Miguel Araújo: "sinto-me mais novo hoje do que há 20 anos"
Cantor abre ano com novo álbum, "Por Fora Ninguém Diria".
Assim que entrarmos no novo ano, o céu faiscará de fogos-de-artifício, os cães ladrarão, muitas rolhas de espumantes voarão rente às nossas testas e o novo álbum de Miguel Araújo passará a estar ao alcance de um clique.
“Por Fora Ninguém Diria” tem o seu lançamento digital a 1 de janeiro de 2026, já nesta quinta-feira, antes da edição física (ainda sem data). É um tomo de 11 canções, que Miguel Araújo calmamente e sem pressa foi limando. Falámos com o cantor e guitarrista por telefone. A entrevista correu desta forma...
O álbum Por Fora Ninguém Diria é uma reflexão sobre a passagem do tempo?
Talvez, sim. Porque não? O disco é um bocadinho enigmático. Eu próprio não sei do que é que ele fala, mas é uma boa maneira de descrever as coisas, porque foi um disco que foi feito sem saber que estava a ser feito, sem eu saber e sem ele próprio, o disco, saber que estava a ser feito. Ao longo de um processo longo de três anos, fui fazendo-o, que é uma coisa contínua e diária. Dedico-me a fazer músicas sem saber se vão ser editadas, se vão ser lançadas de alguma maneira, se vão ser acabadas. Mas é um disco que reparei que estava ali. E olha, porque não embrulhá-lo com lacinho e reconhecer que de facto é um disco? Eu acho que essa lógica da passagem do tempo está muito presente. Há músicas que comecei a fazer há vinte e tal anos, que só acabei agora, o que acontece muito comigo. Demora muito tempo a fazer. Por isso algumas músicas começaram a ser feitas há anos e anos e anos. Outras foram feitas na véspera do disco fechar, sei lá. O timeline bastante lento e paciente pode estar impresso de alguma maneira no disco.
Ao comprimir tanto tempo disperso, o disco é quase um best of, não?
Não é bem, porque escrevo sempre assim. Eu começo uma música e depois demoro anos a acabá-la. Eu não tinha nenhuma música fechada há vinte anos, isso não, mas são músicas que fui acabando também em estúdio. Começaram a ser feitas há muitos anos. Eu estou a dizer vinte e dois anos, mas talvez uns quinze. Uma delas, chamada ‘Civilização’, comecei a fazê-la há uns quinze anos.
Ainda sobre a passagem do tempo, já sentes o peso da idade, agora que tens 47 anos?
Eu não penso nisso. Até porque as coisas que vêm associadas à velhice, assim teoricamente, é mal-estar físico, doença e tal. Eu sinto-me cada vez mais saudável e mais desportista. Faço desporto todos os dias. Sinto-me muito melhor agora do que me sentia há trinta anos. Por isso, nesse aspeto assim mais convencional do desgaste eu não sinto. Depois, sempre que confronto a minha voz de hoje com a minha voz de há vinte anos, essa voz está completamente diferente. No entanto, é a mesmíssima voz. Por isso, é aquela coisa do nada muda e tudo muda. Nada passa e tudo passa. Se eu for ver coisas minhas antigas, noto que, de repente, estou diferente. Mas não me chateio minimamente com isso. Ao contrário do que é convencional, sinto-me mais novo agora do que me sentia há vinte e cinco anos.
Sentes-te um Dom Quixote, como na tua música nova ‘Charlie Brown’?
Talvez o Benjamin Button [personagem do filme “O Estranho Caso de Benjamin Button” que, ao longo da vida, passa de velho a novo].
Falas muito neste disco sobre a preguiça, a inércia. Isto é um álbum muito Snoopy, não é?
Talvez, sim. A preguiça, a inércia e o ócio são o terreno fértil da criatividade. Sem isso, não há nada. Eu estou sempre a trabalhar, mas muito do meu trabalho é ir dar uma volta a pé durante duas horas, é estar ali no sofá a apanhar sol na cara e a ler um livro. A pescaria. Fazer músicas é pescar, não é? É estar à pesca. Só se pesca com muita paciência. Por isso, é normal. O meu passar do tempo não é igual ao das pessoas todas que eu conheço. É muito diferente. Para mim, uma manhã muito rentável é não ter sequer saído do sítio onde estava. Um dia rentável pode ser passado no mesmo sofá com uma viola ao colo e sem dar um acorde. Uma coisa assim mais zen, mais oriental, talvez. Por isso, é normal que às vezes as minhas músicas também falem um bocadinho sobre isso.
