2025: quando o ecrã faz música

Biopics e documentários sobre músicos, cantoras na pele de atrizes e ainda as bandas sonoras.

Este balanço musical faz a revista com o ecrã a faiscar, com o levantamento de biopics e documentários sobre músicos, cantoras na pele de atrizes e ainda as bandas sonoras.  

Marca muito o ano cinematográfico o biopic sobre Bob Dylan, "A Complete Unknown", bem encarnado por Timothée Chalamet. O filme esteve em exibição nas nossas salas. O biopic “A Complete Unknown”, realizado por James Mangold, fixa-se entre 1961 e 1965, nos primeiros quatro anos do percurso histórico de Bob Dylan, como se fosse uma transposição para ficção do documentário de Martin Scorsese, “No Direction Home”, que se centra no mesmo período e que tem o mesmo itinerário: os clubes folk de Greenwich Village (em Nova Iorque), o hospital de Greystone (onde estava internado Woody Guthrie), o Carnegie Hall (a respeitosa sala de concertos de Nova Iorque) ou o Festival de Folk de Newport. No filme, vemos os contrastes entre 1961 e 1965, entre o Bob Dylan sem óculos escuros e com óculos escuros, entre o jovem aspirante a músico folk e o homem asfixiado pelos pedidos repetidos para tocar ‘Blowin' in the Wind’. O Bob Dylan de 1965 quer fugir daquele puritanismo folk, e Timothée Chalamet sabe pôr a ferver essas tensões, sem deixar que se perca na comparação com o original. De 1961 para 1965, Bob Dylan passou de diletante a dilacerante. Ou melhor, Dyla(n)cerante, ultrapassado o dilema existencialista. 

Outro biopic sobre um músico que esteve em exibição nas nossas salas foi "Springsteen: Deliver Me From Nowhere". Jeremy Allen White personifica esta biografia de um álbum, "Nebraska". “Springsteen: Deliver Me From Nowhere” não é o biopic banal que se compromete a fazer um apanhado vertiginoso da vida de um artista em pouco mais de duas horas. É por isso que o filme de “Springsteen: Deliver Me From Nowhere” é especial, porque se foca num período específico da vida de Bruce Springsteen, de radical reclusão para o seu álbum mais introspectivo e anticomercial da sua carreira, “Nebraska”, de 1982. Sem o TGV cronológico de uma viagem de vida que se quer rápida (como num normal biopic), a narrativa de “Springsteen: Deliver Me From Nowhere” torna-se mais focada, complexa e interessante, ainda por cima sobre um rocker de alta voltagem como Bruce Springsteen, em ascensão para o estrelato global, que, de repente, desafia os padrões todos do grande negócio do espetáculo. O músico opta por um fazer um álbum de registo doméstico, sem singles orelhudos e com um espírito muito sombrio, nos antípodas do rock que levanta arenas com que se destacou nos álbuns “Born To Run”, “Darkness on the Edge of Town” e o duplo “The River”. Bruce Springsteen passa das lotações esgotadas ao esgotamento, de músico assoberbado a assombrado. Antes um trovão, atreveu-se nas trovas das trevas, sob a escuridão do pai com sangue do país do trevo, a Irlanda de sangue, demasiado longe da sua paz, perdido numa Nova Jérsia que o desencantava. Esta longa-metragem de duas horas é, mais do que a biografia de um álbum como o rarefeito “Nebraska”... uma biografia de uma autobiografia, sobre um disco com ecos da infância do músico atormentado pelo pai, num jogo de sombras: a do pai e a sua. 

Já em rodagem, está o filme sobre a vida de Carlos Paião, "Playback", e foca-se na faceta mais íntima do músico, com que o público não está tão familiarizado. Sérgio Graciano realiza o filme, Rafael Ferreira interpreta o cantor beirão falecido num acidente de viação em 1988. O filme tem estreia prevista para o verão de 2026.

Também este ano esteve a ser rodada a comédia biográfica dos Green Day, "New Years Rev", sobre os primeiros anos da banda punk. A história gira à volta de três amigos (interpretados pelos atores Mason Thames, Kylr Coffman e Ryan Foust) que viajam para Los Angeles com a crença de que a banda da qual fazem parte vai fazer a primeira parte de um concerto dos Green Day na noite de passagem de ano.

Passamos da ficção com base em factos verídicos para os factos verídicos sem subterfúgios de ficção: isto é, os documentários. Um deles é o incontornável "Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda", realizado por Bernard MacMahon, uma obra de arqueologia sobre os primeiros 18 meses dos Led Zeppelin, uma das maiores bandas rock de sempre. São imagens tão inéditas que nem sequer se sabia que existiam. As entrevistas de corpo e alma aos três músicos vivos dos Led Zeppelin são um dos grandes benefícios de este ser o primeiro documentário oficial da banda. O que um fã ou um curioso dos Led Zeppelin pode ver em “Led Zeppelin - O Nascimento da Lenda” é a ascensão meteórica da banda no primeiro ano e meio, explicada e mostrada em grande detalhe, depois de definido o ADN de cada um dos membros da banda inglesa. Bernard MacMahon dá-nos a ver quatro músicos ideais numa banda de sonho, deixando por vezes a narrativa em suspenso, para permitir a música respirar e se sentir a grandeza dos Led Zeppelin. Nesta longa-metragem, desfrutamos do desenvolvimento de canções como ‘Dazed and Confused’ ou ‘Whole Lotta Love’, ou os Led Zeppelin a descobrirem a sua omnipotência musical, num cocktail molotov de blues, soul, rock & roll e proto-metal, ou mesmo de virilidade masculina (eles todos) com feminilidade (até isto o vocalista Robert Plant consegue, como se tivesse uma Janis Joplin dentro de si).  

