Duran Duran na MEO Arena: liberdade para dançar e que seja num mundo melhor

A banda inglesa atuou esta noite na MEO Arena no âmbito da digressão "Free to Love".

“Free To Love” (livre para amar) é o nome da digressão que “devolveu” os Duran Duran a Portugal por algumas horas e é também o título do single mais recente do coletivo de Birmingham.

O tema, ainda fresco, contou novamente com a colaboração de Nile Rodgers, com quem o grupo colaborou artisticamente diversas vezes. A canção, revitalizante e certeira para a euforia das pistas de dança, chegou em boa hora para dar algum ânimo e cor ao mundo que teima em andar mais sombrio. Foi com o mesmo ânimo que os históricos ingleses chegaram à MEO Arena para contagiar os milhares que esta noite encheram a sala lisboeta.

“Quisemos criar algo mais animado, com o foco na luz. Optámos pela luz num mundo que, nos últimos anos, tornou-se bastante escuro. É uma canção que encoraja as pessoas a escolher o amor em vez do ódio”, disse-nos Roger Taylor na entrevista à rádio que antecipou o regresso do coletivo a Portugal. E hoje a mesma mensagem ecoou na arena.

Simon Le Bon, Nick Rhodes, John Taylor e Roger Taylor (o core histórico da banda) foram protagonistas, de excelência, de um concerto cheio que tanto honrou o passado do grupo como louvou a capacidade de a banda estar com os pés bem assentes no presente. Também protagonistas foram o guitarrista, Dom Brown, o homem do saxofone, Simon Willescroft, e as duas cantoras/bailarinas que espalharam alegria tanto através da voz como pelos movimentos.

“Nós tentamos olhar para a frente. Queremos entender o que está a acontecer agora e não o que aconteceu em 1983. Creio que essa disponibilidade para crescer e a capacidade de olhar para o futuro têm alimentado grande parte da nossa longevidade”, contou-nos Taylor quando o questionámos sobre a fórmula que sustenta a durabilidade saudável do coletivo britânico. Afinal de contas, são quase cinquenta anos de carreira. E a somar a isto - e talvez o mais importante - a uma amizade que os une é a cola infalível que continua a congregar multidões à volta do grupo.

Sente-se a fome de palco desta pequena e unida alcateia. O que os une manifesta-se em recorrentes trocas de cumplicidade ao longo do espetáculo. Querem divertir-nos mas também se divertem. E juntos. Quase no invejável posto de meio século de carreira, cada um entregua-se ao seu posto e todos se organizam organicamente na entrega absoluta ao público.

Desde os primeiros concertos que deram por cá, no Pavilhão Dramático de Cascais no Pavilhão Infante de Sagres no Porto em 1982, a vida aconteceu para toda a gente, é certo. Mas na arena lisboeta as emoções dos fãs mais old school mantiveram-se visivelmente intocáveis pela passagem do tempo.

No palco vimos a mesma jovialidade. Um grupo de “garotos” indomáveis que continua a saber onde está a glória e que materializa tamanha sabedoria na arte de dar espetáculo.

Disse-nos também Roger Taylor que a componente visual do concerto, que foi naturalmente criada por Nick Rhodes, serve para “apelar a todos os sentidos”. E assim foi. A cenografia projetada no ecrã chegou a ser quase palpável, com uma mistura incessante de universos que ia ilustrando as canções. Quem estava na arena lisboeta contemplou, por exemplo, uma breve homenagem à arte pop, ambientes na vanguarda da tecnologia, lobos sanguinários, estátuas da antiguidade, naves espaciais ou até mesmo um unicórnio a saltar entre as cores do arco-íris.

A conceção visual do grupo, na qual o amante de artes plásticas Nick Rhodes desempenha um papel fundamental, é, aliás, um traço distintivo dos Duran Duran. Era algo que não podia faltar.

O alinhamento, esse, atravessou a existência do grupo, ainda que resumida a perto de duas horas de concerto, mas não só. A dada altura, a nostalgia, ainda refrescante, dos grandes hits da banda cruzou caminho com uma surpreendente versão pujante de 'Heads Will Roll', dos Yeah Yeah Yeahs, ou com o mais previsível 'Psycho Killer', dos Talking Heads, servido ao lado do indispensável 'Girls on Film'. Foi, aliás, um dos momentos que despertou uma gigante massa de ar de euforia que soprou da plateia e das bancadas da sala.

