"Eclipse": a fotografia para lá da imagem numa série documental sobre tempo e a criação

A série documental Eclipse, realizada por Luís Costa e apresentada no Curtas Vila do Conde, convida o público a entrar nos bastidores da criação fotográfica, acompanhando de perto os artistas e o longo percurso que separa uma intuição da imagem final.

A série documental Eclipse, realizada por Luís Costa, propõe um olhar raro sobre a fotografia contemporânea. Longe dos retratos biográficos convencionais ou das análises centradas apenas na obra final, a série mergulha no espaço invisível da criação artística: o tempo, a espera, a dúvida e a solidão que antecedem cada imagem.

A apresentação da série no Curtas Vila do Conde representa um regresso especial para o realizador, que mantém uma ligação de mais de uma década ao festival. Mas é sobretudo uma oportunidade para mostrar um projeto que nasceu de uma curiosidade simples e que acabou por se transformar numa reflexão mais ampla sobre os artistas e os seus processos criativos.

O ponto de partida surgiu há alguns anos, quando Luís Costa foi convidado pelo fotógrafo Márcio Vilela para acompanhar um projeto fotográfico. O que inicialmente seria um documentário acabou por revelar um caminho mais ambicioso.

“Quando começámos a fazê-lo e a trabalhá-lo, acabámos por confrontar-nos com aquilo que já sabíamos: que a fotografia é uma arte muito solitária, mas também muito demorada”, explica o realizador.

Foi precisamente esse intervalo entre a ideia e a imagem final que despertou o interesse da equipa. “Filmar esse processo, ou filmar esse intervalo entre uma intuição e uma imagem, tinha para nós muito mais interesse do que fazer um documentário mais retrospetivo ou mais focado na parte final das obras”, afirma.

A partir daí, o projeto foi crescendo. Novos autores juntaram-se à narrativa e o que começou como um episódio isolado transformou-se numa série documental dedicada à criação fotográfica.

Mais do que fotografia

Apesar de partir do universo da fotografia, Luís Costa acredita que Eclipse ultrapassa os limites de um documentário temático sobre esta arte.

“Acho que a série ultrapassa esta lógica documental sobre fotografia. São filmes sobre pessoas, sobre os artistas, mas sobre pessoas”, sublinha.

O realizador procura aproximar o espectador dos fotógrafos através de uma observação paciente e íntima. Em vez de entrevistas formais ou explicações académicas, a série acompanha os gestos, os silêncios e os percursos de quem cria.

“A viagem acaba por ser uma viagem de intimidade”, resume. “Passamos muito tempo com os autores e com as pessoas que fazem estas imagens, de uma forma muito próxima, quase como se o espectador estivesse em coautoria com elas.”

O resultado é uma experiência que procura responder a uma pergunta essencial: o que faz da fotografia a arte que é?

O desafio de filmar o invisível

A própria natureza do projeto trouxe desafios particulares. Para captar processos criativos que podem durar semanas ou meses, foi necessário acompanhar os protagonistas durante longos períodos.

“Queríamos realmente passar tempo e sentir essa evolução”, explica Luís Costa. “Não queríamos ter uma abordagem efémera, de um dia na vida.”

Essa opção exigiu um modelo de produção reduzido e discreto. Na maioria das filmagens, a equipa era composta apenas pelo realizador e por um diretor de fotografia, juntando-se ocasionalmente um técnico de som.

“Não faria sentido filmar com muita gente um processo que é por si só solitário”, refere.

A escolha acabou por se tornar parte da identidade da série. A pequena dimensão da equipa permitiu uma maior proximidade com os fotógrafos retratados e ajudou a preservar a autenticidade dos momentos captados.

Um regresso a casa no Curtas Vila do Conde

A apresentação de Eclipse no Curtas Vila do Conde tem um significado especial para Luís Costa. O convite partiu da própria organização do festival, que acompanha o seu percurso enquanto realizador e produtor há mais de dez anos.

“Para mim é quase um regresso a casa”, confessa.

Embora a série tenha sido concebida para uma plataforma digital, o realizador reconhece que continua a pensar as suas obras com uma ambição cinematográfica.

“Fazemos sempre com essa intenção de sala e com essa intenção cinematográfica”, afirma. “Por isso, é muito bom voltar à sala do Curtas e ver este trabalho no espaço onde eu gostava que fosse sempre visto.”

O cineasta descreve a oportunidade como “um regresso a casa muito doce”, num festival que tem desempenhado um papel importante na divulgação do cinema português contemporâneo.

O futuro já está em marcha

Depois de Eclipse, Luís Costa não prevê abrandar o ritmo. Além da atividade como realizador, divide-se entre vários projetos de produção audiovisual.

Entre os próximos desafios está já confirmada uma segunda temporada da série, que deverá estrear no próximo ano na plataforma CaixaForum+.

Em paralelo, o realizador encontra-se a desenvolver a sua primeira longa-metragem de ficção, além de outros projetos que ocuparão os próximos anos.

“Temos muitos projetos ao mesmo tempo e com alguns anos pela frente já muito claros e definidos”, diz. Entre risos, admite que são “demasiados até para achar que isto é saudável”.

Um documentário sobre fotografia que, no fundo, acaba por ser um documentário sobre pessoas.

A primeira temporada é constituída por 4 episódios que acompanham o trabalho de fotógrafos como António Júlio Duarte, São Trindade, Carlos Lobo e Márcio Vilela.