Alive: Buraka voltam a ser os donos do terreno
Carlos Paião renasce na banda do filme "Playback", com muito bailarico, no Fado Café.
É difícil lembrar ver tantos milhares de pessoas às 2h20 da manhã no recinto do Alive, em quase vinte anos de festival. Os culpados são os Buraka Som Sistema, os cultores das grandes festanças a altas horas, e que acabam de protagonizar um regresso em grande. Também é difícil lembrar um banho de multidão desta dimensão à volta dos Buraka Som Sistema, por muito grandes recintos que tenham ocupado, incluindo os Jardins da Torre de Belém, a poucos metros de Algés, há dez anos, quando se despediram.
O efeito de "Saturday Night Fever" foi bem sentido nesta noite no Alive, mas com um cunho fortíssimo da lusofonia tricontinental que muito define o som agregador dos Buraka Som Sistema. Às 0h55, havia de facto muito muito público na enorme arena do Palco NOS. A sede por rever ou ver pela primeira vez um espetáculo de Buraka era muito grande e tinha agora uma confirmação estatística.
Uma tela estreita e muito vertical mostra imagens dos cinco membros dos Buraka antes de irromper ‘Hangover (BaBaBa)’, com Branko, Rui Pité, Kalaf, Conductor e Blaya em ação. O público dá de caras com um espetáculo de grande dimensão, com um grande aparato de imagens e várias chamas em palco.
O ideólogo e esteta Kalaf avisa que para os Buraka, “não vale ficar parado” (regra nº1) e não dormir em dia de concerto (regra nº2, esta menos obrigatória). Pelo discurso, a aposta em ‘(We Stay) Up All Night’ é óbvia. Ei-la então. O público está bem vivo, a saltar e a cantar, a matar saudades ou a descobrir novas sensações. Repetem-se truques com quase vinte anos, como o mandar baixar a multidão para a fazer novamente saltar e aumentar a loucura, como no quarto tema da noite, ‘Parede’.
Diretamente de Angola, chega Petty para vociferar em 'Yah!', para mais uma excitação coletiva e o apagamento do dicionário da palavra “limite”. A única reação mais frouxa do público acontece apenas quando Conductor pergunta "quen conhece From The Buraka to the World?”. Mas assim que arranca o tema ‘Komba’, cada espectador volta a esquecer-se que é tímido. É impressionante como os Buraka Som Sistema ensinaram tantos portugueses a arranhar palavras e expressões em dialetos ou sotaque africanos, ao ouvi-los a cantar ‘Komba’ - e outros temas.
Kalaf vai assumindo os discursos e parabeniza o trabalho de produção para este espetáculo. Os Buraka vão avisando à sua maneira os temas que vão tocar. “O melhor sítio do mundo para se estar ê hoje no Alive. Para isso, é preciso Carnaval”. Logo, o que se vai passar é ‘Vuvuzela’, ode a Luanda e ao Carnaval. Acontecem mais abanões de corpo e mais chamas em palco. A energia está contagiante.
No meio da festa, também se velam os mortos que foram companheiros dos Buraka. Em 'Sound of Ku Duro', passa no ecrã um “RIP” à MC Saborosa, que se distinguia pelo modo vocal indomável e em estado puro. Mais além, surge um vídeo de Sara Tavares, o seu nome é projetado em vários ecrãs e ouve-se o sample da sua voz em ‘Voodoo Love’, enquanto o público ergue os telemóveis luminosos no ar, a pedido de Conductor.
O ícone do funk carioca Deize Tigrona é outras das convidadas que participa no concerto, para mais uma agitação no tema ‘Aqui Para Vocês’, em parceria vocal com Blaya. Os Buraka Som Sistema estavam no domínio. Quando interpretam ‘Tira o Pé’, o verso “A Buraka é dona do terreno” é bem sentido no Passeio Marítimo de Algés. Blaya monitoriza as ondulações de braços no ar cada vez mais frenéticas do público e manda gritar o seu nome, para um momento que era um clássico nas atuações dos Buraka: o twerking intenso de Blaya. Espargatas à parte, é ainda preciso recuperar a forma para o número corporalmente exigente de Blaya.
Ricardo Araújo Pereira também aparece, num vídeo, a rimar em modo angolano. Sente-se no ar que algo de grandioso está no ar. As programações de Branko dão a novidade: vem aí o ‘Wegue Wegue’. É a loucura. O público dá metade do espetáculo com gritos em uníssono que devem ter sido ouvidos na outra margem do Tejo. No final, há uma chamada de numerosas crianças a palco - “a nova geração de Buraka”, como disse um felicíssimo Kalaf. A imensa família dos Buraka reunia-se. Mas como diziam: a festa acabou, o mundo acabou. Portanto, ao fim de uma hora de vinte e cinco minutos de atuação, a festa vai continuar.
Antes do espetáculo dos Buraka Som Sistema, houve um micro-fenómeno no Fado Café, de grande afeto à obra de Carlos Paião. A banda Playback dirigida por Paulo Furtado (Legendary Tigerman) tinha na função de vocalista o ator Rafael Ferreira, que desempenha o papel de Carlos Paião no filme biográfico sobre o cantor beirão falecido em 1988, e que vai estrear no próximo mês nas nossas salas de cinema.
O que se espera do espetáculo dos Playback é a recriação do reportório de Carlos Paião, em arranjos por Paulo Furtado que procuram não se desviar da essência das canções do médico beirão tornado músico.
Foi num ambiente familiar que os Playback tocaram, na presença de amigos mas também da equipa de filmagens de “Playback”, embora o grosso do público que enchia por completo o Fado Café fosse composto por espectadores normais.
Rafael Ferreira assume por completo a pele de Carlos Paião, de barba e casaco prateado, a lembrar a prestação no Festival da Canção, que venceu com o tema ‘Playback’. Nem sequer faltam a camisola de riscas vermelhas e brancas e as calças vermelhas. Bem diferente do que costuma vestir estava Paulo Furtado, de casaco branco. O resto da formação são os músicos que costumam acompanhar Legendary Tigerman: a vocalista Sara Badalo, o teclista e saxofonista João Cabrita e ainda o baterista Mike Ghost.
Rafael Ferreira molda-se à personagem do Carlos Paião, com alguma expressividade, gestualidade e boa disposição, sem precisar de grandes exuberâncias. A atuação começa direita aos corações dos admiradores de Paião, com o popular tema ‘Cinderela’. Vêem-se pares a dançar, público a cantar efusivamente e muita alegria no ar. Recupera-se ainda um tema esquecido de Carlos Paião, dedicado a Lisboa, e com uma crítica mordaz, tal como enquadra Legendary Tigerman. Nem sequer falta o remate à fadista, conseguida pelo ator.
Segue-se “mais uma crítica social do Carlinhos”, apresenta Rafael Ferreira, antes de cantar a ‘Marcha do Pião das Nicas’, que apela ao bailarico, indo à essência da cultura popular portuguesa, tal como ‘Vinho do Porto’, num amor ao que é nosso.
‘Pó de Arroz’ exalta ainda mais as emoções, enquanto Rafael Ferreira leva as mãos ao peito. ‘Playback’ é a apoteose, com o chão do Fado Café quase a ir abaixo e com o público bem afinado a cantar com toda a alma.
