Graça Freitas: "Momentos extraordinários requerem medidas extraordinárias e depois as pessoas voltam ao normal"
No dia em que se assinalam os seis anos desde que a COVID-19 foi decretada como pandemia, a médica especialista recorda o final da pandemia e reflete sobre os riscos de uma nova.
A 11 de março de 2020 a Organização Mundial de Saúde decretava a COVID-19 como pandemia.
A médica de saúde pública Graça Freitas era Diretora Geral da Saúde à altura. Passados seis anos, recorda o fim da pandemia, com os olhos postos na queda das medidas de prevenção e riscos futuros.
Como é que foi sentido o momento em que caem as máscaras?
É um alívio imenso. Agora o vírus não vai desaparecer da natureza, torna-se endémico. Pode no futuro de vez em quando, ter mutações melhores ou piores, mas de qualquer maneira nós já o conhecemos e temos alguma imunidade. Apesar de tudo, no conjunto, nós somos um país exemplar. As que perderam e as que ganharam - porque há sempre vítimas, heróis e bodes expiatórios. Ter chegado ao fim oficial da pandemia, que aconteceu até mais tarde do que acabar as máscaras, e perceber que cumprimos o nosso dever como país, como povo, como pessoas e como profissionais de várias áreas, com as nossas fraquezas, com as nossas fragilidades, mas também com a nossa capacidade, foi um imenso alívio. Foi pensar: missão cumprida. Apesar de todas as coisas menos boas de tudo o que aconteceu, o que poderia ter acontecido de uma forma melhor.
Agora vamos reconstruir. Depois tive aquela noção de que agora é para a frente novamente e de termos de voltar à atividade habitual e criar outra vez uma rotina. Mais uma vez, não tínhamos tempo para estar sentados a perceber bem o que é que tinha acontecido. Agora é para a frente, é fazer outra vez tudo entrar na rotina e recuperar. Tive um grande orgulho. As enfermeiras, os pais e as crianças não deixaram de se vacinar - porque foi uma atividade prioritária, porque nós decidimos que se mantinha no programa nacional de vacinação, até aumentou as coberturas. Foi uma coisa absolutamente extraordinária, porque quando eu vi os dados da avaliação, fiquei muito contente. A mortalidade infantil baixíssima.
Nós, como povo, tivemos uma capacidade, agora como se costuma dizer, de "resiliência": de nos adaptarmos a uma situação que foi de rutura e depois com rapidez nos adaptarmos novamente à vida como ela é, normal, com os seus desafios.
Há seis anos, conseguia imaginar que no inverno com picos complicados, como assistimos nos últimos anos à Gripe A, o papel da máscara seria desaprendido?
Conseguia. Houve a Covid 19 e a pandemia: as máscaras, manter a distância nas filas, não estar em cima umas pessoas das outras e lavar as mãos - mais do que as máscaras, ninguém lava, às vezes entro nas estações de serviço e descubro que sou a única pessoa que está a lavar mãos. Fizemos isso durante um período, que foi excecional.
Interpretamos as medidas exatamente da mesma forma, são medidas excepcionais. Grandes males, grandes remédios. Acabado aquele grande mal nós descartamos completamente as medidas. Foi um período com aquelas características e as medidas também. Como não percecionamos esta questão da Gripe A, destas epidemias de gripe, com a mesma intensidade, não adequamos as medidas porque não consideramos que sejam necessárias. Eu entendo esse fenómeno muito bem. Eu própria ponho máscara quando vou ao hospital, por exemplo, mas não quando vou ao supermercado porque não perceciono que a probabilidade de transmissão naquele ambiente seja de tal maneira grande e grave que necessite de usar uma máscara. Dito isto, não vou sem máscara se estiver a tossir, a espirrar ou com uma constipação.
Acho que tem a ver com isso. Momentos extraordinários requerem medidas extraordinárias e depois as pessoas voltam ao normal, porque isso faz parte da vida. É como uma guerra. Nós vivemos quando há uma guerra num ambiente e depois quando há paz tentamos voltar à nossa normalidade.
Quando vêm informações sobre novos vírus, como o Nipah, há uma preocupação que voltemos a passar por aquilo que foi a situação da Covid?
Há sempre uma preocupação latente.
Lembro-me do H5N1 em Hong Kong. Passou de aves silvestres para aves domésticas - as galinhas de Hong Kong -, depois a partir dessas galinhas atingiu pessoas e começou a passar de pessoa para pessoa. Esse foi um susto enorme, porque era um vírus com uma letalidade enorme, matava muitas das pessoas que infetava. Depois esse vírus teve a consequência de um enorme extermínio da origem que foi a grande matança das galinhas, um isolamento sobre as pessoas e não teve hipóteses de se propagar. Com o SARS de 2003, houve focos pelo mundo: na China em Hong Kong, no Vietname em Hanói e no Canadá. A contenção, como nós dizemos em saúde pública, fazer à volta dos doentes e dos seus contactos, um verdadeiro cordão sanitário, resultou. O vírus não se expandiu.
Esses vírus que têm esse comportamento passam a barreira das espécies. É como o SARS que passa dos camelos para as pessoas e depois não passa de pessoa para pessoa, mas está lá no Médio Oriente. Não sabemos se algum dia vai adquirir a capacidade de passar de um camelo para uma pessoa, essa pessoa transmite a outra pessoa. Esse é que é o problema. Estes vírus têm que ficar sob grande vigilância, porque vão mudando. Dizia muitas vezes às pessoas para entenderem que é como se fosse uma chave e uma fechadura. Há chaves e fechaduras que não são logo compatíveis, mas que a gente vai rodando e fazendo e alterando de tal maneira que em determinada altura consegue abrir uma porta. Os vírus tentam invadir as nossas células e vão sofrendo mutações adaptativas para cumprirem essa missão.
Acho que este vírus tem que ficar sob observação, está sobre vigilância e o seu percurso dependerá de ele adquirir ou não a capacidade de transmitir eficazmente de uma pessoa para outra pessoa. Dependerá também da capacidade dos serviços de saúde, se isto acontecer, de criarem à volta destes focos, como fizeram com o SARS, verdadeiras bolhas de contenção, que impeçam que a transmissão se torne comunitária. O problema é que quando eles saem destes pequenos nichos, que é de uma pessoa para outra pessoa e de repente estão na rua a infetar dezenas de pessoas.São vírus que têm que ficar sempre sob vigilância.
O pânico não nos leva a lado nenhum. Tudo isso tem que ser feito com racionalidade, método, com tudo o que aprendemos. Há metodologias para fazer estas vigilâncias, há muita gente que sabe o que tem que fazer e há muita gente que está, de certeza, a fazê-lo e a observá-lo de perto. Esse, e não só, porque há muitos outros.
