Ageas Cooljazz: o que o Dino D'Santiago faz é por amor. E a MARO também
O algarvio celebrou o feliz ritmo da união no Ageas Cooljazz, em Cascais. Antes, um travo a "hortelã" da doce MARO.
A serenidade encantadora de MARO aconchegou ainda mais o início de noite no Ageas Cooljazz, festival que decorre até ao final de julho e que dedicou o dia de ontem à música portuguesa. O aconchego é imediato quando se entra no recinto de Cascais. A ida até aos palcos é, na verdade, um agradável passeio pela relva, com o balanço certo que é dado pela leve e descontraída brisa de verão e pelo meio de gente com a disposição certa para ali ser feliz.
No palco maior do Hipódromo Manuel Possolo, a mesma disposição. A começar com a energia sorridente de MARO e a continuar com a de Dino D'Santiago que fez do espaço uma enorme e fervilhante roda de dança.
Com os longos cabelos apanhados e a guitarra acústica delicadamente pousada nos braços, MARO desembrulhou, com suavidade e alegria, 13 temas que foi buscar a diferentes momentos criativos. O foco, porém, esteve naturalmente no álbum "hortelã", que editou ao longo de 2023 e com o qual foi reconhecida com o Prémio José Afonso.
A artista portuguesa, que esteve ladeada pelos guitarristas Dario Barroso e Pau Figueres, esteve no palco do Cooljazz para mostrar as novas canções do disco mais recente mas não deixou de fora algumas de "can you see me?" (disco anterior) e outras que fez com o músico e produtor Nasaya, temas mais eletrónicos que no recinto de Cascais foram despidos à condição acústica.
MARO cantou e encantou debaixo de uma Lua "épica", como lhe chamou, confessando correr o risco de ficar distraída com tamanha imensidão lunar que só encontrou concorrência no próprio brilho da cantora e compositora. Conversadora, com uma série de boas piadas na algibeira e com o sorriso sempre radioso, fechou o concerto com 'Saudade, Saudade', a canção que levou à Eurovisão em 2022 e que ontem à noite foi iluminada por um oceano de luzes que saíram dos telemóveis de quem estava na relva. MARO voltou mais tarde para se juntar a Dino D'Santiago no palco.
Dino D'Santiago - que ontem recusou ser o cabeça de cartaz - subiu ao palco do festival de Cascais por volta das dez e meia da noite. Depois de ter estado algum tempo a atuar sozinho, o artista da Quarteira esteve rodeado por músicos, dando uma existência mais elástica às canções que pularam dos vários álbuns que editou - desde Eva (de 2013) a Badiu (de 2021). Pularam as canções, pulou Dino e pulou o público. A noite foi de celebração dupla. Não é apenas o Cooljazz que celebra 20 anos de existência, a estrada artística de Dino D'Santiago também chegou a esse marco redondo.
"Estou muito feliz com os músicos que me vão acompanhar. São eles que fazem com que a nossa música reverbere ainda mais", disse-nos numa entrevista que lhe fizemos há relativamente pouco tempo. Ontem, o que reverberou, além dos instrumentos, foi a essência de um homem que, acima de tudo, parece estar feliz. Em cima do palco, Dino D'Santiago, que parece estar conectado consigo próprio, voa de si (como diz a canção) para se conectar com os outros. Fá-lo com as canções, com desabafos e com a ginga certa. Abre o sorriso, movimenta a anca e finta o público com gratidão.
Dino D'Santiago mescla os sons da lusofonia e faz da fusão um manifesto festivo. É como se movimentasse dentro de si uma onda gigante de amor que depois desagua na euforia do público. É uma maré alta de bons sentimentos que galga as margens criadas pelos que nasceram para dividir. Um concerto de Dino D'Santiago desafia quaisquer linhas divisórias. Acontece para unir.
Não terá sido por acaso que a primeira que ouvimos foi 'Mundu Nôbu', tema que ontem à noite emergiu do fervilhar da percussão para preconizar um mundo mais justo e igualitário.
"Boa noite, Cascais. É um prazer poder pisar este palco. Sai de casa para ver a MARO", disse, seguindo logo para 'Nôs Tradison' que dedicou à "estrela" Sara Tavares, cantora e compositora que perdemos em 2023. Em 'Voei de Mim', Dino D'Santiago soltou as convicções na amplitude da voz e em Esquinas, ontem sem Slow J, ergueu o punho para reforçá-las. E depois, a quentura de 'Nova Lisboa'.
