Canções dos reis e rainhas da música

É o dia deles. E também há reis e rainhas na música. Recuperamos uma série de canções inesquecíveis da "monarquia" musical.

Como hoje, 6 de janeiro, é Dia de Reis, aproveitamos o balanço da celebração para lembrar os reis e rainhas da casa real que anda pelos palcos em vez de ocupar tronos ou que segura microfones em vez de cetros. São reis e rainhas da monarquia musical, também magos na sua arte. Ao mundo ofereceram canções - autênticas joias da coroa, que resgatamos em baixo.    


A nossa rainha, Amália 

Amália Rodrigues, a nossa rainha, a nossa voz. Filha de Albertino de Jesus Rodrigues e de Lucinda da Piedade Rebordão, a nossa fadista nasceu com o nome de Amália da Piedade Rodrigues, no dia 23 de julho de 1920, em Lisboa. Ninguém cantou, canta ou cantará como Amália. Abraçamos essa certeza com todo o gosto e na medida do tanto o que nos deu. Foi única a cantar-nos, a nós, portugueses. "Fui para fora com uma guitarra e uma viola e fiz uma carreira internacional. Não foi o meu português, nem a minha falta de espetáculo. Foi a minha autenticidade que venceu", disse Amália em vida.

A morte levou-a de nós a 6 de outubro de 1999. Foi vítima de um enfarte. Foram decretados três dias de luto nacional e recebeu as maiores honras do público e do Estado. Amália foi a primeira mulher portuguesa a ser transladada para o Panteão Nacional pelo contributo histórico que deu a Portugal. Amália é a joia da nossa coroa. O fado 'Foi Deus', composto ao piano por Alberto Janes e escrito para a voz de Amália, é o que escolhemos para inaugurar a lista real. 


Elvis Presley, o rei do rock and roll 

O cantor - um dos astros maiores da música e um revolucionário na agilidade dos movimentos - tinha apenas 42 anos quando o coração lhe falhou. Em criança, Elvis era um rapaz curioso, com um código genético e o ânimo certo para desbravar as paixões que o moviam. E a música era um desses amores inesgotáveis e promissores. Era quase uma inevitabilidade. Elvis coexistia com a música (e com todas as suas variáveis) e não reconhecia fronteiras entre géneros ou expressões culturais que a sociedade da época dividia.

Conta-se que a primeira vez que alguém apelidou Elvis de "rei" foi em 1956, numa entrevista que o músico deu ao norte-americano "Waco News-Tribune". Elvis foi descrito como "o rei de 21 anos do rock and roll da nação". O dono de 'Can't Help Falling in Love' declinou o título mas não conseguiu evitar que o resto do mundo alinhasse na sua coroação. Como joia da coroa - admitindo que a escolha é absolutamente subjetiva - elegemos a canção 'Suspicious Minds'. 

 

Aretha Franklin, a rainha da soul 

Teria 80 anos, se fosse viva. A rainha da soul morreu em 2018, aos 76 anos. O legado que deixou finta, porém, a morte. Estamos em 2023 e Aretha Franklin foi agora eleita como a melhor cantora de todos os tempos pela publicação Rolling Stone. Uma filha do gospel e uma rainha que transcende géneros musicais, tal como transcendia no palco, a cantar, a emocionar. "Eu, com a mão estendida, à espera que alguém lhe pegue", foi assim que a artista, nascida em Memphis nos anos 40, descreveu a missão que tinha enquanto cantora e foi com estas palavras que Rolling Stone começou o artigo que fez com a seleção dos 200 melhores cantores de sempre.

"Aretha poderia expressar júbilo, como vimos no documentário de gospel  'Amazing Grace'. Ou capaz de invocar o mais profundo desgosto, em baladas como 'Ain't No Way'. A sua arte é a maior conquista da música americana se não da história americana. A sua voz é um cruzamento onde se encontram as diferentes tradições musicais, do gospel ao funk, do rock ao blues", continua o artigo da Rolling Stone. É um desafio tremendo escolher a joia da coroa no universo real da poderosa de alma Aretha. E se for a interpretação que a cantora fez do tesouro '(You Make Me Feel Like) A Natural Woman'? Fica então escolhido.


