2022 ao vivo em Portugal
Palcos a funcionar sem interrupções. E o regresso dos festivais de verão. 2022 foi o ano que viu a música ao vivo a renascer.
Demos uma vista de olhos pelo calendário de concertos que animaram Portugal ao longo do ano. Perante o infortúnio inevitável de não conseguirmos destacar todos, eis os que não podem mesmo faltar no balanço resumido dos espetáculos de música que pudemos ver em 2022.
O último concerto de Simone de Oliveira
Simone de Oliveira contou ao jornalista Gonçalo Palma que queria sair (e despedir-se) dos palcos "pela porta larga". A confidência foi feita em março, numa entrevista que antecedeu o último concerto que estava marcado para mais tarde, ainda nesse mês. A conversa, que foi prazerosamente demorada, não só firmou muitas certezas como também recuperou uma mão-cheia de boas e sólidas lembranças. Tal como fazemos com as cerejas, foram saboreadas as mais belas memórias dos 65 anos de carreira que tão naturalmente se cruzaram com os 84 de vida. Simone, esse nome maior da canção portuguesa, disse adeus aos concertos como quis. Em troca, ouviu aplausos de pé. Aplausos sentidos e demorados.
Foi a 29 de março que o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, transbordou de gente para o adeus da cantora aos seus adorados palcos. "Termino a minha carreira nos termos que eu quis e quero", disse Simone de Oliveira durante o concerto. Vimos uma mulher comovida com os afetos de quem tinha à frente, mas inquebrável no desígnio de terminar em grande. Maior como sempre foi.
O espetáculo "Sim, Sou Eu... Simone" foi uma criação de Fátima Bernardo e Nuno Feist. Henrique Feist foi o responsável pela encenação. O concerto contou ainda com uma série de convidados, como DJ Kamala, Carlão, Edmundo Inácio, Rúben Madureira, FF, Sissi, Marisa Liz e Aurea.
Em maio, a nossa e eterna Simone foi agraciada com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
O périplo antológico de Jorge Palma para celebrar 50 anos de carreira
O músico e compositor - outro nome maior da canção portuguesa - celebrou 50 anos de carreira com uma viagem antológica pela palma da discografia que assina. Jorge Palma deu seis concertos em Lisboa entre setembro e novembro - um périplo simbólico pelos álbuns que criou ao longo dos anos. O primeiro, que teve lugar no Palácio Baldaya, foi para celebrar o disco "Só", que Palma editou em 1991. O último espetáculo da minidigressão antológica reuniu o icónico Palma's Gang -uma banda "de amigos para a vida" que foi formada no espoletar dos anos noventa com o propósito de eletrizar as canções do músico. Os antigos elementos Alex Cortez, Flak (ambos dos Rádio Macau) e Kalú (Xutos & Pontapés) juntaram-se a Jorge Palma no Capitólio. Faltou Zé Pedro, o eterno guitarrista dos Xutos, que fazia parte deste elenco de fiéis companheiros.
"A ideia existia há muito tempo, acho que desde o dia em que os Xutos se esqueceram de mim num restaurante de Gaia, na vertigem de uma T.V. em directo a que cheguei de autocarro, felizmente a tempo de os insultar", dizia a proposta de gravação do disco com o Palma's Gang que foi enviada à editora Polygram. "Depois, já em 85, a minha banda novinha em folha estreou-se ao lado dos Macaus, para os lados do Laranjeiro. Amigos comuns, amigos novos, marés de Agosto conversas nos bastidores, noites que nunca mais acabam, etc. Depois o Alex sugeriu-me uma noite no Johnny [Guitar] e eu disse logo que sim, mesmo antes de pensar na formação mais adequada - claro que vislumbrei um enorme bando de músicos a fazer a festa comigo. Por razões práticas, optei por um quarteto que ofereceria, à partida toda a base de apoio necessária às minhas canções - para além de um equilíbrio instável que me é, cada vez mais, vital - o Kalú e o Alexandre, o Zé Pedro e o Flak".
