Crise em Ceuta: Itália repõe controlos nas fronteiras, França reforça

Governo italiano decidiu uma "suspensão temporária" das regras Schengen com Espanha nas fronteiras marítimas e aéreas.

O Governo italiano anunciou hoje a reposição, devido à crise migratória em Ceuta, de controlos de aviões e embarcações provenientes de Espanha, aleatórios e excluindo cidadãos europeus, enquanto França vai reforçar a fronteira com polícias e meios aéreos. 

O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, publicou na rede social X que "a suspensão temporária com Espanha do espaço Schengen", de livre circulação na União Europeia (UE), é "uma medida prevista nos tratados e que se tornou agora inevitável".

"É uma decisão necessária para proteger a segurança dos nossos cidadãos e defender as fronteiras da Europa", referiu Tajani.

O ministro do Interior italiano, Matteo Piantedosi, anunciou a decisão de repor controlos com Espanha nos portos e aeroportos após uma reunião do Comité de Análise da Imigração e Segurança das Fronteiras. 

A reposição de controlos tem início no sábado e não foi especificado por quanto tempo durará.

Fontes governamentais adiantaram à agência espanhola EFE que a retoma dos controlos nas fronteiras aéreas e marítimas com Espanha não implica qualquer alteração para viajantes espanhóis e europeus, que podem entrar em Itália "sem quaisquer procedimentos burocráticos adicionais".

Os controlos introduzidos, adiantaram, "serão aleatórios e só afetarão os cidadãos de países terceiros (não pertencentes à UE) que chegam de Espanha, a fim de verificar a legalidade da sua entrada em Itália".

O Governo italiano foi o primeiro a criticar na quinta-feira a entrada ilegal de milhares de imigrantes em Ceuta a partir de Marrocos, com a primeira-ministra Giorgia Meloni a reclamar a adoção de “instrumentos extraordinários para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, como a suspensão do espaço Schengen com Espanha”, face a “imagens chocantes”.

O ministro dos Negócios Estrangeiros e também vice-primeiro-ministro de Itália, Antonio Tajani, acusou Madrid de ter encorajado “o tráfico de seres humanos” ao “conceder a cidadania espanhola a 500 mil imigrantes irregulares”.

Perante a posição de Roma, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, convocou o embaixador italiano em Madrid em sinal de protesto.

Também hoje, o ministro do Interior francês, Laurent Nuñez, anunciou que o número de polícias e guardas destacados para reforçar a fronteira franco-espanhola será quintuplicado até sábado, totalizando 334, devido à crise de Ceuta.

"A partir desta sexta-feira, além dos recursos já destacados diariamente, o reforço será triplicado, com a mobilização de 184 polícias e intensificação da vigilância por ‘drones’", escreveu o ministro francês na rede social X.

"A partir de amanhã (sábado), este número será quintuplicado, totalizando 334 polícias e guardas, além do efetivo habitual", explicou.

"A vigilância aérea será também reforçada com o destacamento de três aeronaves da Polícia de Fronteiras. Além disso, o patrulhamento ferroviário na linha franco-espanhola será intensificado", prosseguiu.

O primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, defendeu hoje que “este não é o momento para dividir”, perante críticas internacionais à crise migratória em Ceuta, dentro da União Europeia e até nos Estados Unidos.

Numa mensagem na rede social X, Sánchez apresentou dados do Frontex (Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira) sobre entradas irregulares no espaço da UE entre 2021 e 2026, que colocam Espanha em quarto lugar como “porta de entrada”, depois de Itália, Balcãs Ocidentais e Grécia. 

A posição de Sánchez surge depois de a cidade autónoma espanhola de Ceuta ter registado uma entrada em massa de migrantes vindos de Marrocos, que as autoridades locais estimaram em cerca de 60.000 pessoas desde quinta-feira, acima das cerca de 50.000 entradas contabilizadas pelo Governo de Madrid.

No entanto, ao longo do dia de hoje, milhares de migrantes regressaram voluntariamente a Marrocos.

Segundo o Ministério da Administração Interna espanhol, até às 18:00 locais (17:00 em Lisboa), já tinham abandonado o território de Ceuta 48.300 migrantes que tinham entrado de forma irregular, a pé ou a nado.

 As instituições europeias elogiaram a atuação do Governo espanhol e garantiram que os migrantes que entraram em Ceuta não estavam a deslocar-se para a Europa continental.

As críticas a Sánchez também vieram dos Estados Unidos, com o Presidente Donald Trump a classificar a crise como "terrível", enquanto o ministro de extrema-direita israelita Itamar Ben-Gvir dirigiu uma mensagem irónica ao primeiro-ministro espanhol, desafiando-o a "conceder refúgio" aos habitantes de Gaza que desejem emigrar.