Javier Cercas: "A Igreja Católica é a coisa mais estranha do mundo"
No BABELL, no Porto, o escritor espanhol falou sobre o seu novo livro, a inédita abertura do Vaticano a um escritor, a busca pela resposta à grande pergunta do cristianismo e o papel da literatura num tempo marcado pela desinformação.
O escritor espanhol Javier Cercas acredita que algumas propostas são impossíveis de recusar. Foi precisamente assim que encarou o convite do Vaticano para acompanhar o Papa Francisco e transformar essa experiência num livro. O resultado é uma obra singular, nascida de uma circunstância inédita: pela primeira vez na história, a Igreja Católica abriu as suas portas a um escritor.
“A pergunta não é porque aceitei escrever este livro, mas como poderia não aceitá-lo”, afirmou Cercas durante uma conversa no festival BABELL, no Porto.
Para o autor de O louco de Deus no fim do mundo, a oportunidade tinha uma dimensão histórica. “Nunca tinha acontecido que a Igreja Católica abrisse as portas do Vaticano a um escritor. Foi um privilégio extraordinário.”
Mas o livro acabou por ser muito mais do que o relato de uma experiência única. Tornou-se uma investigação íntima sobre a fé, a morte e a esperança.
Uma pergunta para o Papa, uma resposta para a mãe
Cercas revelou que a génese da obra está ligada a uma memória pessoal. Quando recebeu o convite, em maio de 2023, pensou imediatamente na mãe, uma católica profundamente crente.
Após a morte do marido, recorda, ela repetia que voltaria a encontrá-lo depois da morte. Não era apenas uma convicção pessoal, mas uma crença situada no centro da doutrina cristã.
Foi então que o escritor percebeu qual seria o verdadeiro tema do livro. “Sou um louco sem Deus”, disse, definindo-se como alguém educado na fé cristã que perdeu a crença na adolescência e continua ateu. “Mas sou um louco sem Deus que vai procurar um louco de Deus.” O “louco de Deus” é o Papa Francisco, explicou, recuperando uma expressão associada a São Francisco de Assis, inspiração do pontífice.
No livro, Cercas acompanha o Papa numa viagem à Mongólia, que descreve como “o fim do mundo”, para lhe colocar aquela que considera a pergunta mais simples e simultaneamente mais difícil do cristianismo: haverá vida depois da morte? “Queria perguntar ao Papa se a minha mãe voltará a encontrar o meu pai. O livro foi escrito para fazer essa pergunta.”
Um romance policial sobre o maior dos mistérios
Embora trate de questões espirituais e existenciais, Cercas vê a obra dentro da tradição dos romances policiais. “Todos os meus livros são romances policiais”, afirmou. A explicação é simples: existe sempre um enigma e alguém que procura decifrá-lo. Neste caso, porém, o mistério é maior do que qualquer crime ou segredo histórico. “O enigma deste livro é o enigma dos enigmas: a ressurreição da carne e a vida eterna.” Segundo o autor, trata-se de uma investigação literária sobre uma das questões fundadoras da civilização ocidental e da tradição cristã.
A literatura contra as simplificações
Ao longo desta entrevista, Cercas refletiu também sobre o papel da literatura numa época marcada pela polarização e pela tendência para dividir o mundo entre heróis e vilões. “O mundo é muito complexo”, sublinhou.
Para o escritor, a grande missão da literatura consiste precisamente em revelar essa complexidade humana. “As melhores pessoas podem cometer os piores erros. A literatura explora essa ambiguidade.” Por isso, rejeita a ideia de que os livros devam servir como instrumentos de propaganda, moralização ou pedagogia. “A boa literatura não diz às pessoas como se devem comportar. Mostra que a realidade é muito mais complexa do que parece.”
Verdade, mentira e cidadania
Questionado sobre a proliferação da desinformação, Cercas reconheceu que o descrédito da verdade é um dos fenómenos mais perigosos do presente. “Parece que hoje se mente mais do que nunca. Não é verdade. Mentiu-se sempre.” Na sua perspetiva, a mentira sempre foi uma ferramenta fundamental do poder porque permite controlar as pessoas. “O Evangelho diz que a verdade vos tornará livres. Isso significa que as mentiras fazem escravos.” Ainda assim, faz uma distinção clara entre o papel dos escritores e o dos jornalistas. Enquanto cidadãos, ambos têm responsabilidades na defesa da verdade e de uma sociedade habitável. Já a literatura segue um caminho diferente. “A literatura não é jornalismo. Não é propaganda. Não é pedagogia.”
Ler é uma forma de viver mais
Num dos momentos mais descontraídos da conversa, Cercas falou da leitura como uma experiência essencial da condição humana. “A literatura é, antes de mais, um prazer”, afirmou. Comparou mesmo a leitura ao sexo, defendendo que ambas são formas privilegiadas de conhecimento e de intensificação da vida. “Quando alguém me diz que não gosta de ler, a única coisa que me ocorre é apresentar-lhe as minhas condolências. É como alguém que não gosta de sexo.” Para o escritor, os livros permitem viver de forma mais rica, intensa e complexa, oferecendo um tipo de verdade diferente daquela procurada pela história ou pelo jornalismo. “A literatura procura uma verdade universal, uma verdade moral, aquilo que acontece a todos os seres humanos em qualquer lugar e em qualquer circunstância.”
O próximo livro já está em marcha
Apesar de ter acabado de apresentar uma das suas obras mais pessoais, Cercas confirmou que já trabalha num novo projeto. Sobre o tema, porém, manteve o mistério. “Já estou a escrevê-lo”, revelou, recusando adiantar mais detalhes. “Não posso contar. A minha religião impede-me.” Uma resposta bem-humorada que arrancou sorrisos e que encerrou uma conversa marcada pela reflexão sobre a fé, a dúvida e a literatura. Temas que, para Javier Cercas, continuam a ser inseparáveis da tentativa de compreender o que significa ser humano.