Arrebenta a bolha! A doninha finalmente voltou... e veio para ficar
O anúncio do regresso aos palcos dos Da Weasel foi feito numa das noites da edição de 2019 do NOS Alive. Portugal soube então que o coletivo, que continua a agregar Jay, Pacman (Carlão), Virgul, Guilhas, Quaresma e DJ Glue, ia voltar a pisar o palco depois de ter estado 12 anos sem o fazer. E voltou. Não em 2020, não em 2021 mas em 2022 - o ano do rejubilante renascimento dos festivais de verão após dois anos de uma temerosa escuridão nos palcos causada pela pandemia.
Os Da Weasel atuaram no último dia da 14ª edição do festival, a 9 de julho, e arrastaram para o recinto milhares de pessoas que teriam recebido o grupo em braços, se pudessem. Não podendo, os muitos que ali estavam fizeram a festa como podiam. Celebraram a saltar e a cantar num exercício coletivo de memória que transformou o recinto de Algés numa espécie de "passeio dos alegres", tal era o regozijo com que o público terminava as rimas do Pacman e do Virgul.
A promotora Everything Is New contou 55 mil festivaleiros na costa de Algés - o que significa que a "casa" esteve absolutamente cheia para o regresso da boa doninha. Os Imagine Dragons, os Two Door Cinema Club, as HAIM e os Mother Mother foram os nomes que ladearam os Da Weasel no cartaz do palco NOS para esse dia.
Reportagem do concerto assinada pelo jornalista Gonçalo Palma.
A consagração do regresso aos palcos com o concerto estrondosamente porreiro (e muito acarinhado) no NOS Alive aguçou a vontade dos Da Weasel em permanecer. Avolumou a vontade da doninha em ficar fora da toca por mais algum tempo. Em outubro, o grupo de Almada anunciou que vai atuar mais a norte. Os Da Weasel estão no cartaz do MEO Marés Vivas de Vila Nova de Gaia. Atuam a 14 de julho.
A estreia gloriosa de Harry Styles em Portugal
Há poucos dias, o músico britânico usou as redes sociais para dizer aos fãs que 2022 foi um ano de viragem, aproveitando o balanço da publicação para agradecer a quem o segue. "2022 mudou a minha vida", lê-se na conta de Instagram do músico. A manifestação pública é sobretudo de gratidão por ter passado o ano em digressão pelo mundo. A 31 de julho, o carismático inglês fez uma paragem gloriosa na Altice Arena, em Lisboa, abrindo, com essa passagem, um bom precedente de visitas a solo ao nosso país.
Estivemos na estreia em Lisboa e testemunhámos um rodopio de emoções (todas boas) à porta da sala com vista para o Tejo. Nessa bem-aventurada tarde de verão, os fãs de Styles, vestidos a rigor e muitos envolvidos em plumas de mil e uma cores, esperavam, ansiosos, pela abertura de portas, enquanto tentavam arranjar alguns centímetros de sombra para escapar ao sol quente. A espera às portas da sala lisboeta compensou. A Altice Arena esgotou para acolher o artista britânico que já tinha passado por lá nos tempos dos One Direction mas nunca sozinho.
O músico, que entrou em palco vestido em tons rosa, esteve acompanhado por uma banda de cinco elementos. O alinhamento (composto por 21 temas) passou pelos três álbuns que editou, mas a incidência foi em "Harry's House", o mais recente lançado em maio, e em "Fine Line" (de 2019) que - por causa da Covid-19 - não se materializou, como merecia, numa digressão.
Noite de glória para Styles e para os milhares que conseguiram fazer parte da experiência. O dueto de Harry Styles com Ellie Rowsell (a vocalista dos Wolf Alice que fizeram a primeira parte), a ode gulosa que o músico fez ao pastel de nata ou o pedido de casamento que o fã João fez à namorada Mariana foram apenas alguns momentos do concerto que pode recordar aqui.
A eletrizante e esguia Dua Lipa conquistou Braga e Lisboa
A britânica deu dois concertos em Portugal. A 5 de junho, atuou no Altice Forum Braga e na noite seguinte subiu ao palco da Altice Arena, em Lisboa. O energético "Future Nostalgia", o segundo disco que deu ao mundo, foi o motivo que trouxe Lipa ao nosso país. A artista londrina, que tinha passado por cá em 2017, eletrizou, com distinção, os dois palcos portugueses. Um dos relatos do concerto de Lisboa é assinado pelo jornalista Gonçalo Palma.