Michael Jackson e Madonna, o casal real da pop 

Michael Jackson viveu 50 anos. O rei absoluto da pop morreu a 25 de junho de 2009 na sequência de uma overdose do anestésico Propofol, medicamento que apenas deve ser administrado em hospitais. O nome maior da pop tomou a medicação por indicação do seu médico pessoal, Conrad Robert Murray, que achou ser esta a melhor maneira de resolver as insónias que estavam a atormentar o músico. Michael Jackson preparava-se para dar início a uma série de atuações na O2 Arena, em Londres. Seria a digressão "This Is It" e seria o aguardado regresso do dono de 'Thriller' aos palcos. O início da residência londrina estava agendado para julho desse ano mas não chegou a acontecer.

A vida do rei Michael Jackson foi conturbada. A infância foi engolida pelo sucesso dos Jackson 5 e a vida adulta foi ensombrada por acusações graves, como a acusação de abuso sexual que sentou Michael Jackson no banco dos réus em 2003. O artista norte-americano foi considerado inocente, mas a sombra acusatória (mais tarde reforçada com outras queixas) paira na memória coletiva da cultura popular até aos dias de hoje. A carreira, essa, foi fenomenal. Histórica. Michael Jackson é o autor do disco mais vendido na história da música. O álbum "Thriller", que foi lançado em abril de 1982, abriu "o ciclo que serviu como uma rampa para o trono da pop, em passos gloriosos e gigantes", como tão bem escreveu o nosso jornalista Gonçalo Palma no artigo que fez sobre os 40 anos do registo discográfico. Os discos seguintes, as brilhantes atuações ao vivo e o estratosférico movimento moonwalk sentaram-no no trono. O prolífico espólio musical de Michael Jackson é rico e oferece dúvidas na hora de escolher uma canção apenas. Optámos por reavivar 'Smooth Criminal' - faixa do álbum "Bad" de 1987. 


A rainha da pop, a monarca da reinvenção. Madonna, que ousa ser livre sempre que se expressa, segura a coroa aos 64 anos. O mundo deve-lhe muito. A cultura popular também. Lutou pelo trono, fez barulho, cantou, chocou, agitou, encantou e vingou no estrelato. E não para. Continua a movimentar-se na descoberta e na provocação. E cruza o que a motiva ou o que a desperta com a música e com a expressão nos palcos. Usando um exemplo ainda fresco, na digressão "Madame X" (que passou por Lisboa em 2020) a constelação do Michigan prestou homenagem a Portugal, país que a acolheu durante uns anos. Madonna até o fado cantou.

Quem é esta rapariga? É uma artista que tem o dom de multiplicar hits e alguém que nunca se encolheu com o peso das convenções sociais. É a rainha da pop porque agita o mundo para pô-lo a dançar logo a seguir. E agora, escolhemos qual? Bom, vamos então resgatar 'Like a Prayer' - faixa do disco com o mesmo nome que Madonna deu ao mundo em 1989. 


Freddie Mercury, o rei dos Queen

Freddie Mercury, o homem que usava mesmo o manto e a coroa. Faz sentido. O frontman dos Queen reinou em todos os palcos que pisou. Nascido a 5 de setembro de 1946 em Stone Town (na atual Tanzânia) e falecido a 24 de novembro de 1991, o cantor tornou-se um dos performers mais carismáticos da história do rock. Ainda hoje a existência de Mercury tem o dom de nos insuflar o espírito, de nos provocar longos arrepios

Poderíamos facilmente escolher o clássico 'Bohemian Rhapsody', uma peça artística de alto calibre (da autoria de Freddie Mercury) que os Queen incluíram no disco "A Night at the Opera" (de 1975). Mas escolhemos outra. Uma mais terna. Resgatamos o momento em que Freddie Mercury foi o maestro de uma vasta multidão (que parecia infinita) no espetáculo que a banda britânica deu no Rock In Rio, no Brasil, em 1985. Meio milhão de pessoas entoaram 'Love of My Life' com a voz da realeza.