"Se pensam que saíram de casa para estarem sentados estão muito enganados", dirigindo-se a quem ainda estava colado à cadeira na fila da frente. "A partir de agora, este hipódromo vai ser a nossa pista de dança. Sintam-se em casa. Só não quero ver ninguém nu", disse antes de soltar 'Mbappe' e meter toda a gente no recinto a dançar sem complexos. 'Txuputi', de "Badiu", foi servida debaixo de uma tempestade de lasers, sendo que, por esta altura, a temperatura estava acima do recomendável para quem não aguenta muito calor.
A grandiosa 'Brava (Carta Pa Tereza)' contornou a Lua gigante e chegou aos céus. Viajou para as alturas com respeito, amor e saudade. "Escrevi esta canção para a minha avó Teresa, que já não está neste plano, mas quero dedicá-la as todas as mulheres que, apesar de viverem num mundo machista, conseguem vibrar no amor maior", disse Dino. 'Nôs Crença' veio a seguir.
Vestido de branco, Dino D'Santiago ia orquestrando os movimentos de braços de quem estava no recinto, incentivando, sempre que podia, os músicos que tinha ao lado. "Energia boa!", exclamava, quando parava por poucos segundos só para contemplar o que estava acontecer. "Que energia linda. Este é o festival que mais visitei. Foram 12 vezes, ou seja 12 anos. Estou a ficar cota", confidenciou, com o gracejo nervoso, embora confiante, de quem já chegou à sabedoria dos quarenta.
"A MARO não veio abrir para o Dino D'Santiago", sublinhou. "Foi a artista que mais ouvi em 2023. Tem sido a minha terapia. É bom saber que não temos de sair de Portugal para termos coisas maravilhosas", acrescentou, confessando estar francamente excitado por fazer parte de uma noite que celebrou e enalteceu a diversidade cultural da música portuguesa.
A meio de 'Como Seria', Dino D'Santiago recebeu no palco Luedji Luna, que vai atuar no Ageas Cooljazz a 27 de julho. Veio mais cedo para cantar com Dino. A cantora brasileira, com quem o músico gravou recentemente 'Oh Bahia', chegou a condizer, também vestida de branco e movida a boa energia. Logo depois, Cascais ouviu o tema que os juntou em Salvador, no Brasil, momento cúmplice que acabou num abraço demorado.
Os ritmos quentes e frenéticos de 'Fogo', 'Maio' e Kriolu andaram à solta por todo o recinto, sobreaquecendo o espaço e fazendo parecer que estávamos perto do final. Só que não.
"Obrigado, família. Estamos juntos!", exclamava Dino D'Santiago, a partir do palco, mas cheio de vontade de saltar para a relva. "Não quero saber do encore. Vou direto ao assunto", disse, pedindo desculpa à organização por "quebrar os protocolos". Ganhou a urgência de não largar quem ali estava nem por um segundo. Depois de um solene momento à capela, o músico chamou MARO para mais um momento especial. Uma versão mais serena de 'Tudo Certo', canção de "esperança", como disse o algarvio, que ontem sossegou na voz de MARO.
Entretanto, e no meio de um momento improvisado de "discos pedidos", houve alguém que pediu 'Djonsinho Cabral'. O algarvio serviu, com orgulho. "Fico bué feliz por ver pessoal mais claro que eu a sentir o funaná", disse, nesta altura quase a dizer adeus ao público que estava em Cascais.
Quase... porque ontem foi difícil dizer adeus. E de parte a parte. Toda a gente queria que o músico ficasse, se possível, até ao sol raiar. Mas tal não seria possível e, a dada altura, Dino D'Santiago teve de sair do palco. Saiu mas... voltou. No regresso - feito debaixo de gritos e aplausos - lembrou o mais recente projeto de amor que tem em mãos. A ONG Mundo Nôbu que vai abrir portas em breve e que foi montada com o propósito de ajudar adolescentes de bairros mais vulneráveis da Grande Lisboa (pode saber mais sobre a organização aqui).
Ao som de 'Fidju Poilon', Dino D'Santiago "saltou", finalmente, para os braços do público. Estava como queria. "Estou cheio de energia. Nunca deixem o Cooljazz morrer, aqui somos felizes", disse entre abraços e cumprimentos às pessoas que estavam nas linhas da frente.
Para o final, o algarvio guardou uma versão à capela de 'Is This Love', de Bob Marley, tema que levou na voz até sair do campo de visão do público. Lá foi o Dino D'Santiago. Grato, leve e feliz. Mais uma vez, voou de si para dizer, a quem ainda não acredita, que todos temos asas. Fora e em cima do palco, Dino "cala quem duvida" que toda a gente pode sonhar. E sim, respondendo ao histórico Marley, o que aconteceu ontem em Cascais foi amor.
