Dino D'Santiago: "sempre tive a intenção de contribuir para um mundo novo"
O músico algarvio atua a 19 de julho no Ageas Cooljazz, festival que acontece ao longo do mês de julho em Cascais.
Dino D'Santiago atua a 19 de julho no palco do Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, na edição que celebra os 20 anos do Ageas Cooljazz. Antes do concerto do músico algarvio, será a cantora e compositora MARO a ocupar o palco maior do festival que decorre ao longo do mês de julho.
A poucos dias do concerto, que foi cuidadosamente criado para a ocasião, partilhamos a entrevista que fizemos ao músico da Quarteira. Dino D'Santiago falou-nos sobre o concerto que vai dar em Cascais mas também das experiências recentes que teve no Brasil, de espiritualidade, de amor e dos projetos sociais que tem em mãos.
O músico, que em 2023 foi reconhecido pelo Governo com a Medalha de Mérito Cultural, promete levar para o Ageas Cooljazz uma mão-cheia de músicos, bem como a artista Luedji Luna, com quem canta 'Oh Bahia' (single editado em abril). Luedji Luna, que vai chegar mais cedo para subir ao palco com Dino D'Santiago, atua no Hipódromo Manuel Possolo a 27 de julho, no mesmo dia da conterrânea Marina Sena.
O festival de Cascais decorre até ao dia 31 de julho, com as atuações de Diana Krall (26 julho), Marina Sena e Luedji Luna (27 julho), Fat Freddy's Drop e Expresso Transatlântico (30 julho) e Jamie Cullum e Inês Marques Lucas (31 julho).
O que é que podes contar sobre o concerto que vais dar no Ageas Cooljazz?
São os 20 anos do Cooljazz. Isso significa que quando comecei o Cooljazz estava a dar os primeiros passos. Também estou a celebrar 20 anos de carreira. É incrível poder atuar neste festival. Paguei muitos bilhetes para assistir a concertos no Cooljazz. Desde o Kanye West à Erykah Badu, Jill Scott, Sharon Jones, Charles Bradley e tantos mais. É bonito ver o meu nome no cartaz na celebração dos 20 anos deste festival. É um festival que já andou por Oeiras, Cascais, Mafra, Sintra. Agora está outra vez em Cascais. Ainda por cima, faço parte do dia da música portuguesa, ao lado da MARO, que é uma artista que tem feito um caminho lindíssimo. Admiro-a muito. Este é o Portugal que amo e que me faz vibrar. Saber que posso levar para o palco a energia do batuque e do funaná. São ritmos que foram censurados na altura do extinto Estado Novo. Poder deixar a matriz desses ritmos no palco é um exercício de gratidão.
A Luedji Luna também faz parte do cartaz por isso acho que o destino quis mesmo este encontro. (risos) E também é um privilégio estar no mesmo cartaz que a Chaka Khan [atuou a 10 de julho]. É uma das minhas artistas favoritas de sempre.
Como é que te cruzaste com a Luedji Luna?
Conheci a Luedji num momento muito especial. Aconteceu quando fui convidado pelo [produtor] Branko para atuar no Jazz Café, em Londres. É um espaço que oferece duas sessões [de música] no mesmo dia. Na primeira sessão atua um artista com banda e lugares sentados e depois o espaço transforma-se numa espécie de club. Eu fiz a segunda sessão e a Luedji fez a primeira. Adorei o som dela. E quando nos conhecemos percebemos que, afinal, já nos seguíamos um ao outro. Foi daí que surgiu a vontade de nos vermos mais vezes e de fazermos qualquer coisa juntos. Foi precisamente o que aconteceu quando tive a possibilidade de ir ao Brasil. Fui a Salvador, mais precisamente à Festa de Iemanjá [da religião Candomblé] que acontece a 2 de fevereiro. Como fui uns dias antes, consegui ir para o estúdio com a Luedji. Já lhe tinha enviado alguns instrumentais e quando estivemos juntos deixámos apenas que tudo fluísse criativamente.