Entras aqui na bossa nova, como no ‘Elogio da Preguiça’. Concordas?
Sim, talvez. É uma língua musical adquirida muito pequenino. Eu caí no caldeirão dos Beatles, do Paul McCartney, mas também do Caetano Veloso, do Gilberto Gil. Bossa nova pura e dura, eu não diria, mas mais MPB. Bossa nova, pura e dura, nunca ouvi muito. Mas MPB que se baseia na bossa nova, ouvi muito obsessivamente e adoro. Por isso, é normal. Isso é uma linguagem que se fala e a minha é essa. É uma misturada na Bimby de todas essas coisas, desde Paul McCartney até Chico Buarque.
Tens uma forma muito simples de fazer as canções. No fundo, também há essa proximidade com a simplicidade do MPB ou da bossa nova. Não concordas?
Acho que sim. Não sei quem disse que a simplicidade é o auge da sofisticação. Eu não estou a falar de mim, mas estou a falar da música que eu gosto. Se dissecarmos o “Let It Be” dos Beatles, aquilo é de uma simplicidade assustadora. Agora, se mais alguém poderia ter feito aquilo, duvido. É mais fácil estares a fazer uma música complicada, cheia de acordes, de passagens, de mudanças de ritmo e de polifonias do que sentares-te ao piano e sair um ‘Let It Be’.
Porque é que decidiram lançar digitalmente o álbum a 1 de janeiro? É um dia estranho para se lançar um disco.
Eu achei piada. Eu já tenho o disco pronto e fechado há quase um ano. Só que também não o quis lançar em 2025 porque havia os concertos grandes dos meus vinte anos e havia um EP que também saiu entretanto, que é o Cê Barra com duetos. E para não estar tudo encavalitado, com lançamentos uns em cima dos outros, então ficou decidido com o meu manager e com o pessoal que me rodeia que sairia em 2026. Foi um bocadinho por piada. Foi piada lançar no primeiro dia do ano, à meia-noite. Não é um dia bom para se lançar absolutamente nada. Todas as diretivas do marketing diriam que não é um bom dia, até porque hoje em dia tem que se lançar músicas às sextas por causa do Spotify, que é o New Friday Music não sei quê. E o dia um não cai numa sexta, mas eu achei piada ser o primeiro segundo do ano que sai o disco. Porque não?
Como é que achas que este álbum novo vai ser lembrado daqui a dez anos?
Não faço a mínima ideia. Se olhar para os meus álbuns atrás, eu sou um artista que tem algumas músicas com bastante sucesso, mas os meus discos não são discos de grande sucesso. Eu teimo em lançar em álbum porque acho que dá contexto às edições. Eu pus [os álbuns] muito em causa aqui há uns anos, agora já não ponho. Acho piada lançar como disco, mas nenhum disco meu é lembrado de maneira nenhuma. Eu sou um artista mais de canções do que de álbuns. Tem sido assim e é uma coisa muito comum num songwriter como eu. Qual é o álbum do Cat Stevens de que tu te lembras? Não te lembras de um álbum, lembras-te de músicas do gajo. Qual é o álbum do Elton John [marcante]? Também não é um artista de álbuns, é um artista de canções. É a mesma coisa com o Paul McCartney. Por isso, eu modestamente me insiro nessa veia de artistas, que não é tanto pelos álbuns e mais pelas canções. Por isso, eu não me preocupo muito com isso.
O que é que podemos esperar de ti em 2026? A promover ao vivo este disco? Ou vais envolver-te noutros projetos paralelos também?
Eu nunca faço as minhas digressões em função do disco. Eu sou um artista de canções e não de álbuns. Por isso, eu vou fazer estes cinco ou seis concertos de lançamento do disco que estão anunciados no meu Instagram, e o resto dos concertos do ano vou ter como opção todas as músicas do meu repertório e mais algumas. Ou seja, não me vou cingir ao disco novo. Nunca faço isso.
