Gaspar Varela: a juventude da guitarra portuguesa

É um dos músicos portugueses que partilha o palco com Madonna na digressão "Madame X". O jovem guitarrista conversou connosco sobre a tour, a bisavó Celeste Rodrigues, a paixão pelos acordes e o encontro imediato com Spike Lee.

 

É um dos músicos que brilha na digressão "Madame X" que arrancou este mês em Nova Iorque, nos Estados Unidos. Gaspar Varela toca guitarra portuguesa há oito anos. Faz esta quarta-feira dezasseis.  

O convite surgiu há uns anos, depois de Madonna ter ouvido Gaspar Varela numa casa de fados, em Lisboa, onde também estava a fadista Celeste Rodrigues, irmã de Amália Rodrigues e bisavó do jovem instrumentista. 

Impressionada com o talento e virtuosismo de Gaspar, Madonna acabou por convidá-lo para fazer parte da tour intimista que, até março de 2020, vai passar por várias salas e teatros nos Estados Unidos e Europa. O desafio é grande, mas está à altura do talento evidente de Gaspar Varela. Basta vê-lo tocar para não haver grandes dúvidas na aposta. Madonna pensou em tudo e não é só o nome do jovem músico a representar a cultura e vivências lisboetas nos espetáculos do álbum "Madame X". Ao nome de Gaspar Varela, junta-se o das Batukadeiras de Cabo Verde que acrescentam mais uma camada cultural aos concertos: os ritmos cabo-verdianos que coexistem com o burburinho e agitação da capital portuguesa. 
 
Tendo em conta que a digressão "Madame X" arrancou, em Nova Iorque, no passado dia 17, por estes dias, o jovem guitarrista continua nos Estados Unidos, acompanhado pelo pai, o realizador Diogo Varela Silva. No meio da azáfama dos ensaios, espetáculos e, quem sabe, de alguns afazeres turísticos, conseguimos trocar algumas impressões com Gaspar que não escondeu o entusiasmo por fazer parte da "corte" da Rainha da pop.

Mesmo à distância, o jovem talento falou-nos da curta (mas promissora) carreira, do primeiro disco que editou, da grande inspiração, a bisavó Celeste, e, claro, da recente experiência com a "realeza".
 



Vídeo publicado por Madonna nas redes sociais no passado dia 2 de setembro.


Gaspar Varela toca guitarra portuguesa desde os sete anos. Era muito pequeno quando começou a ouvir a bisavó a cantar o fado, mas soube dar valor ao privilégio. Celeste Rodrigues é a grande inspiração e a responsável pela fiel dedicação do músico aos acordes.
 



Gaspar começou a dedilhar a guitarra para acompanhar a "avó", como lhe chama com ternura e saudade. "Ouvi-la cantar sempre foi a melhor coisa que já ouvi na vida", confidenciou-nos. "Ouvi a guitarra portuguesa e quis aprender a tocar esse instrumento, para poder tocar com ela. Aos sete anos, pelas mãos do meu mestre, Paulo Parreira, consegui que isso acontecesse".

 



A paixão por uma das grandes expressões artísticas portuguesas, o fado, é para durar. O dom é herdado, mas a técnica é apurada com aulas (com Paulo Parreira), trabalho e empenho. Gaspar Varela dedica-se à guitarra portuguesa sempre que tem disponibilidade. Na coleção de guitarras que tem lá por casa já guarda três, incluindo a primeira guitarra que começou a dedilhar quando era mais miúdo. "Tenho três guitarras. Tenho uma guitarra pequenina que comprei com sete anos. É muito pequenina, é uma requinta. Tenho duas mais a sério, que são as que uso agora, as do Óscar Cardoso [artesão de instrumentos]. Toco muito nelas. Não tenho um tempo específico para praticar, normalmente [toco] uma hora, uma hora e tal. Sempre que estou em casa e tenho disponibilidade. Não tenho um tempo fixo para tocar, pego na guitarra e toco. (...) É um instrumento que é impossível ficares longe. Sempre que olhas para ele, dá-te vontade de tocar, sempre que olho para a guitarra, pego nela e toco". 