Sendo que a Luedji também é uma artista que se preocupa com aquilo que a rodeia, acredito que, além da ligação musical, tenha havido mais pontos de conexão entre vocês…
Acho que estávamos muito alinhados. E fiquei muito feliz por perceber que as coisas aconteceram dessa forma. O Brasil vê a Luedji como Portugal me vê a mim. Temos as mesmas posições. Já tinha sentido isso quando colaborei com o Emicida. A Luedji é uma pessoa que dialoga nos mesmos campos energéticos que eu. Temos os mesmos sonhos. Acho que vibramos na energia dos mesmos sonhos. Vemo-nos como uma família humana que está a sair de um trauma comum. Um trauma que ainda pesava muito na geração dos nossos pais. Quando a cor ainda carregava um peso que te tirava o direito de dizeres, de seres e de fazeres aquilo que sonhavas. E nós já concretizámos sonhos. Até estou arrepiado. Estamos alinhados neste lugar e nem precisámos de falar muito sobre isso. Falámos mais sobre os artistas de quem gostamos, de como trabalhamos com a arte e de como colocamos a arte nas coisas que fazemos. Falámos da forma como vamos buscar outros campos artísticos - como o cinema, a representação, a pintura ou a escultura - para o nosso lugar artístico. Partilhamos o mesmo fascínio por estes lugares. Também acompanhamos muito o que acontece nos Estados Unidos, que depois reverbera para o sul, e, claro, seguimos o que acontece no continente africano, que dialoga com o trânsito Brasil-Cabo Verde-Angola-Moçambique-São Tomé-Guiné.
Estás, mais uma vez, a criar uma ponte em forma de canção. Quão importante é, hoje em dia, criar essas pontes?
Fico feliz por saber que posso fazer esse trânsito. O Amílcar Cabral, que era pan-africanista, sonhou bem. Falo da forma como os países se podem libertar mas também de como podem valorizar a sua cultura. É sobre a ideia de se transformarem em países livres, com pessoas livres, mas também com orgulho da sua matriz. Faltava-me o Brasil nessa equação. E faz todo o sentido. É o país com mais pessoas a expressarem-se na Língua Portuguesa. São mais de 200 milhões de pessoas que pensam e sonham em português. E é um país muito espiritual. Desde os indígenas originais, passando pelos africanos que, embora tenham ido lá parar de uma forma trágica, hoje são mais de 100 milhões. Estamos a viver um momento histórico. E é um momento único também. Há um orgulho que não havia antes. E isso reflete-se nas nossas canções. O nosso tempo é o tempo de amar. Já estamos a refletir o sonho dos nossos ancestrais e não o pesadelo. É um momento fascinante.
Além de partilhares o palco com a Luedji Luna, vais levar músicos para o Ageas Cooljazz, certo?
E sei que vão ser muito acarinhados. Estou muito feliz com os músicos que me vão acompanhar. São eles que fazem com que a nossa música reverbere ainda mais. Mas, por vezes, são abafados pelos holofotes que estão apontados para nós. Estou feliz por ter os meus músicos a atuar num festival que valoriza muito a essência de um músico.
Recentemente, criaste a Mundu Nôbu, uma organização sem fins lucrativos que quer contribuir para a representatividade de comunidades vulneráveis em vários setores da sociedade. Fala-me desta organização que vai abrir as portas em setembro...
Criar uma organização deste género era um sonho que acalentava há algum tempo. Achei que seria um sonho para concretizar mais tarde, mas um problema que tive num pulmão mostrou-me que a vida pode ser muito curta. Mostrou-me que as coisas têm de ser feitas o quanto antes. Que só existe o hoje. Felizmente, está tudo bem. Estou a ser vigiado e bem acompanhado. Mas a verdade é que esse problema de saúde levou-me a antecipar essa iniciativa.
