André Henriques: "pela primeira vez, quis as canções para mim"

Vocalista dos Linda Martini lança hoje primeiro álbum em nome próprio, de título "Cajarana".

Sai hoje "Cajarana", o álbum de estreia em nome próprio de André Henriques, o vocalista, letrista e guitarrista dos Linda Martini. Numa dúzia de canções e de planos, André Henriques derrubou o arsenal de guitarras eléctricas e de ruído dos Linda Martini para se expor num espaço com vista desafogada para a folk e com perspetiva binocular e desfocada para o fado. 
 
Numa zona solitária de desconforto, encontrou o sossego e encontrou-se. E encontrámo-lo mais próximo de nós. A marca distintiva e bem portuguesa da sua voz e das suas letras, que se sentia no meio do ciclone sonoro dos Linda Martini, está agora a olho nu. Ele é André Henriques, o "Cajarana", como lhe chamavam em criança por causa da personagem André Cajarana, interpretada por Tony Ramos na popular telenovela brasileira "Pai Herói". O "Cajarana" saltou do caixote televisor dos anos 80 para as mãos de outro brasileiro, o produtor Ricardo Dias Gomes, com quem André Henriques criou empatia e um disco quase feito de um só fôlego. O desenho de capa é um auto-retrato às cegas. André Henriques atirou-se ao escuro mas viu a luz, por 12 vezes. Temos disco!
 
A entrevista fez-se ontem por via telefónica.    
 
Quando é que te começou a surgir a ideia de fazer um álbum em nome individual?
É uma ideia muito recente, na verdade. Nem tem um ano e aconteceu diante dos meus olhos. Até há pouco tempo, toda a minha produção musical foi feita num contexto de banda, nos Linda Martini. E mesmo antes deles, já tocava em miúdo noutras bandas. Sempre me habituei a crescer nesse ambiente de banda. Nunca me passou pela cabeça a ideia de fazer um álbum a solo, por várias razões. Como sou vocalista, além de compositor, não posso escapar da minha voz. Tinha alguma dificuldade em perceber que podia fazer alguma coisa distante do som da banda. As coisas mudam de figura em 2016 quando me convidam para escrever para outros intérpretes. O primeiro convite foi da Cristina Branco - uma colaboração que se tem estendido até aos dias de hoje em vários discos dela. Nessa altura, foi como se abrisse uma forma nova de compor na minha cabeça. Apesar do meu gosto pelas histórias que quero contar e pela voz em particular, o meu texto subjugava-se sempre ao espaço da canção, o instrumental vinha sempre primeiro. O meu trabalho era encontrar os espaços do que queria dizer. Quando começo a escrever para outras pessoas, o contexto inverte-se. Sei que essa minha maqueta vai ser interpretada por outra voz, por outros músicos e com outros arranjos. Sei que o potencial de sobrevivência está na melodia e no texto, na história que se quer contar. Portanto, comecei a fazer algumas canções a pedido de algumas pessoas, nesse formato, a privilegiar muito o texto, em que o instrumental é apenas uma bengala. Há menos de um ano, quando estava com concertos com a banda mas em que ainda não estávamos a planear um disco, eu tinha algumas encomendas para responder a outras pessoas que me tinham pedido canções, acabo por ficar com duas que não tinham destino imediato, nem sequer no contexto da banda. Pela primeira vez, fiquei com vontade de ficar com elas para mim. Será que eu, com a minha voz e os meus recursos, consigo fazer uma coisa diferente? Esse foi o rastilho para tudo o resto. No espaço de dois meses, sem perceber como, acabei por fazer as restantes canções. Foi assim que o disco nasceu.  
 
