Hortênsias azuis, prémios Nobel e uma cidade rendida aos livros: Babell é novo grande festival literário europeu

Na inauguração, o Presidente da República destacou o papel dos livros como "uma extensão da memória e da imaginação" e um instrumento essencial para fortalecer a democracia e o pensamento crítico.

O Porto abriu as portas à primeira edição do Festival Literário Babell, um novo encontro internacional dedicado aos livros, à leitura e ao pensamento, que reúne alguns dos mais relevantes nomes da literatura mundial contemporânea. A inauguração ficou marcada por um cenário simbólico: centenas de hortênsias azuis compunham o pano de fundo da cerimónia e foram posteriormente oferecidas ao público, permitindo que cada participante levasse para casa uma memória viva do arranque deste novo capítulo cultural da cidade.

Promovido pela Fundação Livraria Lello, que investiu mais de três milhões de euros na criação do festival, o Babell reúne no Porto autores, pensadores, artistas e leitores de todo o mundo, afirmando-se desde a sua estreia como um dos mais ambiciosos eventos literários realizados em Portugal.

Na sessão inaugural, o Presidente da República, António José Seguro, destacou o papel central dos livros na construção das sociedades democráticas e na preservação da memória coletiva, recuperando uma célebre reflexão de Jorge Luis Borges: “De todas as ferramentas da humanidade, a mais surpreendente é sem dúvida o livro. (...) O livro é uma extensão da memória e da imaginação”.

Ao longo da sua intervenção, o Chefe de Estado sublinhou que, apesar das profundas transformações tecnológicas das últimas décadas, os livros continuam a ocupar um lugar insubstituível na vida das pessoas. “No mundo de hoje, continuamos a pensar que aquilo que aprendemos de verdadeiro está nos livros, na sua leitura individual, na sua comunicação discreta”, afirmou.

Para António José Seguro, a história da leitura está intimamente ligada ao progresso das sociedades modernas. “A revolução da leitura e da literacia foi uma das mais importantes da nossa história moderna. Talvez nenhuma grande transformação social tenha sido tão preciosa para a nossa civilização”, defendeu, recordando o impacto que a democratização do acesso aos livros teve na circulação do conhecimento, no desenvolvimento da ciência, no fortalecimento das instituições democráticas e na afirmação dos direitos humanos.

O Presidente considerou ainda que os livros permanecem um instrumento essencial de combate aos extremismos e às divisões sociais. “A leitura e os livros podem unir as pessoas e são um antídoto contra o extremismo, o esquecimento e a exclusão. São um antídoto contra a infelicidade também”, afirmou, acrescentando que os livros ajudam a recuperar “as palavras do meio”, fundamentais para o diálogo e para a convivência democrática.

A cooperação entre entidades públicas e privadas esteve igualmente em destaque no discurso presidencial. António José Seguro enalteceu o exemplo do Babell como demonstração de que a cultura pode ser construída através de parcerias duradouras, envolvendo fundações, empresas, autarquias, criadores e sociedade civil. “Esta associação é não só meritória, mas necessária. Está no coração da própria democracia e chama-se simplesmente cooperação”, salientou.

O Presidente deixou ainda uma palavra de reconhecimento à Fundação Livraria Lello, à Câmara Municipal do Porto e aos promotores do festival, considerando que o Babell representa um novo contributo para a afirmação da cidade como centro internacional da cultura e do pensamento.

Durante seis dias, o festival transforma o Porto numa cidade dedicada aos livros e aos leitores, recebendo alguns dos mais destacados nomes da literatura mundial, entre os quais os prémios Nobel Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai, além de autores como Salman Rushdie, Julian Barnes, Margaret Atwood, Javier Cercas, Conceição Evaristo, Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe.

Além dos encontros literários, a programação integra concertos, conferências, exposições, cinema, atividades para famílias e intervenções artísticas, incluindo um espetáculo do artista chinês Cai Guo-Qiang sobre o rio Douro.

Na conclusão da sua intervenção, António José Seguro sintetizou o espírito do festival numa declaração que ecoou entre os participantes: “É por isso que aqui estamos. Viva o livro!”

Com o Babell, o Porto reforça a sua tradição literária e abre um novo espaço de encontro entre escritores e leitores, celebrando o livro não apenas como objeto cultural, mas como instrumento de liberdade, conhecimento e imaginação.