Rod do leme

'Sailing' foi um dos picos da noite na Altice Arena. Rod Stewart esteve coxo mas a sua voz não falhou.

Esta noite houve um Rod gigante que, em quase duas horas, virou a lisboeta Altice Arena, que com o seu casco de nau quinhentista invertida na estrutura, quase que podia ter dado meia volta para embarcar com mais de 15 mil pessoas no sonho de 'Sailing' já no primeiro encore. O cunho histórico de Rod Stewart na canção é de tal forma que muitos a julgam sua quando, na verdade, é de Gavin Sutherland dos Sutherland Brothers. Numa interpretação em que a guitarra acústica e o órgão têm um papel sensível, os elementos femininos da banda de Rod Stewart usavam chapéus de marinheiro. Quase uma hora antes, houve também vista para o mar neste espetáculo, com a dedicatória do cantor britânico da canção folk 'Rhythm of My Heart' ao 75º aniversário do desembarque da Normandia, uma batalha decisiva da II Guerra Mundial que, na opinião de Rod Stewart, permite à Europa ter liberdade hoje. 

Rod Stewart apresentou-se a coxear da perna direita, depois de uma queda hoje na escadaria do Estádio Nacional. Como adepto do Celtic que é, o cantor fez a sua peregrinação ao recinto do Jamor onde o clube escocês foi campeão europeu de futebol pela única vez da sua história, em 1967. O cantor só queria esgueirar-se para estar na tribuna onde o recém-falecido capitão do Celtic, Billy McNeill, tinha erguido a Taça dos Campeões Europeus. Mas houve um trambolhão que deixou mal o seu joelho direito mas não a sua voz, tal como brincou. Mas tinha razão, a voz não falhou. Houve mais momentos de ode ao Celtic - e havia mesmo fãs na sala com a camisola verde-e-branca do clube de Glasgow (muito semelhante à do Sporting) -, em especial 'You're in My Heart', com imagens de festejos de títulos por parte da equipa escocesa. "Não há um único adepto do Celtic que não goste desta cidade”, atirou Rod Stewart, tudo por causa da grande vitória internacional no Jamor em 1967.    

Pouco passava das 20h30 quando as cortinas subiram e Rod Stewart entrou em ação. A apoiá-lo estava uma banda de 12 músicos, seis delas mulheres, quase todas loiras, ao gosto assumido do cantor. Mas fazer parte da retaguarda feminina do cantor requer uma tarefa árdua: têm que dançar bem em coreografia, três delas fazem o seu número de sapateado, enquanto as outras três mostram as suas habilidades instrumentistas nos violinos ou na volumosa harpa. 

Tudo é extravagante em Rod Stewart, não é só o conjunto de loiras de que se rodeia. A sua excentricidade vai do casaco de pele de jaguar aos instrumentos prateados, incluindo os bombos de bateria e o piano. Diz logo ao que vem quando promete duas horas de espetáculo e 23 músicas. 

Nas primeiras músicas do concerto, nota-se um padrão mais bluesy, tanto na versão de 'Having a Party' de Sam Cooke, como no velhinho 'Stay With Me' dos Faces, de que fez parte. 'Some Guys Have All The Luck' faz rapidamente a ponte temporal para os anos 80, numa rockalhada festiva que é prolongada por 'Forever Young', enquanto o coro feminino mexido torna-se também numa espécie de equipa de cheerleaders que tenta espicaçar o público.  

Após 'Rhythm of My Heart', Rod Stewart canta uma das suas grandes baladas dos anos 70, 'Tonight's the Night (Gonna Be Alright)', onde o cantor faz uma coisa de que gosta muito: deixar que o público cante o refrão. O desejo foi correspondido. As emoções não param de crescer, há muito público com vontade de dançar de pé, mas em 'Tonight I'm Yours (Don't Hurt Me)', um segurança mais zeloso não estava em sintonia com o que a música estava a pedir quando manda para os seus lugares um grupo de mulheres que se concentrava de pé na plateia sentada.

Tal como gosta, submete a sua voz distintamente rouca ao exame dos clássicos e passa nas calmas, como em 'It Takes Two e Have You Ever Seen the Rain?'. 'I'd Rather Go Blind' merece de Rod Steward a recordação orgulhosa de que só precisou de dois takes para o gravar em 1972. "Foram só precisos dois takes e duas garrafas de vinho", acrescenta, numa memória dos bons tempos com o guitarrista Ronnie Wood (há muitos anos, um Rolling Stone). 

Cumprido o instrumental de Mark Knopfler, 'Going Home: Theme from Local Hero', Rod Stewart mudou mais uma vez de roupa para a segunda parte, mais acústica, em que estão colocadas dez cadeiras em linha, com quase todos os músicos numa reta. É nesta disposição sentada que se interpreta 'I Don't Want to Talk About It' e 'The First Cut Is the Deepest', ambas belíssimas baladas, com um charme confortado na intemporalidade, que deixam a nu toda a beleza da voz de Rod Stewart. A envolvente folk perde a distração rocker quando se afronta o irlandês 'Dirty Old Town' que faz parte há muitos anos do reportório de Rod Stewart.

A versão empenhada de 'She Works Hard for the Money' de Donna Summer pelo coro feminino é o pré-aquecimento para Rod Stewart entrar na pista do disco-sound, ou neste caso disco-rock, e cantar Baby Jane a dançar, desafiando a lesão da perna. Nesta altura, o público já só conseguia estar de pé. A festança aumenta no segundo encore, ao som de 'Da Ya Think I'm Sexy?', já sem o fôlego de antigamente, enquanto chovem balões gigantes pela sala e as seis mulheres de Rod envergam as camisolas às riscas verdes do Celtic. Só às 22h24, a cortina faz a sua última descida, depois de celebrado o terceiro encore com 'Maggie May'.