Este foi um processo de descoberta pessoal mais profunda? 
Acabou por ser. Como foi feito num espaço de tempo tão curto e de impulso, que não é de todo a minha forma de trabalhar, acabas por contar muito de ti sem a tentação de limar e de pensar: "será que é mesmo isto que quero dizer". Deixei-me contaminar pela forma como as coisas estavam a fluir e deixei as coisas irem à frente. Claro que, em certas medida, são as canções mais pessoais que fiz até hoje. Não quero dizer que o que tenha feito para trás não o seja, mesmo quando não é sobre mim, ou quando estou a escrever para outra pessoa, a tentar encaixar-me nas motivações e anseios dessa pessoa. Claro que é sempre um ponto de vista, um reflexo daquilo que observo. No contexto de banda, falo de mim mas quero que eles sintam empatia com as palavras e com a música que está a ser feita. Num disco que tem o meu nome na capa, não tenho que me preocupar tanto se os outros sentem empatia com aquilo que estou a dizer. É um disco em nome próprio. Quando falo dos meus filhos ou daquela que foi a minha vida anterior, acabam por ser coisas mais particulares, mais minhas.
 
Sentes-te mais exposto?
É uma exposição relativa. A música tem esse condão. Como ouvinte, também me revejo na música dos outros. Sou capaz de me rever, sei lá, no Tom Waits, no Nick Cave e José Mário Branco, apesar de não conhecer [pessoalmente] aqueles cantores. A música tem esse condão de universalidade. Há frases numa canção que são chave e fazem lembrar-me uma coisa tremendamente pessoal e que para outra pessoa terá outra leitura. O que me apaixona nas canções em geral é buscarmos respostas a ansiedades e interrogações que são nossas.  
 

Foi fácil trabalhares com outros músicos?
Foi. Foi deliberadamente fora da minha zona de conforto para quem está, como eu, numa banda há 17 anos. Já não somos só colegas de trabalho. Somos amigos e irmãos. Claro que é muito confortável essa relação. Quando começas a trabalhar com outros músicos, é evidente que há dinâmicas diferentes. Mas foi muito fácil. A primeira pessoa que chegou a bordo foi o Ricardo Dias Gomes, um músico brasileiro que está a viver há alguns anos em Portugal [que fez parta da Banda Cê, de Caetano Veloso]. Foi a pessoa que me ajudou a co-produzir o disco, a tocar no e a tratar dos arranjos. Foi alguém com quem tive um clique instantâneo. Não nos conhecíamos antes. Temos a mesma idade. Tínhamos referências muito parecidas, apesar de ele tocar noutros contextos que não são exatamente os meus. Ele não fazia ideia quem eu era, que banda eu tinha, qual era o som da banda, qual era a sua importância no contexto da música em Portugal. Isso era uma coisa que me interessava: ter alguém sem filtros, que não me encaixasse numa matriz sonora. Mas não foi só o Ricardo. Tive o Ivo Costa na percussão, ele está ligado aos mais velhíssimos projetos, desde o fado à música africana e a vários contextos que não só o rock. Ou o Pedro Ferreira, que já conhecia há mais tempo. Todos eles são músicos incríveis que me trouxeram uma frescura e um ângulo diferente àquilo que eu queria neste disco.     
 
Este álbum “Cajarana” pode ser visto como um conjunto de curtas-metragens ou de contos? Há muitas vezes uma narrativa.
Sim, acho que muitas delas têm uma narrativa como dizes. É um gosto que fui adquirindo ao longo dos tempos. Tudo se aprende e tudo se treina. Isto é como correr. Ao início, corres uma distância. Depois, vais superando-te e traçando outras metas. Isto também aconteceu na escrita ao longo dos anos. Já escrevo os textos das músicas há alguns anos. Ao início, eram textos um pouco mais encriptados e enigmáticos. Não me atrevi logo com esta ideia de narrativa, de contar uma história do princípio ao fim. É uma coisa que fui descobrindo ao longo dos anos. Há muitas músicas deste disco que têm esse lado de narrativa, como se estivéssemos a ver um filme com uma personagem em carne e osso.    
 