Eu e a Liliana Valpaços [vice-presidente da associação] fomos aos Estados Unidos ver um modelo, que fosse, de alguma forma, exemplar e eficaz. Foi então que descobrimos a Brotherhood Sister Sol, em Harlem, Nova Iorque. É uma organização que faz um trabalho de excelência há mais de 30 anos. Posso dizer que 95 por cento das pessoas que foram ajudadas por essa organização não voltaram às ruas. Também soubemos, por exemplo, que a gravidez precoce nessas comunidades diminuiu. As adolescentes começaram a perceber que podem ter futuro. Que podem sonhar. É uma organização que investe no sonho daquelas crianças. Não as manipula nem impõe um limite naquilo que podem ser. É esse modelo que vamos reproduzir cá. Dei-lhe o nome de Mundu Nôbu porque a minha intenção maior esteve sempre assente na ideia de contribuir para um mundo novo.
Felizmente, conseguimos o apoio de toda a gente. A organização vai trabalhar com 160 adolescentes de bairros da Grande Lisboa. O objetivo é dar-lhes apoio psicológico, literacia financeira e promover acordos com universidades para que esses adolescentes sintam que podem pertencer ao mundo académico. Ainda paira a ideia que as universidades não são para estas pessoas, mas se estabelecermos um contacto prévio com esse tipo de oportunidade, o número de afrodescendentes a frequentar o ensino superior aumenta. Também ajudamos com questões de cidadania e relembramos que o exercício de voto faz a diferença. Dou um exemplo. Apenas 20 por cento das pessoas que vivem no bairro Cova da Moura [na Amadora] votam. As pessoas daquele bairro acham que um voto exercido por elas não vai fazer a diferença. A ideia é dizer-lhes precisamente o contrário. É dizer-lhes que as coisas podem mudar quando se começar a olhar para essas populações como eleitores.
É mesmo muito importante que as pessoas percebam que podem sonhar. Também estiveste envolvido na iniciativa De Dentro para Fora, um projeto que estimula a criatividade musical de reclusos do Estabelecimento Prisional do Linhó, em Alcabideche…
A arte vai abrindo estas portas. Foi a minha música que me levou até lá. O facto de cantar em crioulo e de ter rádios a passar a minha música fez com que o professor Filipe Gameiro Neves [mentor do projeto] me convidasse para explicar como é que o crioulo e a música de Cabo Verde mudaram a minha vida. Como eles ouviam muito trap e cantavam em crioulo, desafiei-os a pegar no elemento sonoro do trap e adicionar o batuque ou o funaná para que a matriz rítmica soasse aos lugares de onde vêm esses sons. Digo-lhes que as mães, os pais ou os irmãos vão gostar porque vão entender esses ritmos. Eles aceitaram o desafio. Deixei-lhes os instrumentais e quando dei por mim comecei a receber vídeos com as coisas que estavam a fazer.
Acabei por montar lá um estúdio, ao qual demos o nome de John Semedo [o fundador do projeto social Academia do Johnson] e já gravámos um álbum. Chama-se "De Dentro para Fora" e é neste disco que eles partilham todas as vulnerabilidades que têm. É onde partilham tudo aquilo que não conseguiram dizer aos pais, ao psicólogo ou no tribunal. Estamos a falar de pessoas que já nascem num lugar que criminosamente os condiciona. Não é uma situação justa e ainda acontece. A verdade é que quando chegamos lá e vemos os miúdos a chorar, a brilhar ou a sonhar questionamo-nos sobre quem é que afinal são os monstros. Sinto que aprendo muito com eles. Houve um recluso que me disse: 'quando escrevo e faço música sinto-me livre. É quando saio destas celas'.
Também dizes que a música te liberta. Presumo que acontece a mesma coisa com os projetos sociais que tens em mãos...
Sim. Quando interpreto uma canção sinto liberdade plena. Quando consigo atingir esse lugar de expansão até fico com inveja de mim próprio. Sinto mesmo que nada me prende. E depois, quando liberto as canções, vejo as pessoas a apoderarem-se delas. Nada é nosso. É nessas alturas que percebemos que somos apenas um canal de inspiração. Estamos aqui para doar aquilo que nos foi doado.