Além de arrasar nos palcos, Dua Lipa também andou a transbordar magnetismo pelas ruas de ambas as cidades. A cantora, que aproveitou o tempo livre para ir comer pastéis de nata com a portuguesa Ana Moura, publicou as experiências que viveu na qualidade de turista nas redes sociais.
O fulgor da espanhola Rosalía também andou à solta em Braga e em Lisboa
A "Motomami World Tour" - que serve "Motomami", um dos discos mais aclamados do ano, - passou pelas duas salas que em junho receberam Dua Lipa. A espanhola Rosalía "desarrumou-as" em novembro. Foi o regresso da artista a solo português depois de ter impressionado o público que em 2019 foi vê-la (e senti-la) ao Primavera Sound, na cidade do Porto. Leia a reportagem do concerto na Altice Arena.
Diogo Piçarra encheu a Altice Arena de sonhos... e de pessoas
Foi em 2022 que o músico algarvio subiu finalmente ao palco da maior sala do país, depois de sucessivos adiamentos originados pela implacável suspensão pandémica dos palcos. O concerto na gigante Altice Arena, em Lisboa, foi a 1 de outubro, o Dia Mundial da Música.
O artista farense celebrou dez anos de carreira com a sala apinhada de fãs. Carolina Deslandes, o espanhol António José e o rapper Bispo foram os convidados da noite que pode recordar aqui.
Quanto mais, melhor: as estreias do MEO Kalorama, Authentica e Rolling Loud
O ano não foi só de renascimentos, foi também de nascimentos. 2022 testemunhou as primeiríssimas edições do MEO Kalorama (em Lisboa), do Authentica (em Braga) e do famoso Rolling Loud (em Portimão). Nos primeiros três dias de setembro, o Parque da Bela Vista acolheu a estreia do ambicioso MEO Kalorama, festival que a organização diz ter sido projetado para "uma nova era, com uma identidade alicerçada na música, na arte e no compromisso com os objetivos de desenvolvimento sustentável". A primeira edição contou com um cartaz sumarento e diversificado. Pelo recinto da Bela Vista passaram nomes como The Chemical Brothers, Arctic Monkeys, Nick Cave & The Bad Seeds, Ornatos Violeta, Kraftwerk, James Blake, Disclosure, Chet Faker, Peaches, Tiago Bettencourt, Rósín Murphy, Blossoms, entre muitos outros. Para a edição de 2023 - que acontece nos dias 31 de agosto, 1 e 2 de setembro no mesmo sítio - já está confirmada a primeira leva de nomes: Arcade Fire, Florence + The Machine, Foals, Metronomy Dino D'Santiago e Capitão Fausto.
O recém-nascido Authentica acolheu 24 mil pessoas na edição de estreia. O grande festival de inverno teve lugar nos dias 9 e 10 de dezembro no Altice Forum Braga e os números indicam que veio para ficar. Kodaline, Rag'n'Bone Man, James Bay, Luísa Sonza, Nothing But Thieves, Becky Hill, De La Soul, Rels B, Mala Rodríguez, Dino D'Santiago, ProfJam, Mundo Segundo & Sam The Kid, Jimmy P e Chico da Tina foram as grandes atrações nos palcos Authentica e Urban. Pelo palco Auditorium, que recebeu artistas emergentes nacionais, passaram nomes como Jüra, Ghost Hunt, Shange, Quadra, NO!ON, Paraguaii, Killimanjaro e This Penguin Can Fly. A música eletrónica esteve representada no Dance Room por BIIA, Rusty, Rhythm, Farofa, Oder, DJ Firmeza, CelesteMariposa e Joff. O festival regressa nos dias 8 e 9 de dezembro do próximo ano.
Outra estreia que se destaca este ano é a chegada a Portugal do famoso Rolling Loud - autodenominado o maior festival de hip-hop do mundo. Aconteceu no mês de julho, na Praia da Rocha, em Portimão. J. Cole, A$AP Rocky e Future foram os cabeças de cartaz.















































