Muito antes disso, o espetáculo abriu com uma sequência forte o suficiente para arrebatar até as pedras da calçada.

'Is There Something I Should Know?', com Roger Taylor a brilhar na bateria, abriu o concerto. A “relíquia”, sem pó, puxou de imediato pelas vozes do público e a pérola da era new wave/synth-pop ‘The Wild Boys’ explodiu a seguir, com um mar de chamas atrás do grupo e o ambiente já a ferver na sala.

Foi por esta altura que Simon Le Bon interagiu pela primeira vez com o público. Em português, soltou um airoso “tudo bem?” para depois apresentar 'A View to a Kill', tema de 1985 que serviu um dos filmes da saga de James Bond.

Quando escutámos o bem-disposto e irrequieto Simon a uivar percebemos logo que vinha a caminho outro clássico: 'Hungry Like the Wolf'. O frontman movimenta-se no palco com convicção e firmeza. Expande a força da voz, embora hoje parecesse engripado, sorri e aponta o microfone ao público. A multidão responde com cantoria e em sintonia.

Passagem direta para 'Evil Woman', canção editada pelos britânicos Electric Light Orchestra em 1975 que os Duran Duran incluíram na edição deluxe de "Danse Macabre" - álbum temático dedicado ao Halloween que a banda editou em outubro de 2023.

A dada altura, uma boneca robótica e uma marioneta frenética ocupam o ecrã enquanto a sala escuta o mashup 'Lonely in Your Nightmare/Super Freak'.

Logo depois John Taylor abre os braços e mantém a posição na introdução de 'The Reflex', canção acolhida de bom grado pelos que estavam na sala. 

Dança-se na plateia. E Simon, robusto e confiante, acompanha a dança ao ponto de arriscar uma pirueta. Sem demoras sobe depois para o posto das teclas para ficar mais próximo do companheiro Nick Rhodes.

Breve passagem por 'Only In Dreams' e 'Winter Marches On' a com um pé na introspeção sem deixar de ter algo de épico.

'Ordinary World' é antecedido por palavras profundas e urgentes. Simon desabafa: “torcemos e acreditamos porque somos otimistas. Não vai acontecer já amanhã, mas acreditamos que o mundo vai melhorar. Está muito sombrio agora. É um privilégio estar aqui esta noite. Há muita gente a passar por grandes dificuldades. Gostaria que pensássemos nas pessoas, cujas vidas não são fáceis. São pessoas que estão a lutar pelas próprias vidas, pela paz, por felicidade nos seus países. Só lhes desejamos um mundo normal”. 

As luzes dos telemóveis acendem para, claro, 'Ordinary World'. As vozes unem-se. No final da canção que embrulhou as palavras mais emotivas e sérias da noite, Simon agradece com as mãos juntas.

'Come Undone' foi cantada a duas vozes, a de Simon e a de uma das cantoras da dupla dos coros. Compasso de espera e solta-se o hit infalível 'Notorious' que meteu parte da plateia a pular de alegria e praticamente toda a gente a dançar.

Seguem-se 'I Don't Want Your Love' e 'Free to Love' e ainda há espaço para temas como 'Planet Earth', uma versão de 'White Lines (Don't Don't Do It)' e '(Reach Up for the) Sunrise'. Simon, agora com uma pandeireta na mão, continua a puxar pelo público. No final do tema, pede um sorriso geral para uma foto tirada por Nick. Solta-se do alinhamento 'Girls on Film' e 'Psycho Killer'. Pura euforia antes do encore. E uma multidão a pedir pelo regresso rápido dos Duran Duran ao palco.

'Save a Prayer', com as luzes dos telemóveis novamente a decorar a arena, e 'Rio' foram as que ficaram guardadas para o grande final.

Seguiram-se os agradecimentos com os sorrisos abertos de gratidão. E a aclamação merecida da arena a retribuir.