Tu falaste do teu trabalho de escrita para cantoras como a Cristina Branco. Há um impacto direto desse teu trabalho neste disco, pelo facto de te colocares no lugar de uma mulher? É um desafio?
Vem mesmo daí, de escrever para mulheres. Há um gozo especial aí enquanto letrista e observador. Sempre fui muito observador e sempre gostei muito de escrever. Essa ideia de encarnares outros personagens e de poderes contar uma história pelos olhos de outro, esse olho será sempre o teu. Tudo aquilo que imagino é moldado por tudo aquilo que sei até hoje ou por aquilo que fui aprendendo. Estou a escrever do ponto de vista de uma mulher mas não sou evidentemente uma mulher. Portanto, há sempre a união desses dois mundos. É algo que tenho vindo a fazer. Isso já aconteceu com uma música dos Linda Martini, o 'Bom Partido', que era sobre uma mulher que tinha casado mas que não era bem aquilo que ela queria fazer. É uma história meio de desamor. É uma coisa que fui cultivando e que neste disco aparece algumas vezes. Uma das primeiras músicas a aparecer neste disco é o 'Para Me Aleijar'. Acho que nessa nem sequer se refere o género do narrador. Quando escrevi essa canção foi no papel de uma mulher. É uma história também de desamor, de alguém que se apaixona pela pessoa errada. Dá-me gozo tentar escrever com outro ângulo que não seja exatamente o meu.
 
Este percurso com vista mais vista desafogada para a folk é para continuar? Já imaginas um segundo álbum de André Henriques? 
Para já, é difícil perceber se irá existir, quando e que moldes terá. Acabei por abrir uma gaveta nova no armário e agora já lá tenho este disco. É também uma forma diferente de me expressar criativamente. Não digo que não à possibilidade em haver uma continuidade. Não sei o que vai acontecer. Mas a acontecer, vou procurar fazer um disco diferente. Não sei que moldes iriam ter e que músicos iriam colaborar, ou que tipo de arranjos e de abordagem eu iria fazer. O que mais me fascina nesta ideia de fazer música é tentar desafiar, tentar não me repetir de disco para disco, tentar quebrar um pouco as fórmulas.  
 
Vocês, Linda Martini, cumpriram há pouco tempo uma residência artística na Gafanha da Nazaré. Já há embrião para o próximo álbum?
Sim, já há um esqueleto que vamos ter que adensar. É o princípio normal de um trabalho: estarmos todos juntos numa sala de ensaios, em torno de ideias que vamos trazendo de casa, e tentar que cada um de nós ponha o melhor de nós ali em cima e procurar os espaços e até onde a música nos leva. 
 
O álbum sai ainda este ano?
Nós tínhamos essa intenção. Nestas coisas da criatividade, nunca conseguimos colocar uma meta. Temos tido esse finca-pé de só lançar um disco quando nos sentirmos confortáveis com ele e não só para cumprir uma determinada meta que nos pedem, seja da editora, seja do que for. Tentamos não nos contaminar por esta ideia recente de que hoje lanças um disco e no mês seguinte já ninguém se lembra e tens que lançar uma novidade. A ideia continua a ser a de só lançarmos um disco quando sentirmos que temos qualquer coisa para dizer. 
 
O que te preocupa mais no coronavírus?
Passámos da desconfiança que isto era uma coisa séria para ficarmos todos em sentido. Claro que na área da música, começam a surgir em catadupa estas notícias de cancelamentos de espetáculos. Claro que são medidas que têm que ser seguidas, independentemente dos impactos financeiro e económico que nos vão afetar nos próximos tempos. Mas é algo que, evidentemente, tem que ser cumprido para evitarmos um problema maior do que o que temos em mãos. Honestamente, acompanho com alguma tristeza. O meu disco está a sair, conforme prometido. Mas tudo isso passa para segundo plano. A minha tentação é preocupar-me com os meus filhos e com os meus pais, e acompanhar as indicações e saber o que tens que fazer para te sentires seguro.