vos", grita para todos os cantos da sala. Do "céu" do palco chove fogo de artificio.    

Fundo escuro com pontos brancos a multiplicarem-se no ecrã prepara o aguardado encore. O público responde e multiplica os pontos de luz com a luz dos telemóveis. Palmas e milhares de pés a bater no chão "exigem" o retorno ao palco dos três bons rapazes e restantes músicos. 

Apenas Marcus Mumford, Ted Dwane e Ben Lovett voltaram para entregar as vozes ao despido e belo 'Timshel'. Antes, Marcus avisa que o momento pede algum silêncio e na plateia alguém grita, "calem-se" para abafar de vez o ruído pontual que ainda se ouvia na sala. À boleia da instrução do fã atencioso, Marcus foi (bem) instruído por alguém que estava mais perto, talvez na fila da frente. O músico - e claramente um bom aluno - lá aprendeu como pedir silêncio em português, mas com um toque mais "rock & roll". "Calem-se, ca*****!", exclamou, replicando o que lhe foi dito e arrancando gargalhadas e palmas do público. 

Depois da "rudeza" aparente, a arena calou-se, com um silêncio quase meditativo, para escutar a preciosidade de 'Sigh No More'. Um ou outro grito, insolentes e, felizmente, sem propagação, não estragaram o momento. As vozes de Marcus Mumford, Ted Dwane e Ben Lovett uniram-se à volta de um microfone, com guitarra de Marcus Mumford a acompanhar. No final, o músico ergue-a, com a felicidade a iluminar-lhe o rosto.

Já quase no final, o frontman faz questão de falar dos Vaccines, que fizeram a primeira parte, sublinhando a honra que é andar na estrada com uma banda que os inspirou (e isto, atenção, ainda no tempo do MySpace) e continua a inspirar. 

A novata 'Rushmere' foi aplaudida do início ao fim, com o público a mostrar que já tem o refrão na ponta da língua. A festiva mas profunda 'Awake My Soul' foi cantada por todas as alminhas que estavam na arena e que nem por um segundo passaram pelas brasas ao longo de todo o concerto. Marcus volta a ser o maestro do coro coletivo que pouco desafina. O chão volta a tremer com o diamante radiofónico 'I Will Wait'. O vocalista entrega o refrão ao público, que continua a dançar e a saltar sem grandes formalidades. Festão e pura alegria no Campo Pequeno.   

"Não há outro lugar no mundo onde quiséssemos estar", exclama Marcus Mumford que manifestou ainda uma honesta gratidão pela experiência partilhada que se viveu na sala lisboeta.  

A acalmia e a bela harmonia de vozes de 'Conversation With My Son (Gangsters & Angels)' – do álbum que vai sair em fevereiro – fecha o concerto. Vemos pessoas abraçadas, outras contemplativas e ao nosso lado uma fã a simular corações com os dedos. Agradecimentos de parte a parte no final de uma noite que elevou os corações no Campo Pequeno.

Nota importante: parte da receita de bilheteira reverte a favor da War Child, uma organização não-governamental (ONG) de apoio a crianças afetadas pelas guerras.