O há muito esperado documentário sobre Jeff Buckley, “It’s Never Over, Jeff Buckley”, chegou às nossas salas, através dos festivais DocLisboa e Porto/Post/Doc. Realizado por Amy Berg, “It’s Never Over” é o primeiro documentário oficial do músico e compositor norte-americano que editou o álbum de estreia “Grace” em 1994, acabando por ser o único disco editado por Buckley em vida. Com imagens e testemunhos privados, a cineasta Amy Berg revela o legado e o mistério de uma das figuras mais marcantes da última década do século passado.

Madonna foi outra das músicas retratadas no DocLisboa e no Porto/Post/Doc, em "Becoming Madonna", de Michael Ogden, que “parte de imagens e registos inéditos, num filme que acompanha a transformação da jovem outsider do Michigan na estrela pop mais poderosa e controversa do mundo”, segundo o comunicado de imprensa de promoção ao documentário. 

A lenda da música cabo-verdiana Orlando Pantera (1967-2001) também inspirou um documentário, “Mais Alma”, sob a realização de Catarina Alves Costa, que merece a exibição nas nossas salas de cinema. O novo documentário revive o legado de Orlando Pantera através de arquivos e encenações, contextualizando também a sua enorme influência na música cabo-verdiana atual, apesar da ausência de registos de estúdio.

Um documentário musical deste ano que se destaca pela sua peculiaridade é o filme sobre os Queens of the Stone Age nas Catacumbas de Paris, "Alive in the Catacombs". A experiência subterrânea da banda de Josh Homme ocorreu em julho de 2024, com os QotSA a tocarem de forma única e diferente naquele circuito húmido de via única. Cada canção é enquadrada num espaço diferente, em interpretações acústicas e intimistas, com os músicos “rodeados por restos mortais de milhões de humanos”, incluindo paredes forradas de crânios, a lembrar a Capela dos Ossos, em Évora. Esta gravação especial é uma produção da francesa La Blogothèque, que costuma filmar atuações de músicos em contextos alternativos e, de preferência, impactantes. 

2025 não foi diferente de anos anteriores no que respeita à abundância de filmes-concertos. Num triagem quiçá injusta, lembramos só alguns deste ano, como “This Is Not A Drill: Live From Prague - The Movie” de Roger Waters, "The Cure: The Shows of a Lost World" dos Cure, "Billie Eilish - Hit Me Hard and Soft: The Tour (Live in 3D)" de Billie Eilish ou “Ressaca Bailada” dos Expresso Atlântico.

Já falámos de atores a tomar a pele de músicos. E cantoras a tomar a encarnar outras personagens? Pois bem, Adele vai ter o seu primeiro papel no cinema. A cantora estreia-se como atriz no filme em preparação, "Cry to Heaven". “Cry to Heaven” é uma adaptação do livro de 1982 de Anne Rice do mesmo nome, cuja narrativa se passa na Veneza do século XVIII, à volta de um nobre e de um castrato, a tentarem impor-se no mundo da ópera. 

A cantora Sabrina Carpenter retomou este ano a carreira de atriz. Sabrina Carpenter vai ser a protagonista de um filme musical inspirado na obra de Lewis Carroll, “Alice no País das Maravilhas”. 
De acordo com a publicação Variety, a cantora estará também a cargo da produção da película ao lado de Marc Platt. O filme, da Universal Pictures, vai ser realizado por Lorene Scafaria que também assina o argumento. 

No que respeita às bandas sonoras, destaca-se mediaticamente o tema de Ed Sheeran com Dave Grohl na bateria e John Mayer na guitarra, 'Drive', que faz parte da banda sonora do filme "F1", com Brad Pitt no papel principal. A banda sonora do filme conta ainda com canções de Doja Cat, Burna Boy, Raye, Tate McRae, Madison Beer, ou Tiësto.

Miley Cyrus assume a voz da canção principal 'Dream As One', da banda sonora do filme "Avatar: Fogo e Cinzas", o terceiro da saga Avatar que contempla "Avatar" e Avatar: o "Caminho da Água". O tema é inspirado nos incêndios que no início do ano atingiram Los Angeles, na Califórnia. Já David Byrne compõe três canções para a banda sonora do filme de animação “The Twits” - ‘We’re Not Like Ev’ryone Else’, ‘Lullaby’ e ‘The Problem Is You’ - e ainda assina em co-autoria a música de fecho da longa-metragem, ‘Open the Door’, em colaboração com a vocalista dos Paramore, Hayley Williams que também canta no tema.

‘El Mal’, da banda sonora do musical "Emilia Pérez", tornou-se na grande canção premiada deste ano, um Óscar e um Globo de Ouro, nas mãos da dupla francesa Clément Ducol e Camille.