 


O menino prodígio da guitarra portuguesa já editou um disco. Deu-lhe o nome de "Gaspar”. O álbum de estreia - lançado em 2018 com o selo da editora Museu do Fado - é composto por uma seleção cuidada de temas assinados por autores das primeiras composições que recriou e outros mais recentes. Carlos Paredes, Artur Paredes, Jaime Santos, José Nunes ou Pedro Pinhal são alguns exemplos.  "Decidi gravar, no meu primeiro disco, os temas e guitarradas que aprendi primeiro e que me diziam muito, de vários guitarristas. Foi uma experiência incrível. Nunca pensei, aos 15 anos, ter um álbum editado". Mas Gaspar Varela tem um disco e a apresentação foi, como fazem os grandes, no palco do Centro Cultural de Belém, em Lisboa. 

A vontade de ir além da fronteira do fado, se é que isso existe, também lateja na mente criativa do músico. Damos um exemplo. Para o clássico de Carlos Paredes, 'Mudar de Vida', Gaspar Varela convidou o saxofonista Ricardo Toscano com o intuito de dar à composição uma energia mais virada para o jazz. A vontade de experimentar existe, mas a fidelidade ao fado é intocável. Como nos disse, para o próximo álbum ainda não está nada definido, mas a ideia será entregar-se a composições originais. "Espero, depois desta tournée, gravar mais coisas minhas, mais temas meus, não só temas de outros compositores. (...) Se gravar um disco depois disto [digressão com Madonna] vai depender muito dos meus pensamentos na altura, do meu gosto musical. Lançar algo depende sempre de como estou a pensar, da forma como estou a sentir a música naquele momento. Não sei. Há uma coisa que eu sei, posso ter uma fusão de músicas no álbum, mas vou estar sempre no fado, isso vai estar sempre presente, espero eu. Posso é ter algumas músicas que fogem um bocadinho. Não sei. É uma coisa do momento, pensada no momento".

Tudo a seu tempo. Para já, o foco e a energia estão nos concertos de Madame X. Sem partilhar muitos detalhes sobre a sua performance no espetáculo, Gaspar Varela partilhou connosco a dificuldade em explicar a sensação de partilhar o palco com Madonna que, como nos confessou, começou a "ouvir mais" depois de conhecê-la. "Estás ali no momento e nem te estás a aperceber que estás a tocar com ela. Só passado algum tempo é que começas a pensar nas coisas. Fogo! Acabei de dar um concerto com a Madonna. São momentos incríveis que vais guardar para sempre. Vou guardar para sempre na minha memória e na minha vida".

 


Outro momento que Gaspar Varela vai guardar para sempre é o encontro que teve com o realizador Spike Lee no final do primeiro concerto da digressão. "Estive com o Spike Lee. Foi um sonho realizado. Estás no corredor e está ali o Spike Lee, desatas a rir. São aqueles momentos que não consegues explicar", disse-nos com um sorriso que a distância não conseguiu esconder.

 


A experiência com Madonna é coisa para ser memorável, mas, para Gaspar Varela, andar em digressão com o astro maior da pop é essencialmente uma oportunidade de levar o fado a outros palcos, a outras formas de estar na música, a outros países. "Há muita gente que sabe o que é o fado, mas também há muita gente que não sabe. Para mim, poder trazer a guitarra portuguesa para um estilo de música destes é um orgulho enorme. Estou a representar não só o meu país, mas também o fado que é o meu estilo de música."  

 


Quanto ao que acontece no palco com a Rainha, a única coisa que Gaspar Varela pôde dizer-nos é que o espetáculo "está muito bom". Para quem quiser saber mais, o jovem guitarrista vai direto ao assunto e deixa o convite, "nós vamos estar oito vezes no Coliseu [de Lisboa], é só aparecerem". Em Portugal, os concertos estão marcados para o Coliseu de Lisboa. A primeira data é no dia 12 de janeiro, estendendo-se até ao dia 23.